Uma pesquisa recém-divulgada conseguiu desenvolver um revestimento responsável por mais que dobrar a vida útil do morango – de 5 para 12 dias. A fruta figura hoje em terceiro lugar no ranking de perdas no setor de hortifrúti, ficando apenas atrás do tomate e da batata.

Os pesquisadores Josemar Filho e Marcos David Ferreira são os responsáveis pelo estudo
Os pesquisadores Josemar Filho e Marcos David Ferreira são os responsáveis pelo estudo | Foto: Amanda Akashi/Divulgação

O pesquisador Josemar Gonçalves de Oliveira Filho, pós-doutorando na Embrapa Instrumentação, explica que a motivação para a pesquisa surgiu a partir da durabilidade muito curta do morango, além do fato de o fruto ser acometido por podridões causadas por fungos durante o armazenamento.

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“Além disso, quando comparado a outras frutas, o morango apresenta uma particularidade, sua superfície rugosa e sensível. Devido a isso, os revestimentos comercialmente disponíveis e utilizados em outras frutas, como laranja, limão e mamão, dificilmente apresentam bons resultados na conservação dos morangos”, pontua.

Pesquisadores consideram a tecnologia acessível devido à simplicidade do processo de produção do revestimento
Pesquisadores consideram a tecnologia acessível devido à simplicidade do processo de produção do revestimento | Foto: Amanda Akashi/Divulgação

Todos esses aspectos motivaram o pesquisador a desenvolver um material personalizado utilizando nanotecnologia, que fosse compatível com a superfície do morango e que pudesse prolongar a sua durabilidade. A nanotecnologia é a técnica científica empregada para controlar materiais por meio da manipulação de átomos e moléculas.

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Josemar explica que a alta perecibilidade do morango ocorre principalmente porque ele apresenta uma alta taxa de respiração e textura macia, o que o torna muito sensível a danos físicos que podem acelerar o seu processo de apodrecimento e também contribuem para o desenvolvimento de podridões por fungos. “Todas essas características reduzem a vida útil do fruto e contribuem para o seu desperdício.”

A PESQUISA

O revestimento desenvolvido, quando aplicado na superfície do morango, forma uma espécie de película bem fina, após a evaporação da água. Essa fina película, por sua vez, cria uma barreira entre a fruta e o oxigênio presente na atmosfera.

“A redução do contato da fruta com o oxigênio faz com que o morango respire de forma mais lenta, o que acaba atrasando o seu metabolismo. O atraso no metabolismo faz com que a fruta perca menos água (fique murcha) e estrague mais lentamente”, explica.

Pesquisadores consideram a tecnologia acessível devido à simplicidade do processo de produção do revestimento
Pesquisadores consideram a tecnologia acessível devido à simplicidade do processo de produção do revestimento | Foto: Amanda Akashi/Divulgação

A película formada na superfície do morango também torna a fruta mais resistente a danos físicos, o que reduz a sua deterioração.

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“Além disso, devido à sua atividade antimicrobiana, a película impede o crescimento de fungos, um dos principais vilões dessa fruta, na superfície do morango. Todas essas características contribuem para aumentar a durabilidade do morango”, acrescenta.

Essa descoberta levou quatro anos. Josemar considera a tecnologia acessível, principalmente devido à simplicidade do processo de produção do revestimento, e pela sua composição que utiliza apenas compostos comestíveis de origem vegetal.

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“Para aplicação em larga escala, seria necessário apenas o desenvolvimento ou adaptação de um sistema para aplicação da solução de revestimento em larga escala, por aspersão, acoplado a uma câmara de secagem”, conclui.

LINHA DE PESQUISA

Orientador de Josemar, o pesquisador da Embrapa Instrumentação Marcos David Ferreira explica que o trabalho deriva de uma linha de pesquisa iniciada anos atrás na Embrapa Instrumentação, baseada em revestimentos comestíveis, de base sustentável, com componentes vegetais Plant-based, que resultou em 2019 no lançamento da nanoemulsão de cera de carnaúba no mercado.

No ranking de perdas do setor de hortifrúti, o morango ocupa o terceiro lugar
No ranking de perdas do setor de hortifrúti, o morango ocupa o terceiro lugar | Foto: istock

“A pesquisa envolveu uma parceria público-privada, direcionada para frutas como manga, limão e mamão, e que hoje é comercializada no Brasil e também no exterior, com extensão na vida de prateleira, em alguns casos, em até 2 semanas”, pontua.

A Embrapa Instrumentação sedia o LNNA (Laboratório Nacional de Nanotecnologia Aplicada ao Agronegócio), que atua diretamente nessa linha de pesquisa fornecendo toda uma estrutura física, com equipamentos avançados e pessoal, com técnicos altamente qualificados. “Existem outros grupos no Brasil que participam da Rede de Nanotecnologia Aplicada ao Agronegócio, iniciada em 2006, distribuída em todo o país, com interações também com o exterior.”

FASE

Sobre a pesquisa que criou o revestimento para o morango, Marcos explica que o estudo ainda está na fase de laboratório.

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“Já fizemos a prova de conceito, com o desenvolvimento da técnica com indicações dos benefícios na conservação do morango, com a extensão da vida de prateleira em até 7 dias.”

O pesquisador acrescenta que, com a finalização desta etapa em laboratório e divulgação da pesquisa na mídia, empresas e grupos de produtores interessados têm surgido e propostas têm sido avaliadas.

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“A Embrapa possui mecanismos para viabilizar isso, como as parcerias públicos-privadas que já utilizamos anteriormente, como no exemplo citado acima da nanoemulsão de cera de carnaúba.”

Sobre o desenvolvimento da nova tecnologia em larga escala, o pesquisador pondera que depende das parcerias que surgirão e também do investimento a ser realizado.

“Em geral, o tempo médio de tecnologias como essa para chegarem ao produtor demora até 4 anos ou até o dobro de tempo, considerando as variáveis, como o tipo de parceria a ser implementada e investimentos aportados”, conclui.

EXPECTATIVA

O presidente da ANV (Associação Norte Velho dos Produtores Rurais de Jaboti, Japira, Pinhalão e Tomazina), Carlos Inácio, tem a expectativa de que a nova tecnologia esteja em breve disponível aos produtores de morango, para amenizar as dores do setor.

Hoje os produtores têm dificuldades na conservação do morango, principalmente na época do verão, em que o produto fica mais perecível por conta da temperatura alta e da maior umidade
Hoje os produtores têm dificuldades na conservação do morango, principalmente na época do verão, em que o produto fica mais perecível por conta da temperatura alta e da maior umidade | Foto: istock

“Hoje o produtor tem muitas dificuldades quanto à conservação do morango, principalmente na época do verão, em que o produto fica mais perecível por conta da temperatura alta e da maior umidade, o que atrai mais pragas”, destaca.

Ele explica que, devido à baixa durabilidade do morango, o produtor também precisa fazer a reposição sucessiva nos pontos de venda. “Isso significa mais custo com transporte e mais trabalho ao produtor, impactando na renda final dele.”

A ANV representa atualmente 28 produtores. Dados do VBP (Valor Bruto da Produção Agropecuária) divulgados recentemente pela Seab (Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento) mostram que, juntos, os municípios paranaenses Jaboti, Japira, Pinhalão e Tomazina produziram mais de 6.200 toneladas de morango no ano passado. A riqueza advinda da atividade, por sua vez, resultou em R$ 57 milhões.

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