DE CAPITAL DO BILHAR A POLO DE CAIXÕES -

Com recorde de mortes, fábrica de caixões tem atraído fila de clientes a Jaguapitã


Celso Felizardo - Grupo Folha
Celso Felizardo - Grupo Folha


Quando se chega em Jaguapitã pela PR-340, um pórtico já avariado exibe com orgulho o título: “A Capital do Bilhar”. O município de 13 mil habitantes, distante 50 quilômetros de Londrina, é conhecido por suas pequenas fábricas de mesas desse jogo tão popular em todo o país. De Jaguapitã sai quase um terço da produção nacional de mesas de sinuca.


 

Com recorde de mortes, fábrica de caixões tem atraído fila de clientes a Jaguapitã
Folha Arte
 


Em tempos de pandemia e bares fechados, porém, os holofotes se voltaram para outro tipo de produção. Nos últimos meses, um dos destinos mais procurados da cidade é um barracão de 700 metros quadrados localizado em uma ruazinha de terra no parque industrial da cidade. Trata-se da Urnas Jaguapitã, uma das únicas fábricas de caixões da região. 



O movimento disparou desde que os tristes números da pandemia da Covid-19 fugiram do controle das autoridades em saúde. Caminhões, furgões e carros funerários chegam a fazer fila em frente à fábrica dos irmãos José Carlos Fernandes Filho, 35, e Marcelo Fernandes, 33. A produção, que antes se limitava a atender a demanda regional, agora não dá conta de atender pedidos de todo o país.


 

 

Com recorde de mortes, fábrica de caixões tem atraído fila de clientes a Jaguapitã
Isaac Fontana/FramePhoto/Folhapress
 


A alta procura é reflexo do pior momento da pandemia no Brasil, que chegou a ultrapassar a marca de 3.000 mortes na terça-feira (23). O movimento é tanto que os irmãos Fernandes precisam controlar o acesso para que não haja aglomeração na fábrica. São clientes, fornecedores e outros parceiros que não param de chegar. “Antigamente a gente tinha que ir atrás. Agora, os clientes veem e ainda pagam adiantado”, conta José Carlos.


Os irmãos estão há 10 anos no ramo. Começaram a trabalhar como empregados em uma fábrica na cidade que fechou as portas. Agora são donos do próprio negócio, mas engana-se quem acha que levam “vida de patrão”. José Carlos conta que eles chegam às sete da manhã e só deixam a labuta por volta das 22 horas. “A gente não esperava uma coisa dessa [pandemia], mas temos que trabalhar, até para que as pessoas possam ter um enterro digno”, comenta.


Até o ano passado, a fábrica produzia cerca de 250 a 300 urnas por mês. Agora, Marcelo acredita que a produção deva chegar próximo de mil urnas em 30 dias. A fábrica que chegou a ter 20 funcionários, hoje emprega seis trabalhadores. Segundo Marcelo, resultado da crise que se abateu sobre o país nos últimos anos. Com o aumento da demanda, há a intenção de contratar pelo menos mais cinco funcionários.



 

Com recorde de mortes, fábrica de caixões tem atraído fila de clientes a Jaguapitã
Isaac Fontana/FramePhoto/Folhapress
 




Os dois irmãos acreditam que ainda há um grande preconceito com questões ligadas aos setores da economia ligados ao luto. “A gente nunca queria que acontecesse isso, mas temos que aproveitar o momento. Vai saber o que vai acontecer daqui pra frente”, diz José Carlos. “Além do mais, isso é o que sabemos fazer de melhor. É a nossa vocação e também é um serviço essencial”, completa.


Ele expõe que se houvesse mais incentivo para o setor, não seria preciso “se matar” de trabalhar em um momento como esse. “Temos fila agora, mas nem sempre foi assim. O problema é que temos que recusar muitos serviços por falta de capacidade. Não temos dinheiro para ampliar, para contratar. Não se consegue financiamento. É só propaganda”, critica. 


