Londrinense é a 16ª brasileira a receber terapia inédita para lesão medular
Primeira paciente de Londrina a receber a polilaminina, Mirian Magro, 53 anos, já apresenta ganhos de sensibilidade
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sábado, 21 de fevereiro de 2026
Primeira paciente de Londrina a receber a polilaminina, Mirian Magro, 53 anos, já apresenta ganhos de sensibilidade

Mirian Magro, pedagoga de 53 anos, se tornou a 1ª pessoa de Londrina e a 16ª do Brasil a receber a aplicação da polilaminina, tratamento inovador a nível mundial de lesões na medula espinhal. Pacientes que foram submetidos ao procedimento - em caráter experimental - apresentaram resultados promissores na recuperação de movimentos, com interessados de todo o país entrando na Justiça para serem contemplados.
No dia 14 de janeiro, Mirian estava cozinhando o jantar quando saiu da cozinha para pegar um tomate de sua horta. Ela tentou pular uma grade baixa que impede a saída de sua cachorra, quando se desequilibrou e caiu de uma altura de dois metros na escada ao lado. A mulher sofreu uma luxação na coluna torácica, entre a terceira e a quarta vértebra, o que acarretou em lesão medular e a deixou paraplégica imediatamente, perdendo os movimentos do peitoral para baixo. Também quebrou o braço direito, duas costelas e o esterno.
“Quando eu caí, tentei levantar e já percebi que não conseguia, que não tinha mais os movimentos. O meu genro, que estava aqui (em casa), é médico e instruiu que não podia mexer, aí eles chamaram o SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) para me buscar”, recordou.
Cerca de 12 horas após sofrer o traumatismo, já no dia seguinte, foi submetida a uma correção da luxação no HEL (Hospital Evangélico de Londrina), a partir de uma artrodese de quatro vértebras - procedimento que consiste na união de ossos selecionados da coluna - e uma descompressão da medula. A cirurgia correu bem e Mirian teve alta, passando a se recuperar em casa.

No dia 23, ela recebeu a aplicação da polilaminina do neurocirurgião Victor Batistela, no mesmo centro cirúrgico. Mãe de Brenda, Paloma e Larissa, frutos do casamento com Edson, Mirian faz fisioterapia de domingo a domingo desde o ocorrido. O esposo parou de trabalhar para auxiliar a mulher com todas as suas necessidades.
‘Progresso a cada dia’
Por enquanto, a matriarca ganhou um pouco de sensibilidade em partes do corpo em que perdeu os movimentos, com a união da substância com a fisioterapia promovendo “ganhos imediatos muito importantes para a recuperação neurológica”, pontuou o médico. “São coisas que eram para estar acontecendo, normal de uma fisioterapia pós-trauma, só que está sendo mais rápido. Já está começando a descer a sensibilidade”, comemorou a paciente.
Edson contou que a cada reflexo observado na esposa, mesmo que involuntário, por enquanto, toda a família se sente vitoriosa. A neurofisioterapeuta contratada é especialista na recuperação da função motora há mais de 10 anos, atestando, diariamente, novos estímulos em Mirian. “São reflexos que não existiam há 30 dias e começaram a voltar. Em um trauma normal, iriam aparecer daqui seis meses, um ano, ou talvez nunca, segundo a fisioterapeuta”, relatou o marido.

Batistela se disse esperançoso com a recuperação de Mirian, considerando que “qualquer ganho que ela tiver de movimento e força, já é muita coisa”. Exemplificando, mencionou a dobra do joelho e a melhora da bexiga neurogênica (disfunção da bexiga causada por lesão neurológica) e da continência fecal (capacidade de controlar voluntariamente a eliminação de fezes e gases).
Para o futuro, o mais próximo possível, Mirian almeja “voltar a andar, se Deus quiser”.
Como a polilaminina funciona
Os estudos com polilaminina são desenvolvidos por pesquisadores da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), sob liderança da professora Tatiana Sampaio, em parceria com o laboratório Cristália - único produtor mundial do composto -, e já apresentaram resultados promissores na recuperação de movimentos.

Batistela explicou que a laminina é uma proteína derivada da placenta, que foi “turbinada” em laboratório por meio da polimerização em várias cadeias. Ela forma uma espécie de malha que orienta os neurônios a se reconectarem, restabelecendo a comunicação entre as células nervosas.
O neurocirurgião realizou duas aplicações simultâneas do composto em Mirian, logo acima e logo abaixo do local da lesão, cada uma com 0,5ml. Dois frascos vieram diretamente do laboratório Cristália, contendo a laminina e um diluente, que formam a polilaminina quando misturados.
Quem é elegível
O Ministério da Saúde e a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) anunciaram, no início de janeiro, o Estudo Clínico de Fase 1 para avaliar a segurança do uso da polilaminina no tratamento do Trauma Raquimedular Agudo (TRM), com cinco voluntários que portam lesões completas da medula espinhal torácica entre as vértebras T2 e T10, com indicação cirúrgica ocorrida há menos de 72 horas da lesão.
Pessoas que se encaixam nos critérios de elegibilidade, mas sofreram a lesão há mais tempo do que a janela terapêutica definida, têm sido contempladas com acesso ao medicamento por meio de liminares expedidas pela Justiça, como Mirian fez. O uso compassivo está autorizado para casos com até 90 dias do trauma, e a solicitação deve ser acompanhada de prescrição e relatório do médico assistente ao SAC do laboratório Cristália.
Nestas ocasiões, a Anvisa autoriza o envio da medicação por parte do laboratório, sem custo algum ao paciente e ao hospital em que o procedimento é realizado. Já em casos de lesão aguda, ou seja, em que o acidente ainda não completou 48 horas, o voluntário deve notificar seu cirurgião que tem interesse no medicamento experimental, para a viabilização por meio de um advogado o mais rápido possível.
O uso ainda não é recomendado quando a lesão é crônica - sofrida há mais de 90 dias. Estão sendo conduzidos estudos em animais para definir se, e como, o tratamento poderá ser realizado em humanos.
Próximos passos
Após o estudo clínico com voluntários, a polilaminina passará por mais etapas para avaliar a sua segurança e eficácia com rigor, antes da avaliação da Anvisa para emitir a aprovação final. Batistela informou que a comercialização do medicamento pode ser iniciada em 2028, sem previsão de incorporação ao SUS (Sistema Único de Saúde).
Ainda é cedo para afirmar se o medicamento é a cura para a paraplegia, mas o ineditismo da terapia traz boas expectativas aos participantes que sofreram lesões na medula espinhal. O neurocirurgião celebrou o pioneirismo do município em mais uma área da saúde, visto que Mirian foi a 16ª pessoa do Brasil a ser submetida ao procedimento. “Londrina é um polo regional e nacional de tratamento de várias doenças, nós não deixamos a desejar para nenhuma cidade. Espero ter novos pacientes que possam receber esse medicamento, que possam se beneficiar, porque é uma esperança muito grande para todos nós”.


Heloísa Gonçalves
Repórter com atuação em Educação, Saúde e Cidades.


