Duas famílias vindas ao Brasil do Marrocos (Norte da África), sendo duas mulheres - 27 e 29 anos - e três crianças - um, três e sete anos -, foram atendidas por uma equipe da PM (Polícia Militar) no domingo (19) no Terminal Rodoviário de Cornélio Procópio (Norte Pioneiro), abandonadas e com malas. Com ajuda de um aplicativo de tradução, visto que somente falam árabe, foi relatado que haviam sofrido um golpe financeiro e agressão por parte de dois homens também marroquinos. As imigrantes foram abrigadas na Casa de Passagem do município, onde aguardam o desenrolar da investigação policial e da intervenção da PF (Polícia Federal). É possível que a Embaixada do Marrocos no Brasil seja acionada.

Um boletim de ocorrência foi registrado com base nas informações que os policiais militares conseguiram colher, com dificuldades por conta da barreira linguística também no depoimento prestado nesta terça (21). Conforme o delegado da PC (Polícia Civil) Adriano Diogo, ambas as mulheres partiram do Marrocos com destino à capital de São Paulo, se conhecendo no município brasileiro. Uma delas tem 27 anos de idade e uma filha de três anos, e a outra, de 29 anos, veio acompanhada da filha de um ano e o mais velho de sete.

A marroquina de 27 anos se separou do marido e emigrou em busca de melhores condições de vida há quatro meses, viajando com dinheiro próprio e enfrentando dificuldades no Brasil. Em São Paulo, encontrou uma mesquita que abrigava refugiados e permaneceu no local até conhecer um dos investigados por meio de um aplicativo de mensagens. O homem sugeriu que ela fosse ao encontro dele em Cornélio Procópio, prometendo matricular a filha dela em uma escola pública e regularizar toda a documentação da família.

A mesma promessa foi feita à segunda mulher, que chegou no país somente há duas semanas. Elas viajaram juntas, de ônibus, e chegaram ao município na última sexta (17), passando o fim de semana no apartamento do suspeito e seu comparsa até serem expulsas no domingo à noite.

Elas foram lesadas em aproximadamente R$ 7 mil no total. “O dinheiro que elas tinham pago para essa suposta regularização não foi devolvido, e durante essa discussão para tirá-las da casa, uma delas acabou agredida. Ela mostrou algumas escoriações no ombro e o celular dela foi bem danificado”, informa o delegado.

O mandante, responsável pelo contato com as mulheres à distância, havia dito que usaria o valor fornecido para alugar um apartamento no nome das vítimas, mas colocou o seu nome na escritura.

Os homens também teriam se apropriado de seus documentos antes da expulsão. Ambas possuem solicitações de refúgio para que os vistos temporários se tornem permanentes. “Isso leva a crer que ele realmente utilizou esses artifícios de regularizar o refúgio delas para poder pegar o dinheiro”, afirmou o delegado.

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Um inquérito policial será instaurado para averiguar a lesão corporal e os possíveis crimes de estelionato e roubo. “Ainda estamos apurando se eles subtraíram o dinheiro mediante violência para verificar quais crimes vão ser tipificados, para saber se vai ser viável ou não solicitar uma prisão preventiva para que não corra o risco de eles irem embora ou saírem do país. Porém, tem indício de imigração ilegal, então possivelmente a Polícia Federal também vai instaurar um inquérito para apurar a promoção de imigrantes de maneira ilegal no país”, adiantou Diogo.

Suspeito ‘ficou com dó’

O mandante do suposto golpe se apresentou na delegacia para informar a sua versão dos fatos, sendo que o colega foi para São Paulo. O homem alegou que uma das vítimas é irmã de um amigo, que o procurou pedindo ajuda contando que as mulheres estavam em situação de rua na capital paulista. Por ter ficado “com dó”, teria pago as passagens de ônibus para Cornélio Procópio para que ficassem no apartamento dele e do amigo até se estabelecerem e encontrarem outro local para ficar.

“Segundo o relato dele, o dono do apartamento que ele locou alegou que estava tendo muita reclamação de barulho e ele pediu para que elas e as crianças saíssem da residência em virtude disso, senão ele teria que devolver o apartamento. Nessa discussão, ele acabou despejando elas e, para ajudar, disse que as levou até a rodoviária”, pontuou o delegado.

Já as mulheres disseram que o pretexto foi utilizado para enganar, também, o proprietário, “para poder tirar elas da casa e eles ficarem no apartamento”. Diogo considerou “contraditória” a versão apresentada pelo suspeito, que ainda negou a agressão.

A possível recorrência do mesmo golpe também será investigada, com o delegado já a par de uma situação com uma terceira imigrante. “Eles já utilizaram documentos falsos sob o pretexto de uma falsa adoção de uma criança com outra mulher marroquina para tentar regularizar a situação dela aqui no país também”.

Acolhimento

A Prefeitura de Cornélio Procópio foi mobilizada para prestar atendimento às mulheres e crianças. “Elas foram abrigadas na Casa de Passagem do município, onde permanecem em segurança até que a situação seja devidamente encaminhada pelos órgãos competentes”, informou em nota.

A Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social e Família vem ofertando alimentação, vestuário, atendimento psicossocial, apoio do Cras (Centro de Referência de Assistência Social) “e toda a assistência necessária, respeitando a dignidade e os direitos das pessoas atendidas”. Moradores que falam árabe estão auxiliando na comunicação com as vítimas.

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