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Antes regional, distribuição segue para todo o país


A linha de montagem começa na marcenaria, onde os operários dão forma às placas de MDF, aglomerados e às tábuas de pinus. Em seguida, as peças seguem para a montagem. As madeiras ganham a tradicional forma oblonga. Na próxima fase, são acrescentados os detalhes no acabamento. Os modelos mais sofisticados ganham detalhes em gesso e outros adornos. “Esses são mais difíceis de sair. Agora, sem poder fazer velório, a maioria escolhe o modelo mais simples mesmo”, diz José Carlos.


Há vários tipos de tamanhos. Na última ponta da linha, as urnas ganham pintura, ferragens e são embaladas para serem despachadas. Entre os clientes estão funerárias da região e também empresas que compram em grande quantidade para revender em todo o país. Na segunda-feira, os Fernandes atenderam uma empresa de Mirassol (SP), que levou 300 caixões para que eles fizessem o acabamento. “Eles trouxeram esse carregamento só pra gente finalizar”, explicou Marcelo.



 

Com recorde de mortes, fábrica de caixões tem atraído fila de clientes a Jaguapitã
Isaac Fontana/FramePhoto/Folhapress
 


Nos dois caminhões lotados de caixões que vieram do interior paulista, os funcionários contam que nunca trabalharam tanto. Eles aguardavam a conclusão das peças para fazer a distribuição. Parte das peças seria levada para o norte do Mato Grosso. “A gente tem viajado pelo país inteiro, os pedidos não param. É caixão, é flor. É uma profissão diferente. Tem que gostar muito do que faz. Eu gosto. Você não gosta do que você faz?”, questiona um dos trabalhadores, morador de Santa Catarina.


José Carlos lembra que quando começou, estranhou um pouco o ofício. Mas logo se acostumou. “Tudo o que tem a ver com morte assusta um pouco né, mas a gente aprende a lidar. Quando os novatos entram aqui, levam umas semanas para se adaptarem. Eu falo pra eles que eles estão fabricando um móvel”, compara.


No fundo do estoque, algumas mesas de bilhar por terminar se destacam em meio a pilhas de caixões. Quando a produção de caixões estava baixa, as mesas eram a saída para o complemento da renda. Agora, elas devem ficar paradas lá por mais algum tempo. Na cidade, a população não vê a hora de tudo voltar ao normal. “A gente fabrica caixão, mas não quer usar, né. Estamos na torcida para que tudo volte à normalidade”, espera Marcelo.



Com 30 óbitos, município tem baixa conscientização


Até o fim de semana, Jaguapitã acumulava 30 óbitos pela Covid-19, sendo quatro confirmados nos últimos três dias. Dos 1.542 casos confirmados, 300 permaneciam ativos. Tamanha demanda tem sobrecarregado o sistema de saúde local. 


De acordo com Camila Thaísa Nóbrega, diretora do hospital municipal Joaquim Rodrigues da Silva, a unidade teve que ampliar de sete para 10 o número de leitos exclusivos para os contaminados pelo vírus. “Tivemos que quebrar paredes e avançar sobre a área administrativa, porque não estávamos dando conta”, expõe.


Segundo ela, o consumo de oxigênio triplicou nas últimas semanas, assim como aumentou consideravelmente o uso de medicamentos e bombas infusoras. “A situação é muito séria. Antes conseguíamos rapidamente a transferência de pacientes mais graves para as unidades de referência. Agora, os pacientes estão permanecendo aqui por quatro a cinco dias”, relata.


A cidade não tem uma unidade sentinela e o hospital é a única referência para o atendimento da Covid-19. Para fazer frente à demanda, a diretoria precisou fazer contratações emergenciais de profissionais de saúde. “Estamos fazendo uma campanha muito grande de conscientização. Conversamos com os abatedouros. Precisamos reduzir ao máximo o contágio”, diz.


A gravidade da situação, no entanto, não parece ser sentida por todos. Nas ruas, ainda se vê muita gente sem máscaras e pouco distanciamento nas filas dos bancos. Itamar Aparecido Vieira é dono de uma lanchonete no centro da cidade. Ele colocou o balcão obstruindo a porta de entrada, deixando os salgados como vitrine. “A situação é muito séria. Quando será que as pessoas vão perceber isso?”, lamenta. 


