Clonagem de árvores acelera recuperação de áreas degradadas
Parceria entre UFV e Vale ajuda a recuperar área afetada pelo rompimento da barragem de Brumadinho e a reflorestá-la com espécies ameaçadas
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de outubro de 2022
Parceria entre UFV e Vale ajuda a recuperar área afetada pelo rompimento da barragem de Brumadinho e a reflorestá-la com espécies ameaçadas
Lucas Catanho - Especial para a FOLHA 
Pesquisa inovadora desenvolvida pela UFV (Universidade Federal de Viçosa), em parceria com a Vale, já resultou no início da recuperação de áreas de vegetação impactadas pelo rompimento de uma barragem em Brumadinho (MG), em janeiro de 2019. Os pesquisadores estão clonando árvores para recompor o local que foi alvo de um desastre ambiental e humano.

A primeira árvore foi clonada em junho de 2020. Até o momento, o trabalho em campo já promoveu o plantio de 1 mil mudas em Brumadinho. Até agosto de 2024, a expectativa é plantar, ao todo, 6 mil árvores.
A parceria entre a UFV e a Vale surgiu a partir de uma dissertação de mestrado do aluno Gleidson Guilherme Mendes, que chamou atenção da mineradora.
O orientador do estudante, o engenheiro florestal Gleison Augusto dos Santos, pesquisador do Departamento de Engenharia Florestal da UFV, explica que a Vale procurou a universidade a partir do momento em que a pesquisa obteve sucesso em resgatar o DNA e acelerar o florescimento das árvores. “Nós até depositamos uma patente sobre o tema”, diz.

O professor destacou a importância da parceria entre universidade e empresa: "Neste momento, não temos muitos recursos para pesquisa destinados às universidades, e acho que esse é o cenário de futuro do Brasil. Cada vez mais é necessário a universidade se juntar à iniciativa privada, trabalhar de forma colaborativa. A universidade deve atender demandas práticas do setor privado. Essa parceria da Vale com a UFV foi uma fortaleza, uma relação de ganha-ganha".
A Folha de Londrina conversou por telefone com o professor Gleison Augusto. Acompanhe a entrevista:
Como é feita a clonagem das árvores?
O processo envolve basicamente duas técnicas, a enxertia e a estaquia, que promovem o resgate do DNA da planta. Daí nós aplicamos um conjunto de reguladores de crescimento desenvolvidos pela universidade que promovem o florescimento mais cedo.
E por que é importante florescer mais cedo? A árvore desempenha a sua máxima função na natureza quando produz flores. Das flores vêm os frutos e a dispersão de sementes. Quando a árvore tem flor, pólen, fica atrativa para agentes polinizadores, e esses agentes vão carrear esse pólen para diversos locais. Quando a árvore produz frutos e sementes, aumenta a dispersão dessa espécie.
Nossa técnica permite que a máxima função de uma árvore na natureza seja desempenhada de maneira muito mais rápida. Uma espécie que demoraria de 10 a 12 anos para florescer, com a nossa tecnologia pode florescer entre 6 meses e 1 ano, antecipando o processo de restauração na área.
Em que fase está a pesquisa agora?
Apresentamos a tecnologia para a Vale e viram o grande potencial que essa técnica tinha para resgatar o DNA de árvores afetadas pelo rompimento da barragem. Aí assinamos um contrato com eles e executamos uma primeira etapa, de 1 ano, entre 2020 e 2021.
Agora estamos na segunda etapa desse trabalho. A primeira etapa começou em junho de 2020 e foi até maio de 2021. Nós trabalhamos inicialmente com três espécies em risco de extinção – jacarandá, jequitibá e ipê. E conseguimos com êxito clonar o DNA, induzir o florescimento.
Daí ampliamos esse projeto, a partir de setembro de 2021, para 30 espécies do ambiente da Mata Atlântica e do cerrado – todas elas ameaçadas ou em risco de extinção, ou que podem agregar valor às comunidades do entorno. Estamos agora trabalhando também com espécies frutíferas.
Como funciona a parceria?
A Vale participa com o financiamento desse projeto, concedendo inclusive várias bolsas para a UFV – até o momento já foram financiadas 9 bolsas para alunos de graduação e de pós-graduação (mestrado, doutorado, pós-doutorado).
E a equipe técnica da Vale trabalha diretamente conosco nas prospecções de campo, na localização das árvores, no delineamento dos trabalhos. Então, apesar de a tecnologia ser desenvolvida na UFV, é um trabalho totalmente em conjunto com a Vale.
Essa clonagem serviria para outros biomas?
A importância não é só para Brumadinho, é uma técnica de amplo espectro. A Vale foi pioneira em enxergar a tecnologia e tirá-la da universidade, para colocá-la em escala operacional.
Mas a gente já está trabalhando com outras mineradoras depois desse trabalho pioneiro da parceria com a Vale. Estamos trabalhando na Gerdau Mineração, na Vallourec Mineração, na Anglo American.
Além disso, acabamos de firmar uma parceria superinteressante com a Norte Energia, que cuida das hidrelétricas da região de Altamira (PA), para promover o resgate de DNA de materiais envolvidos no processo de produção de energia hidrelétrica.
A técnica pode ser utilizada para resgatar materiais danificados, como queimadas na Amazônia, no Pantanal, e não só no Brasil. Estamos inclusive discutindo um projeto de resgate de DNA e emissão de florescimento de espécies dos diversos biomas da Colômbia.


