Junto de novos profissionais da advocacia e aos 56 anos, Anilza Dionísio da Silva prestou juramento à profissão diante de sua família, amigos e ex-professores na segunda-feira (24), durante a tradicional Cerimônia de Compromisso promovida pela OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) Londrina. Ela foi aprovada no Exame de Ordem Unificado menos de um ano após receber seu diploma da UEL (Universidade Estadual de Londrina).

Ainda em 2020, ingressou na instituição depois de se dedicar a um cursinho gratuito, após mais de três décadas longe das salas de aula. Anilza trabalhou da adolescência à aposentadoria em uma fábrica de confecções. Antes disso, andava sete quilômetros de estrada de chão em Astorga (Noroeste) para chegar à escola. Sua história é sinônimo de superação e mostra como nunca é tarde para virar a chave por meio da educação superior.

A FOLHA acompanha a trajetória de Anilza há seis anos, desde a sua aprovação no Vestibular da UEL. Na época, ela era aluna do CEPV (Curso Especial Pré-Vestibular), da própria instituição. Sua paixão pelo direito nasceu do interesse de defender idosos que buscam a aposentadoria e não possuem condições econômicas para serem auxiliados por um profissional, visto que quando foi a vez dela em 2018, um advogado que ela julgava ser de confiança tentou levar vantagem cobrando R$ 5 mil a mais do que o necessário. Agora, com a carteirinha da OAB em mãos, Anilza busca seguir carreira nas áreas previdenciária e trabalhista.

“Quando eu estava na fábrica, não tinha nem perspectiva disso. Eu tinha a minha família, ia trabalhar, me aposentar e participar da igreja, mas um amigo disse que passam a perna em muitas pessoas carentes e aquilo me despertou. Eu tive professores e colegas maravilhosos e estou muito feliz, porque eu vim sem nada”, celebrou a advogada. Ela destacou que foi aprovada na UEL por meio de cotas raciais, agradecida porque a ação afirmativa proporcionou a ela a oportunidade de fazer uma graduação.

Maria Eduarda da Cunha, colega de turma e profissão, emprestou materiais para Anilza estudar para o exame da OAB
Maria Eduarda da Cunha, colega de turma e profissão, emprestou materiais para Anilza estudar para o exame da OAB | Foto: Heloísa Gonçalves

Rotina de estudos

Para dar conta dos estudos enquanto universitária, Anilza contou com o apoio do esposo Cícero e dos filhos João Pedro e Julia, que assumiram mais responsabilidades domésticas. Ao longo do último ano, já graduada e estudando para a prova da OAB, o auxílio familiar foi o mesmo, com a matriarca assistindo aulas on-line e gratuitas em preparação para a primeira fase.

Ela se inscreveu em um cursinho pago antes da segunda etapa do exame, com uma ex-colega de turma que já havia sido aprovada emprestando os materiais necessários e dando dicas. Ainda boas amigas, Maria Eduarda da Cunha prestigiou Anilza em sua Cerimônia de Compromisso.

Mulher de fé, a recém-advogada contou que ouviu uma voz em sua cabeça indicando a peça prático-profissional que seria cobrada no exame. “Eu pedi para o Senhor qual ia cair, porque são tantas e eu queria me dedicar a uma só. Aquela voz falava ‘é contestação porque você fazia muitas no seu estágio’’, mas a gente é meio incrédulo e eu estudava as outras, mas isso ficava na minha mente. Quando eu li o caso e vi que era contestação, deu vontade de gritar. Deus me ajudou de novo”, comemorou, se referindo ao dia que prestou o vestibular da UEL e acordou pensando em um filósofo. Quando abriu o caderno de filosofia, lá estava o pensador.

Apoio de Julia e Cícero foi vital para que a matriarca pudesse se dedicar aos estudos nos últimos seis anos: "minha doutora"
Apoio de Julia e Cícero foi vital para que a matriarca pudesse se dedicar aos estudos nos últimos seis anos: "minha doutora" | Foto: Heloísa Gonçalves

‘A senhora conseguiu’

Ao receber a notícia da aprovação no fim do ano passado, o clima foi de festa no bairro Moradias do Cabo Frio, na zona norte de Londrina. “Foi uma choradeira em casa. Chamei meu esposo e ele falou ‘eu tinha certeza’, e o meu filho, que estava chegando do serviço, veio chorando e falando ‘a senhora conseguiu’. Teve uma irmã da igreja que falou ‘agora eu vou parar um pouco de orar’, estava com o joelho ralado já”, riu Anilza.

Durante a cerimônia na OAB Londrina, a filha mais velha disse que sente orgulho da mãe ao participar desta conquista. Julia é bióloga formada pela mesma instituição que Anilza, sendo que iam para as aulas e voltavam juntas de ônibus. “Ela é uma referência muito grande para nossa família, é um exemplo, meu pai também é, e eu tenho certeza que vai ser assim pelo resto da carreira dela”.

Leia mais:

Já Cícero se refere a esposa como “minha doutora” quando o casal está na rua, contando que “é uma emoção muito grande” presenciar mais um triunfo da companheira.

Quem também acompanhou a cerimônia na OAB foi Ana Cláudia Duarte, professora de Anilza durante a graduação. Com a ajuda de outro docente, ela viabilizou a compra de um notebook para que a aluna pudesse acompanhar as aulas on-line durante a pandemia de Covid-19.

Ana Cláudia Duarte foi professora de Anilza durante a graduação, e com ajuda de outro docente, viabilizou a compra de um notebook para a aluna
Ana Cláudia Duarte foi professora de Anilza durante a graduação, e com ajuda de outro docente, viabilizou a compra de um notebook para a aluna | Foto: Heloísa Gonçalves

Tradição acompanhará o futuro profissional

A mais nova advogada vinha auxiliando uma ex-colega de turma em processos, como forma de treinamento. Agora, busca uma cooperação aprofundada com a mulher ou “deslanchar sozinha”. “Assim como eu tive dificuldade em conseguir estágio por causa da minha idade, é difícil achar uma parceria com alguém que já está na área há muito tempo, eles pensam que uma pessoa nessa idade não tem muito futuro. Os escritórios procuram alguém jovem que possa prolongar a carreira, então é compreensível. Eu confio que vou entrar pela porta certa”, almeja a profissional.

Anilza também espera manter uma tradição antiga, que iniciou no cursinho pré-vestibular e seguiu na graduação pelos cinco anos seguintes. Todos os dias, levava um cardápio diferente aos amigos estudantes, com pães, bolos, chá e café. Agradecidos, seus colegas a chamavam de “dona Anilza” e respeitavam sua trajetória, com mais anos trabalhados na fábrica de confecções do que muitos tinham de vida. “Não dá pra ficar sem um cafezinho, um bolinho, uma bolacha de vez em quando. Se eu tiver o meu escritório, vai ter todo dia”, garantiu.

mockup