 

Com recorde de mortes, fábrica de caixões tem atraído fila de clientes a Jaguapitã
Isaac Fontana/FramePhoto/Folhapress
 


No pequeno município, todos conhecem alguém que perdeu a vida para a doença, mas nem isso parece sensibilizar a todos. “Eu não sei o que mais falta acontecer para essas pessoas tomarem juízo. Tem que se cuidar”, adverte Rosângela Lins, funcionária de Itamar. Já Luís Carlos Soares, também dono de uma lanchonete na cidade, acha injusto não poder receber clientes, uma vez que outras lojas podem. “Ou abre todo mundo ou fecha tudo. Tem muita loja aberta aí que não é serviço essencial”, reclama.



Associações pedem planejamento para não faltar caixão


A Abredif (Associação Brasileira de Empresas e Diretores do Setor Funerário e de Administradores de Planos de Assistência) e a Afub (Associação dos Fabricantes de Urnas do Brasil), divulgaram recentemente uma nota conjunta com orientações para empresas funerárias quanto a compra e armazenamento de caixões. A nota pede “planejamento” para a compra de urnas funerárias, de forma que não falte o produto em nenhuma região do país.


 

Com recorde de mortes, fábrica de caixões tem atraído fila de clientes a Jaguapitã
Isaac Fontana/FramePhoto/Folhapress
 


As associações alertam que o  setor precisa estar preparado para realizar, nos próximos 90 dias, 500.000 atendimentos funerários. Porém as fábricas não devem conseguir suprir essa demanda. “Esta é a estimativa que poderá ser alcançada segundo os especialistas que estão estudando a evolução do número de óbitos. Os fabricantes conseguem produzir, com muito esforço, algo em torno de 390 a 400 mil urnas neste período. Teremos que usar grande parte, em alguns casos, até o limite, o nosso estoque regulador”, diz a nota.


De acordo com a nota, a palavra de ordem no momento é: planejamento. “Todas nossas compras precisam ser planejadas para que não sobre em uma região e falte em outra. Ninguém deve comprar além da necessidade, nem ter menos que o necessário. Precisamos ter a sensibilidade de que nesta hora nenhum esforço é grande demais, se envolver de corpo e alma nesta tarefa. Dedicação total”, conclamam.


Outra preocupação do setor é com relação à falta de matéria-prima. Alguns produtos como aço, madeira, MDF e produtos químicos sofreram alta nos preços e estão escassos no mercado. As matérias primas oriundas de commodities, são hoje tratadas como 'joias raras', e a especulação continua fazendo com que tenhamos aumentos sucessivos e sem garantia de fornecimento, principalmente quando falamos de aço, madeira, MDF e produtos químicos. Os insumos vêm sofrendo reajustes massivos e o seu abastecimento é incerto, fazendo inclusive que algumas empresas recorram ao varejo, onde o custo é muito maior”.


José Joaquim Gomes, funcionário do Grupo Bruschetta, um dos maiores do país, contou que a empresa elevou a produção diária de 400 para mil caixões nas unidades de Bilac (SP) e Russas (CE). O grupo é um dos cinco fornecedores de caixões da Acesf (Administração dos Cemitérios e Serviços Funerários de Londrina). Segundo Gomes, a fila hoje para a compra de urnas na empresa é de mais de dois meses.


“Há uma preocupação muito grande com a falta de matéria-prima. Se nada for feito, corremos sérios riscos de, em alguns meses, enterrar as pessoas sem caixões”, comentou Gomes. Em Jaguapitã, os irmãos Fernandes também demonstraram a mesma preocupação. “Já está bem difícil conseguir alguns produtos. A hora que os estoques acabarem, não sei como será”, comentou José Carlos.


Paulo Pirola, gerente de suprimentos da Acesf, contou que aumentou os pedidos diante do cenário de incertezas. “Temos uma responsabilidade muito grande. Somos a única funerária de Londrina. Então, diante do cenário atual e com as perspectivas dos fabricantes, resolvemos nos prevenir para não enfrentarmos um cenário de calamidade na cidade nos próximos meses”.


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