Enchente que destruiu parque Daisaku Ikeda completa 10 anos
Parque ecológico de Londrina está abandonado e acumula tragédias, com duas mortes registradas desde o fechamento; moradora relata a sensação de impotência
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
Parque ecológico de Londrina está abandonado e acumula tragédias, com duas mortes registradas desde o fechamento; moradora relata a sensação de impotência

No dia 11 de janeiro de 2016, uma chuva histórica deixou um rastro de destruição por Londrina, invadindo casas, derrubando pontes, ilhando munícipes e devastando lavouras. Na zona sul, o Parque Ecológico Municipal Doutor Daisaku Ikeda, localizado na PR-218, estrada para o Distrito de Maravilha, foi levado pela força da água do Ribeirão Três Bocas, o que acarretou no fechamento da unidade de conservação. Ao longo da última década, a FOLHA vem noticiando o abandono, mortes ocorridas no local e a esperança de projetos de revitalização saírem do papel. A Prefeitura deu mais um passo em direção à execução neste mês, porém, ainda sem previsão de datas.
Na área onde está o parque funcionou a Usina Hidrelétrica Três Bocas, implantada em 1943 pela antiga Companhia Paranaense de Energia Elétrica e desativada quarenta anos depois. O local foi transformado em unidade de conservação em 2000, com o nome homenageando o líder budista e filósofo Dr. Daisaku Ikeda. Com 120 hectares no total, matas nativas compondo a cobertura vegetal e fauna abundante, uma lei federal classificou o espaço como área protegida. A Sema (Secretaria Municipal do Ambiente) é a responsável pela gestão.
Em janeiro de 2016, fortes chuvas levaram ao rompimento das bordas da barragem e a passarela da antiga usina, gerando uma grande erosão. Sem manutenção, a sede administrativa também deteriorou com o tempo, sendo alvo de vandalismo e acumulando lixo. O lugar está fechado para visitação desde então, sinônimo de insegurança para os moradores que faziam uso do espaço antes do ocorrido. É o caso de Juliana Medeiros, auxiliar administrativa que frequentou o parque desde a inauguração, 26 anos atrás, até a interdição.

‘Arrancaram um pedaço de nós’
A moradora recordou que o parque era “muitíssimo bem cuidado” pela ONG (Organização Não Governamental) Brasil Soka Gakkai Internacional, com guarda 24 horas, parque infantil e uma casa com banheiros e cozinha. Carinhosamente, Medeiros se referiu ao local como patrimônio histórico de Londrina, pensando no alto número de visitantes que recebeu até 2016 e a importância “para o comércio local, para os moradores e para o bairro em si”.
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Com os rescaldos da enchente, o sentimento comum entre os residentes foi de “tristeza sem fim”. “Arrancaram um pedaço de nós, foi uma sensação de frustração e medo, por causa do risco que ficou daquela ponte cair, risco do pessoal que mora do outro lado (do ribeirão) ficar totalmente isolado. Nós perdemos um pedaço da história da nossa comunidade, ficaram só as lembranças do que vivemos ali”, pontuou.
Medeiros contou que ainda em 2016, logo após a enchente, começaram as invasões no parque, seja para furtar o que ainda restava da casa administrativa ou utilizar o espaço para festas. “Som alto, pessoas bêbadas ou usando drogas, já fizeram fogueira, o que provocou até pequenos incêndios. Infelizmente, a população também falha e deixa detritos ali, tem uma lixeira que é da comunidade, mas virou uma terra sem lei porque não tem fiscalização. Começaram a poluir a lixeira de uma forma totalmente errada e a gente nunca consegue saber quem é, porque não temos ninguém que olhe pelo parque ou câmeras”.

