Cornélio Procópio recebe fotos raras e inéditas da década de 1930
Fotografias ajudam a ilustrar o processo de formação do município e de toda a região. Prefeitura planeja expor parte do material em setembro
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segunda-feira, 20 de julho de 2026
Fotografias ajudam a ilustrar o processo de formação do município e de toda a região. Prefeitura planeja expor parte do material em setembro

O município de Cornélio Procópio (Norte Pioneiro) recebeu a doação de quase 300 fotografias da década de 1930. Os registros ajudam a narrar e ilustrar a formação de todo o Norte do Paraná, inclusive com fotografias da construção da ferrovia, que ligava o estado a São Paulo, e foi um ponto fundamental no desenvolvimento da região.
Roberto Bondarik é professor, coordenador adjunto do Laboratório de História da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná) e pesquisa sobre a história e memória do Norte do Paraná. Ele explica que há algumas semanas a Prefeitura de Cornélio Procópio recebeu uma ligação de um padre de uma igreja ortodoxa de São Paulo sobre um álbum de fotos com registros da construção da ferrovia na região.
Segundo o religioso, o álbum era de uma paroquiana falecida em 2002, em que o pai foi um dos engenheiros responsáveis pela construção da ferrovia na década de 1930. Curiosamente, o pai do padre também tinha participado, duas décadas depois, da construção da BR-369, também em Cornélio Procópio. Antes de falecer, o desejo da paroquiana era de que as fotos retornassem ao município.
O especialista explica que o álbum conta com 288 fotos, nítidas e de boa qualidade, sendo que poucas são conhecidas de outros acervos. Segundo ele, pelo menos 250 fotografias são originais e inéditas. “Uma das fotos é de uma partida de futebol disputada em algum lugar de Cornélio Procópio e, apesar da foto ser preta e branca, a gente sente aquela poeira vermelha grudada nos jogadores e liberada nas pessoas”, detalha.

'Não tinha nada, era mata'
Bondarik afirma que as fotografias ajudam a entender como se deu o processo de surgimento da cidade. “Eu tinha a ideia de que antes da ferrovia chegar já havia alguma coisa em Cornélio Procópio, mas pelas fotos a gente vê que não tinha nada, era mata”, conta. Segundo ele, os acampamentos, oficinas e depósitos foram todos construídos em um terreno “arrancado” do mato.
Algo que sempre deixou o professor ‘intrigado’ foi a dificuldade em organizar e definir as ruas do município por conta de ocupações irregulares, já que os loteamentos começaram a ser vendidos a partir de 1932. Por meio das fotos, ele pôde perceber a presença de uma estrada que cortava transversalmente as quadras em uma região antiga da cidade, próxima à Praça Brasil, o que justifica a dificuldade em delimitar as ruas de Cornélio Procópio.
A maior parte das fotos, segundo Bondarik, mostra o dia a dia da população da época, como a cozinha improvisada próxima à ferrovia para servir os operários, as máquinas utilizadas no trabalho, as plantações e, também, as pessoas.
Um dos exemplos era o engenheiro do Exército Britânico, o capitão McDonald (que nas fotos é chamado de coronel), chefe da companhia que construiu a ferrovia. “Ele é mostrado em várias fotos e a fotografia na época era algo caro e difícil”, conta.
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Uma das fotos mostra, ainda, o cardápio servido na despedida do engenheiro, em 1932, com pratos como ‘peru de Jacarezinho’ e ‘peixe do Rio Congonhas’. “É um prato cheio para os pesquisadores de história”, afirma, em relação ao riquíssimo acervo de fotos.
Roberto Bondarik relata a emoção em ter acesso ao acervo de fotos para entender fatos e detalhes que ajudaram a construir a história de Cornélio Procópio. “É um acervo surpreendente, revelador, emocionante e que vai mudar muito a nossa percepção sobre o início da ocupação de Cornélio Procópio e do Norte do Paraná”, garante, citando ainda que as fotos mostram que a ferrovia foi a primeira grande obra de engenharia de toda a região.

A visita da realeza britânica
As fotos que estão sendo catalogadas também confirmam a visita de membros da realeza britânica ao Norte do Paraná. Isso porque o então Príncipe de Gales, que ficou conhecido como Rei Eduardo VIII durante seu reinado em 1936, visitou o município de Cornélio Procópio. O professor explica que as fotos mostram o nobre dentro do carro, conversando com outras pessoas e até mesmo ao lado da ferrovia.
Seu irmão, o príncipe George, também visitou o município. Segundo ele, existia um boato de que o irmão do pai da Rainha Elizabeth também esteve no Norte do Paraná, o que nunca aconteceu. Uma curiosidade é que todos os britânicos que vieram para a região falavam português.
A visita dos nobres aconteceu no dia 31 de março de 1931. “Eles chegaram pela manhã e foram até Jataizinho”, explica, citando que, na cidade, eles participaram do batizado do filho de David Dequêch, que trabalhava para a CTNP (Companhia de Terras Norte do Paraná).
Sobre a importância das fotografias, Roberto Bondarik explica que elas mostram como era Cornélio Procópio e toda a região 100 anos atrás. “Elas servem para que a gente compreenda como foi o esforço, o trabalho despendido”, pontua. Segundo ele, muitas pessoas abandonaram o conforto de outros lugares do Brasil e do mundo para vir para cá ajudar na construção de toda uma região que era tomada pelo mato. “Começaram do nada no meio do barro vermelho.”

Exposição em setembro
Para o secretário de Cultura e Turismo de Cornélio Procópio, Ruy Sampaio, o recebimento deste acervo representa um marco inestimável para a salvaguarda da memória de Cornélio Procópio e de todo o Norte do Paraná. “Essas imagens resgatam com precisão cirúrgica a epopeia que foi a construção da estrada de ferro no trecho pioneiro entre Ourinhos e Jataizinho, um eixo que literalmente desenhou o progresso e o nascimento de nossa região”, comentou.
Segundo o secretário, a prefeitura pretende democratizar o acesso ao acervo por meio da transformação de parte das fotografias em grandes painéis visuais. A administração também planeja lançar uma exposição pública em setembro, em data prevista para coincidir com a conclusão das obras de reforma e modernização do CEU das Artes. “Levar essa exibição para o CEU, que é o nosso complexo de cultura e cidadania, reforça o compromisso da administração em descentralizar a cultura, conectando a comunidade procopense diretamente com as suas raízes e com os trabalhadores que ergueram a infraestrutura do nosso estado."


Jéssica Sabbadini
Repórter com atuação na cobertura local.




