Antes mesmo de chegar às primeiras casas do Jardim Cristal, o caminho obriga quem passa a analisar com parcimônia o terreno. Ruas de terra tomadas pelo mato, fios elétricos caídos e estruturas improvisadas pelos próprios moradores escancaram a realidade da ocupação localizada na zona sul de Londrina. Quando chove, a água que corta a comunidade sobe, cobre a travessia e isola parte das cerca de 120 famílias que vivem no local há 13 anos.
A falta de infraestrutura básica faz parte da rotina dos moradores. Lama, poeira, dificuldades de acesso, ligações irregulares de água e luz, problemas relacionados ao esgoto e a ausência de regularização fundiária são desafios enfrentados diariamente por quem tem como única alternativa permanecer na região. Enquanto aguardam uma solução, são os próprios moradores que arrecadam dinheiro, organizam mutirões e tentam minimizar os problemas acarretados pela deficiência do poder público.
A reportagem da Folha percorreu a comunidade para mostrar como vivem as famílias da ocupação, os desafios enfrentados para viver no local e as expectativas de quem espera, há mais de uma década, por uma resposta definitiva sobre o futuro do bairro.
Ao longo da visita, a reportagem encontrou trechos praticamente intransitáveis, barrancos, resíduos espalhados às margens da nascente que corta a ocupação e estruturas construídas pelos locais para garantir o direito de ir e vir. Em alguns pontos, o acesso de veículos é impossível. Em outros, até caminhar exige atenção.

Poeira ou lama
Uma das lideranças comunitárias, a diarista Marielen Roberto, 33 anos, afirma que a precariedade interfere diretamente na rotina das famílias e compromete, principalmente, a vida das crianças da comunidade.
"É muito barro. O pessoal joga entulho nas ruas para ver se dá uma amenizada na poeira e no lamaçal quando chove. Se as crianças faltam na escola, as pessoas acham que a culpa é dos pais. Não é. Quando chove, fica bem difícil passar por aqui. Se está sol, é muito seco. Se chove, é muita lama", relata.
Além da dificuldade de circulação, a precariedade também dificulta a entrada de veículos e impede o deslocamento de idosos, crianças e pessoas com deficiência. Em alguns trechos, a erosão provocada pela água da chuva tornou o terreno ainda mais perigoso.
Para quem vive no Jardim Cristal, a infraestrutura nunca acompanhou o crescimento nos arredores. Enquanto novas casas e empreendimentos foram construídos no entorno, a ocupação se viu parada no tempo, envolta na disputa de um terreno ocupado por três CNPJs diferentes. O imbróglio será explicado nos intertítulos finais desta reportagem.
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Moradores construíram uma ponte
Sem poder esperar o desentrave do problema para conseguir recursos públicos, os próprios moradores decidiram construir uma ponte para garantir a travessia sobre a nascente que corta o Jardim Cristal. A estrutura foi erguida durante um mutirão, organizado pelos residentes após arrecadações feitas entre as famílias da comunidade.
Segundo Marielen, a obra foi a única alternativa encontrada para evitar que moradores ficassem isolados. "Se você visse esse chão… estava horrível. O pessoal daqui veio e tapou o buraco, fizemos uma vaquinha, porque aqui nós mesmos fazemos as coisas, e colocamos duas manilhas para a água passar por debaixo da ponte."
Apesar do esforço coletivo, a alternativa está longe de ser a ideal. Durante temporais, a água cobre completamente a passagem e impede a circulação de moradores. Ao redor da ponte, a reportagem encontrou grande quantidade de lixo acumulado e um barranco de aproximadamente seis metros de altura.

"Quando transborda, essa água vem levando tudo. Traz cama, sofá, tudo... No dia de chuva ninguém pode passar por aqui, porque a água vem por cima e leva. Todas essas casas que estão aqui correm risco", afirma.
Procurada pela reportagem, a Cohab-LD (Companhia de Habitação de Londrina) - dona do espaço onde está a ponte - informou que não possui projeto de engenharia para construção ou reforma da passagem. Segundo a Companhia, a elaboração de projetos estruturais e a execução de obras dessa natureza são atribuições da SMOP (Secretaria Municipal de Obras e Pavimentação).
A Cohab-LD pontua, no entanto, que está à disposição da administração municipal para discutir alternativas de recuperação da travessia, já que a estrutura está localizada em área de sua propriedade. A secretaria foi procurada pela reportagem durante 1 mês, mas não quis conceder entrevista.
'Fiquei pendurada'
Beneficiária do INSS, Delma Marta da Silva, 67 anos, conhece de perto os riscos enfrentados por quem precisa atravessar a ponte. Há cerca de três meses, ela foi arrastada pela força da água durante uma chuva. "Eu estava indo daqui para lá e tinha chovido bastante. A água estava passando por cima e eu não sabia onde era o chão para pisar. Não sei o que aconteceu que veio um 'tufo' de água que me jogou para baixo. Fiquei pendurada em um pau. Gritei socorro e os meninos me ajudaram."
Desde o acidente, Delma diz que ainda sente dores e dificuldade para caminhar. Segundo ela, a sua rotina muda completamente nos dias de chuva.
"Estou querendo me mudar daqui depois desse tombo... Se chover a semana inteira, fico presa em casa todos os dias. Estou muito desanimada depois desse tombo. Só estou andando graças à misericórdia de Deus", diz.

