Pesquisa cria película que dobra vida útil do morango
Revestimento desenvolvido pela Embrapa a partir da nanotecnologia amplia durabilidade da fruta de 5 para 12 dias
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de outubro de 2022
Revestimento desenvolvido pela Embrapa a partir da nanotecnologia amplia durabilidade da fruta de 5 para 12 dias
Lucas Catanho - Especial para a FOLHA 

Uma pesquisa recém-divulgada conseguiu desenvolver um revestimento responsável por mais que dobrar a vida útil do morango – de 5 para 12 dias. A fruta figura hoje em terceiro lugar no ranking de perdas no setor de hortifrúti, ficando apenas atrás do tomate e da batata.

O pesquisador Josemar Gonçalves de Oliveira Filho, pós-doutorando na Embrapa Instrumentação, explica que a motivação para a pesquisa surgiu a partir da durabilidade muito curta do morango, além do fato de o fruto ser acometido por podridões causadas por fungos durante o armazenamento.
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“Além disso, quando comparado a outras frutas, o morango apresenta uma particularidade, sua superfície rugosa e sensível. Devido a isso, os revestimentos comercialmente disponíveis e utilizados em outras frutas, como laranja, limão e mamão, dificilmente apresentam bons resultados na conservação dos morangos”, pontua.

Todos esses aspectos motivaram o pesquisador a desenvolver um material personalizado utilizando nanotecnologia, que fosse compatível com a superfície do morango e que pudesse prolongar a sua durabilidade. A nanotecnologia é a técnica científica empregada para controlar materiais por meio da manipulação de átomos e moléculas.
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Josemar explica que a alta perecibilidade do morango ocorre principalmente porque ele apresenta uma alta taxa de respiração e textura macia, o que o torna muito sensível a danos físicos que podem acelerar o seu processo de apodrecimento e também contribuem para o desenvolvimento de podridões por fungos. “Todas essas características reduzem a vida útil do fruto e contribuem para o seu desperdício.”
A PESQUISA
O revestimento desenvolvido, quando aplicado na superfície do morango, forma uma espécie de película bem fina, após a evaporação da água. Essa fina película, por sua vez, cria uma barreira entre a fruta e o oxigênio presente na atmosfera.
“A redução do contato da fruta com o oxigênio faz com que o morango respire de forma mais lenta, o que acaba atrasando o seu metabolismo. O atraso no metabolismo faz com que a fruta perca menos água (fique murcha) e estrague mais lentamente”, explica.

A película formada na superfície do morango também torna a fruta mais resistente a danos físicos, o que reduz a sua deterioração.
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“Além disso, devido à sua atividade antimicrobiana, a película impede o crescimento de fungos, um dos principais vilões dessa fruta, na superfície do morango. Todas essas características contribuem para aumentar a durabilidade do morango”, acrescenta.
Essa descoberta levou quatro anos. Josemar considera a tecnologia acessível, principalmente devido à simplicidade do processo de produção do revestimento, e pela sua composição que utiliza apenas compostos comestíveis de origem vegetal.
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“Para aplicação em larga escala, seria necessário apenas o desenvolvimento ou adaptação de um sistema para aplicação da solução de revestimento em larga escala, por aspersão, acoplado a uma câmara de secagem”, conclui.
LINHA DE PESQUISA
Orientador de Josemar, o pesquisador da Embrapa Instrumentação Marcos David Ferreira explica que o trabalho deriva de uma linha de pesquisa iniciada anos atrás na Embrapa Instrumentação, baseada em revestimentos comestíveis, de base sustentável, com componentes vegetais Plant-based, que resultou em 2019 no lançamento da nanoemulsão de cera de carnaúba no mercado.

“A pesquisa envolveu uma parceria público-privada, direcionada para frutas como manga, limão e mamão, e que hoje é comercializada no Brasil e também no exterior, com extensão na vida de prateleira, em alguns casos, em até 2 semanas”, pontua.
A Embrapa Instrumentação sedia o LNNA (Laboratório Nacional de Nanotecnologia Aplicada ao Agronegócio), que atua diretamente nessa linha de pesquisa fornecendo toda uma estrutura física, com equipamentos avançados e pessoal, com técnicos altamente qualificados. “Existem outros grupos no Brasil que participam da Rede de Nanotecnologia Aplicada ao Agronegócio, iniciada em 2006, distribuída em todo o país, com interações também com o exterior.”
FASE
Sobre a pesquisa que criou o revestimento para o morango, Marcos explica que o estudo ainda está na fase de laboratório.
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“Já fizemos a prova de conceito, com o desenvolvimento da técnica com indicações dos benefícios na conservação do morango, com a extensão da vida de prateleira em até 7 dias.”
O pesquisador acrescenta que, com a finalização desta etapa em laboratório e divulgação da pesquisa na mídia, empresas e grupos de produtores interessados têm surgido e propostas têm sido avaliadas.
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“A Embrapa possui mecanismos para viabilizar isso, como as parcerias públicos-privadas que já utilizamos anteriormente, como no exemplo citado acima da nanoemulsão de cera de carnaúba.”
Sobre o desenvolvimento da nova tecnologia em larga escala, o pesquisador pondera que depende das parcerias que surgirão e também do investimento a ser realizado.
“Em geral, o tempo médio de tecnologias como essa para chegarem ao produtor demora até 4 anos ou até o dobro de tempo, considerando as variáveis, como o tipo de parceria a ser implementada e investimentos aportados”, conclui.
EXPECTATIVA
O presidente da ANV (Associação Norte Velho dos Produtores Rurais de Jaboti, Japira, Pinhalão e Tomazina), Carlos Inácio, tem a expectativa de que a nova tecnologia esteja em breve disponível aos produtores de morango, para amenizar as dores do setor.

“Hoje o produtor tem muitas dificuldades quanto à conservação do morango, principalmente na época do verão, em que o produto fica mais perecível por conta da temperatura alta e da maior umidade, o que atrai mais pragas”, destaca.
Ele explica que, devido à baixa durabilidade do morango, o produtor também precisa fazer a reposição sucessiva nos pontos de venda. “Isso significa mais custo com transporte e mais trabalho ao produtor, impactando na renda final dele.”
A ANV representa atualmente 28 produtores. Dados do VBP (Valor Bruto da Produção Agropecuária) divulgados recentemente pela Seab (Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento) mostram que, juntos, os municípios paranaenses Jaboti, Japira, Pinhalão e Tomazina produziram mais de 6.200 toneladas de morango no ano passado. A riqueza advinda da atividade, por sua vez, resultou em R$ 57 milhões.


