O início da vigência do chamado tarifaço dos Estados Unidos sobre parte das exportações brasileiras deve provocar efeitos distintos na economia do Paraná. Enquanto Londrina tende a sentir impactos limitados devido ao seu perfil exportador de grãos, polos industriais da região, como Arapongas, e segmentos ligados à madeira processada devem enfrentar um cenário de maior pressão, com risco de redução da produção e até ameaça a empregos.

A sobretaxa de 25% determinada pelo governo do presidente Donald Trump entra em vigor na madrugada desta quarta-feira (22), incidindo sobre diversos produtos brasileiros importados pelos Estados Unidos. A medida, no entanto, excluiu mais de 70% dos itens exportados pelo Brasil ao mercado americano, como café, carne bovina e suco de laranja, que ficaram de fora da nova cobrança para evitar aumento de preços ao consumidor norte-americano.

Impacto reduzido

Para o professor da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná) e secretário municipal de Planejamento, Marcos Rambalducci, os reflexos diretos sobre Londrina tendem a ser reduzidos porque a cidade mantém pouca dependência do mercado norte-americano.

Segundo Rambalducci, Londrina concentra suas exportações principalmente em grãos e café, item que foi incluído na lista de exceções, enquanto a indústria representa menos de 17% do PIB (Produto Interno Bruto) do município. “O tarifaço vai incidir mais em produtos metalmecânicos e na manufatura madeireira. Então, para Londrina, não será um impacto muito grande”, explica.

Porém, ele ressalta que o cenário muda quando se observa a região metropolitana e outras áreas do Estado. Na avaliação do economista, municípios com forte presença da indústria moveleira, madeireira e de papel e celulose sentirão os efeitos de forma mais intensa.

Entre os exemplos citados está Arapongas, um dos principais polos moveleiros do país, além de Telêmaco Borba, referência na produção de celulose. Ele acrescenta que regiões centrais do Paraná também podem registrar perdas relevantes em razão da dependência das exportações desses segmentos.

Apesar das dificuldades, Rambalducci avalia que o impacto macroeconômico tende a ser limitado. Segundo ele, projeções indicam redução de até 0,2% no PIB brasileiro, enquanto o reflexo no Paraná deve representar apenas um quarto ou um terço desse percentual.

Ele também descarta, ao menos neste momento, uma alta significativa do desemprego provocada exclusivamente pela medida americana, destacando que o mercado de trabalho brasileiro permanece em níveis historicamente favoráveis.

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Risco imediato

Se para Londrina os efeitos devem ser reduzidos, a avaliação é diferente na indústria madeireira. Segundo o superintendente da Abimci (Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente), Paulo Pupo, a sobretaxa representa um dos maiores desafios já enfrentados pelo setor. Em média, metade de todas as exportações brasileiras de madeira processada é direcionada aos Estados Unidos. Em alguns segmentos, como o de molduras de madeira, praticamente toda a produção exportada tem como destino o mercado americano.

Pupo afirma que muitos produtos foram desenvolvidos especificamente para atender às exigências técnicas da construção civil dos Estados Unidos, o que dificulta seu redirecionamento para outros países.

"A diminuição de produção se torna quase imediata, o cancelamento natural de contratos gera uma insegurança jurídica e comercial entre os importadores americanos. Isso faz com que também, infelizmente, postos de trabalho fiquem ameaçados", afirma.

Segundo ele, a nova tarifa também elimina a igualdade de condições competitivas do Brasil em relação a outros fornecedores internacionais. "Vinte e cinco por cento de diferença em qualquer tarifa praticamente inviabiliza o comércio entre as duas partes", afirma.

A entidade defende que o governo federal intensifique as negociações diplomáticas para tentar reverter a medida.

Agronegócio preservado

Na avaliação do técnico do DTE (Departamento Técnico e Econômico) do Sistema Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná), Anderson Sartorelli, a exclusão de produtos como café, carne bovina, suco de laranja, mel e couro da lista de sobretaxação ameniza significativamente os efeitos sobre o agronegócio paranaense.

Ainda assim, ele ressalta que qualquer aumento de tarifas internacionais gera insegurança para exportadores e importadores, reduzindo a previsibilidade dos negócios.

Sartorelli observa que os Estados Unidos representam um mercado estratégico por remunerarem melhor os produtos brasileiros do que muitos outros destinos. No entanto, produtos florestais, principal item da pauta exportadora paranaense para o país, continuam entre os mais vulneráveis.

Ele destaca que esses produtos são fabricados com especificações voltadas à construção civil americana, tornando difícil sua comercialização em outros mercados sem adaptações industriais.

O economista também defende que o episódio reforça a necessidade de ampliar a diversificação dos mercados compradores, reduzindo a dependência de grandes parceiros comerciais como Estados Unidos, China e União Europeia.

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Pior para os americanos

Para Rambalducci, o impacto das tarifas não afeta apenas os exportadores brasileiros. Segundo ele, a sobretaxa encarece os produtos vendidos nos Estados Unidos, reduzindo o poder de compra da população americana. "O brasileiro perde porque vende menos, mas o consumidor americano também perde porque terá de pagar mais caro pelos produtos", afirma.

Na avaliação do professor, a tendência é que empresas brasileiras aumentem a busca por novos mercados internacionais, tornando-se menos dependentes dos Estados Unidos. Por outro lado, os consumidores americanos terão menos alternativas para adquirir produtos importados a preços competitivos.

“Nós ainda temos outras saídas, mas o americano não terá alternativa para pagar mais barato. Então, não acho uma política muito inteligente adotada pelo presidente norte-americano. É um tiro no pé da administração Trump”, avalia.

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