Comunidade pede socorro
A auxiliar administrativa é vice-presidente da Associação dos Moradores da Usina Três Bocas, que tem viabilizado ações almejando maior segurança na área e a reconstrução do parque. Contando que nenhuma gestão municipal, estadual e federal “deu bola” para as reivindicações desde 2016, a comunidade vem “pedindo socorro diariamente”, recorrendo à imprensa para ter visibilidade.
As principais solicitações feitas à Prefeitura eram o cercamento geral da unidade, monitoramento por câmeras de segurança e a restituição dos guardas divididos em turnos, levando em conta o risco à vida de quem frequenta o local abandonado.
Relembrando as duas vidas que foram findadas no Ribeirão Três Bocas, que passa pela unidade de conservação, Medeiros contou que a comunidade se encontra em um estado de impotência. “Você luta, vai até os órgãos competentes, vai até os veículos de comunicação, divulga o que está acontecendo e ninguém te ouve, aí você vê dois óbitos que poderiam ser evitados”, lamentou.

Mortes por afogamento
Em abril de 2022, um jovem de 18 anos tentou atravessar o corpo d’água com um amigo para chegar na cachoeira, mas afundou e não foi mais visto pelo colega. Bombeiros realizaram cerca de 20 minutos de buscas até encontrá-lo, já sem pulso e com as pupilas dilatadas. Na época, a FOLHA noticiou a presença de avisos com alertas sobre a proibição para nado, mas como não existia fiscalização, pessoas utilizavam a estrutura para banho. Medeiros contou que a situação persiste, mas que não observa placas com a sinalização.
Já em junho de 2023, o corpo de Thiago Vinícius Procópio Rocha, de dois anos, foi encontrado após seis dias de buscas na área. A criança havia passado um sábado na companhia da mãe e do namorado dela, que perceberam somente na volta para casa que o menino não estava no banco de trás do carro. O casal foi indiciado por homicídio culposo, ou seja, quando não há intenção de matar.
Após o óbito, o MP-PR (Ministério Público do Paraná) expediu uma recomendação administrativa ao município, indicando uma série de intervenções de segurança e melhorias a serem adotadas. Poucas melhorias paliativas foram colocadas em prática, com a instalação de barreiras de concreto nas duas entradas e saídas de veículos, além de faixas zebradas e cavaletes alertando sobre o perigo de desabamento próximo ao barranco do Ribeirão.
A vice-presidente informou que “tem uma cerca bem fraquinha na lateral e você não consegue entrar de carro pelo portão, mas você estaciona em cima, desce à noite, ninguém vê e você entra normal a pé”, contou Medeiros. Ela salientou que a atenção das últimas gestões municipais tem se voltado à outros pontos turísticos, como o Lago Igapó e Parque Arthur Thomas, reaberto em dezembro, mas que o parque Daisaku Ikeda foi “esquecido e abandonado”.

Licitação de projetos complementares
Em junho de 2024, um instituto com sede no estado de São Paulo doou uma proposta conceitual para a revitalização do parque à Prefeitura, que demandava projetos complementares, como arquitetônicos e executivos, para sair do papel.
A gestão atual informou que, no momento, a Sema realiza os orçamentos para contratar os projetos complementares, que têm custo máximo de R$ 390.316,00 e serão feitos com recursos do Fundo Municipal do Meio Ambiente. A licitação para designar a empresa responsável ocorreu no dia 5 de janeiro, com seis propostas recebidas. Como ainda estão em processo de análise, não há previsão de definição ou início.
O órgão esclareceu que a revitalização deve começar assim que a obra for licitada, sendo que está viabilizando recursos, de diferentes fontes, para a execução. “Vale destacar também que a Sema só terá o valor final para a obra após a conclusão desses projetos e de seus respectivos orçamentos”, completou a nota.

Roçagem e limpeza
Na manhã desta quarta (14), uma equipe da Sema iniciou a roçagem do mato na área do Parque Ecológico Municipal Doutor Daisaku Ikeda, utilizando um trator da Secretaria Municipal de Agricultura. Na quinta (15), os servidores da pasta devem complementar os trabalhos com o uso de roçadeiras. A previsão é concluir o serviço até o final da semana.
A Sema informou ainda que, recentemente, realizou a coleta de lixo doméstico descartado irregularmente na área. Já em relação aos materiais recicláveis acumulados no local, disse que acionou a CMTU (Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização) para que sejam tomadas as devidas providências.


Heloísa Gonçalves
Repórter com atuação em Educação, Saúde e Cidades.





