Na UEL, José e Eliane superam adversidades em busca do diploma
Aluno de Direito lida com a cegueira desde 2013 e estudante de Serviço Social que viveu na rua por 18 anos comentam os desafios da graduação e incentivam o estudo que transforma
PUBLICAÇÃO
domingo, 28 de dezembro de 2025
Aluno de Direito lida com a cegueira desde 2013 e estudante de Serviço Social que viveu na rua por 18 anos comentam os desafios da graduação e incentivam o estudo que transforma

De ajudante na lavoura familiar quando criança, embarcado em refinaria de petróleo a encanador industrial, José Marcelino vai adicionar mais um título à sua longa lista em 2026: bacharel em Direito pela UEL (Universidade Estadual de Londrina). Aos 68 anos, a conquista impressiona não só pela idade, mas pelo fato de o homem conviver com a cegueira há 12 anos.
Quando foi aprovado no vestibular em 2022 por meio de cotas para pessoas com deficiência, Marcelino foi tema de reportagem da FOLHA e contou as suas expectativas quanto ao curso. Hoje, no quarto ano, disse que a caminhada tem sido difícil, “mas não impossível”.
Décadas longe da sala de aula
Nascido em Diamantina (MG) em 1957, percorreu diversas cidades do Paraná até se instalar em Cambé com os pais e irmãos. A mudança para a cidade vizinha de Londrina foi motivada por conta da Geada Negra de 1975, quando a família perdeu sua lavoura de café, arroz, feijão e milho. Como segundo irmão mais velho entre oito, trabalhou por toda a infância e adolescência, sendo que a última série escolar que pôde completar foi o 7º ano.
Marcelino perdeu a visão gradativamente, após o uso de um medicamento incorreto receitado para artrose. Começou o tratamento nos olhos em 2005 e foi encaminhado ao Instituto Roberto Miranda, em Londrina, onde estudou Braille (sistema de escrita e leitura tátil) e Soroban (aparelho de contar e de calcular). A cegueira total veio em 2013, aos 56 anos.
Sem emprego, voltou a estudar após mais de 40 anos longe da sala de aula, frequentando o Ceebja (Centro Estadual de Educação de Jovens e Adultos) de Londrina. A aprovação no vestibular três anos atrás foi um marco para a UEL, com Marcelino se tornando o primeiro aluno cego a ingressar no curso de Direito.
Busca por acessibilidade
Marcelino contou que enfrentou adversidades quando era calouro em 2022, tanto pela dificuldade com a acessibilidade, quanto na adaptação da aprendizagem a sua deficiência. “Antes não tinha essa inclusão aqui, depois colocaram piso tátil e rampa e melhorou, já fizeram bastante coisa, mas ainda precisa fazer mais. Hoje já conheço o caminho, mas foi difícil acostumar”, relembrou. Marcelino se referiu às obras promovidas pela UEL no ano seguinte, com a construção de uma faixa acessível contínua por todo o calçadão.
Ao longo dos últimos quatro anos, encontrou meios de contornar os empecilhos. Ele grava todas as aulas em áudio com o celular, pede ajuda a colegas para ler os códigos de leis e tem acompanhamento do NAC (Núcleo de Acessibilidade) da UEL. Ainda frequenta o Instituto Roberto Miranda semanalmente e recebe uma atenção especial de Fábio Cruz, seu colega de classe, que faz questão de fazer todos os trabalhos em grupo com José.
Mostrando sua bengala, contou que tem perdido cada vez mais a visão à medida que envelhece, por sofrer com atrofia no nervo óptico. Nos primeiros anos do curso, conseguia fazer certas distinções do que estava pela frente, mas hoje só vê vultos. “Se passar uma pessoa aqui do meu lado e não dizer nada, não vou saber quem é, nem que passou”. Rindo, disse que “sem a bengala, eu saio ‘parpando’ as coisas”.