Regularização fundiária
Se a falta de infraestrutura é o problema mais explícito do Jardim Cristal, a indefinição sobre a posse dos terrenos é apontada pelos moradores como o principal obstáculo para que a comunidade receba atenção do poder público.
Marielen Roberto pondera que a regularização fundiária é a principal reivindicação das famílias. Segundo ela, a comunidade mantém diálogo com a Prefeitura de Londrina, mas as negociações avançam lentamente por envolver uma área de domínio privado.
"O Tiago Amaral me prometeu que a Prefeitura vai doar todo o material de construção para as casas se a gente tiver a mão de obra. Mas precisamos começar com a regularização. Ele disse que o nosso caso é um pouco mais complicado, porque é uma área privada. A gente se sente discriminado de todas as formas."

A situação é ainda mais complexa. Ao contrário do que muitos moradores imaginam, o Jardim Cristal não ocupa um único terreno. De acordo com a Cohab-LD, a ocupação está dividida em três áreas com proprietários diferentes. Uma parte pertence ao município de Londrina, outra à própria Cohab e a maior extensão da ocupação é de propriedade da SIAL Engenharia, construtora que move uma ação de reintegração de posse na Justiça.
Essa divisão faz com que cada trecho da ocupação siga caminhos diferentes dentro da legislação de Reurb (Regularização Fundiária Urbana). Segundo a Cohab, nas áreas públicas sua atuação se restringe aos levantamentos cadastrais e socioeconômicos das famílias, enquanto os projetos urbanísticos dependem de outros órgãos municipais. Já na área pertencente à SIAL, a condução de um eventual processo de regularização é de responsabilidade da SMOP (Secretaria Municipal de Obras e Pavimentação).
Ainda conforme a companhia, não existe atualmente um projeto urbanístico concluído para a área de sua propriedade. Na porção pertencente ao município, o Ippul (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina) desenvolve apenas um estudo preliminar voltado à recuperação ambiental da nascente existente no local, contemplando diretrizes para eventual regularização e possíveis reassentamentos. O estudo, porém, permanece em fase de planejamento.
A Cohab informou ainda que recebe frequentemente moradores e lideranças comunitárias para esclarecer dúvidas sobre o processo de regularização, mas afirma que não há prazo para a solução definitiva da ocupação. Segundo a Companhia, a execução de projetos, obras de infraestrutura e a definição de cronogramas dependem de planejamento do Executivo, disponibilidade orçamentária e atuação conjunta de diferentes secretarias municipais.
Indenização
Procurada pela reportagem, a SIAL Engenharia ressaltou que o impasse judicial envolvendo o terreno se arrasta desde 2018, quando a empresa ingressou com uma ação pedindo a reintegração de posse do imóvel.
Em outubro de 2025, no entanto, o TJPR (Tribunal de Justiça do Paraná) determinou a conversão do processo em uma medida indenizatória por desapropriação indireta. Na prática, a discussão judicial deixou de tratar da retomada física da área ocupada e passou a envolver a apuração da indenização decorrente da perda da propriedade.
Segundo manifestação do Ministério Público de junho deste ano, a decisão possui eficácia imediata e o recurso apresentado pelo município tramita sem efeito suspensivo, ou seja, a decisão continua valendo, mesmo que a outra parte tenha entrado com um recurso para contestá-la. Valores ainda não foram definidos.
Em nota encaminhada, a SIAL afirmou que não busca a retirada das famílias da área em que a ocupação já se encontra consolidada. A empresa sustentou que sempre esteve aberta à construção de soluções amigáveis e negociadas para o caso e defende que medidas como regularização fundiária, urbanização, reassentamento ou inclusão dos moradores em programas habitacionais sejam conduzidas pelo poder público.
A empresa também destacou que apresentou diversas alternativas à Prefeitura e à Cohab - como a permuta por outro terreno, a venda ou até mesmo a elaboração de um programa habitacional formal -, mas os dois não se interessaram.

Abastecimento de água e rede de esgoto
Enquanto aguardam a regularização da ocupação, os moradores convivem com problemas relacionados ao abastecimento de água e à rede de esgoto.
De acordo com as lideranças comunitárias, as residências são abastecidas por meio de ligações improvisadas. A falta de uma rede regular faz com que o fornecimento seja instável.
"Tivemos uma reunião com a Sanepar e a Cohab. O pessoal da Sanepar disse que não consegue instalar água aqui dentro pelo motivo do bairro ter sido construído em cima de rochas", afirma Marielen. Para Rosilene Muniz, outra liderança comunitária do bairro, 53 anos, a justificativa não convence.
"A Sanepar conseguiu fazer a rede de esgoto para os prédios e agora diz que não consegue chegar com o cano de água? Se o pessoal que está aqui, que é [tecnicamente] inferior, consegue fazer chegar água, por que a Sanepar não consegue fazer?", questiona.
Além da água, moradores reclamam da demora na manutenção da rede de esgoto que atende aos empreendimentos vizinhos. Segundo eles, vazamentos são frequentes e acabam provocando mau cheiro e problemas de saúde para quem vive próximo às tubulações.
A Cohab confirma a existência de ligações irregulares de infraestrutura nas áreas sob sua titularidade e afirma que os obstáculos técnicos e jurídicos para a instalação formal de água e energia elétrica somente poderão ser superados após a regularização fundiária. A companhia informou ainda que ainda não possui estudos de infraestrutura concluídos para a área, embora os diagnósticos necessários estejam previstos em seu planejamento técnico.
Solidariedade
A próxima reportagem no Jardim Cristal destaca a solidariedade que une os moradores enquanto aguardam respostas