‘Estudo sempre valeu a pena’
O futuro advogado é estagiário no EAAJ (Escritório de Aplicação de Assuntos Jurídicos) da UEL, e já sabe a área na qual deseja atuar a partir da formatura. O Direito Trabalhista chamava sua atenção antes mesmo de perder a capacidade de enxergar, contando que escutava casos de injustiça e se indignava. Hoje, quer aconselhar as vítimas juridicamente e defendê-las.
Mesmo com as dificuldades diárias, o universitário garantiu que “o estudo sempre valeu a pena” e aconselhou: “a pessoa nunca deve desanimar ou deixar de lado, porque é um aprendizado que ninguém consegue tirar dela. Muitas vezes a pessoa não dá valor a certas palavras, certos ensinamentos, mas o prejuízo vai ser de quem despreza isso”.
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Da rua à universidade
Outro exemplo de persistência é Eliane Batista, caloura em Serviço Social, que comemorou a aprovação em 2024, após passar 18 anos vivendo nas ruas de Londrina. Hoje, aos 41, trabalha como educadora social na Associação MMA, mesma instituição em que foi acolhida anos atrás, tendo como coordenadora e amiga uma profissional que a ajudou quando estava do outro lado da moeda.
Batista contou que teve uma infância perfeitamente normal, mas que sua vida “desandou” na adolescência, quando começou a fazer uso de drogas. Entre os 18 e 19 anos, por volta de 2002 e 2003, “dormia mais na rua do que em casa e não parava em emprego”, em um vai e volta da sua residência a abrigos. A mulher deixou de vez a família, mas não por falta de tentativa dos parentes, contando que eles “lutaram muito” por ela, mas que se recusava a aceitar a ajuda.
‘Liguei e pedi socorro’
Por um “bom tempo”, a graduanda dividiu a Praça Tomi Nakagawa, região central, com mais de 20 pessoas em situação de rua. Quando chovia, buscavam abrigo sobre a rampa do PAI (Pronto Atendimento Infantil), logo em frente ao espaço coletivo. Contando que seus colegas eram “comportadinhos”, disse que sua “geração de rua” respeitava quem passava por perto e não deixava ninguém incomodar a população.
Na época, ela cuidava de carros estacionados e pensava: “eu já sofro com essa vida, por que vou levar o sofrimento pra minha família? Prefiro sofrer sozinha”. Até que um dia, em 2020, não aguentou mais seguir como estava. Ligou para sua irmã mais velha e pediu socorro. Batista passou quatro meses internada, sendo posteriormente encaminhada a um acolhimento porque a mãe já era falecida e o pai sofria com Alzheimer.

Retorno à sala de aula
Do Morada de Deus, centro de tratamento de dependência química, passou a viver na Associação MMA, onde recebeu a proposta de terminar os estudos em 2023. Ela teve receio por conta da idade - estava prestes a completar 40 anos -, mas um educador fez a matrícula no Ceebja sem que ela soubesse, esperando que ela não se zangasse.
A graduada no Ensino Médio foi além e se tornou aluna do CEPV (Curso Especial Pré-Vestibular da UEL), mas “se colocava para baixo”, não acreditando que teria capacidade de ser aprovada no vestibular. Ela pensou “vou fazer por fazer, porque sei que não vou passar, tem pessoas ali bem mais estruturadas do que eu, com um tipo de vida que eu não tenho”. Mas passou a enxergar o apoio que tinha dentro da instituição e da própria família.
Ajudar como foi ajudada
A escolha pelo Serviço Social foi influenciada pela sua experiência própria, sentindo na pele os benefícios de ser auxiliada por quem se importa de verdade. “Quando a gente não entende o que é a assistência, achamos que é um centro de caridade. Mas quando eu conheci de perto, na sobriedade, falei ‘é essa profissão que eu vou fazer, o que fizeram comigo, vou tentar fazer com o próximo”.
A aprovação na primeira fase veio junto da mudança para uma república da Prefeitura, a caminho da vida independente. E com a confirmação concreta de que seria caloura no ano seguinte, via cotas raciais, buscou o retorno familiar completo após mais de 20 anos, sendo convidada pela irmã a morar em sua casa.
No meio-tempo, seu pai foi internado e faleceu, e Batista fez uma promessa: que nunca mais voltaria a “vida errada”. Dito e feito, Eliane completou cinco anos de sobriedade em 2025.

Amigos não deixam desistir
Assim como para Marcelino, o primeiro ano na UEL foi difícil para Batista. Ela contou que teve muita dificuldade em acompanhar as matérias e quis desistir, além de sofrer com a sensação de não pertencimento. Agora, está repetindo o primeiro ano e se encontrou de verdade.
“Como a minha história repercutiu muito na época que passei no vestibular, eu via que as pessoas me olhavam com um pouco de preconceito, achando que lá não era meu espaço. Mas não, este ano eu vi que aquilo ali é meu espaço também, independente se eu estiver dentro de casa ou dentro do acolhimento”, considerou.
Ela disse ter uma ótima relação com os professores e novos colegas de classe, dizendo que só não gosta das provas. “A turma que entrou esse ano foi a chave pra mim, fizemos a promessa de ficar juntos até o final, independente de quem ficar pra trás, a gente vai buscar. Uns meninos me levam embora às vezes e falam que é pra não passar pela minha cabeça desistir do curso”, contou Batista, aos risos.
‘Estaria presa ou morta’
Focada nos estudos, quis dar um conselho a quem estiver passando pelo que ela enfrentou por quase duas décadas: grite por socorro. “Essa vida é ilusória, é tudo fácil e bonito no início, mas chega uma hora que a carga pesa. Se eu não tivesse criado coragem para soltar o grito de socorro, eu estaria presa ou morta”.
Para o futuro, Batista almeja trabalhar como assistente social ajudando a população idosa e de rua, para dar segundas, terceiras e quantas chances forem necessárias a quem mais precisa, assim como ela recebeu.
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Heloísa Gonçalves
Repórter com atuação em Educação, Saúde e Cidades.




