Há 50 anos, não sobrou um único pé de café em Londrina

Geada histórica destruiu lavouras, silenciou máquinas e redesenhou o mapa social e econômico no Norte do Paraná

Publicado sexta-feira, 18 de julho de 2025 | Autor: ESPECIAL GEADA NEGRA - 50 ANOS às 00:00 h

A geada negra de 18 de julho de 1975 transformou a história de Londrina. Classificado como “tiro de misericórdia” na cultura no Norte do Paraná, evento climático mudou a vida de produtores que perderam tudo e alterou a forma de trabalho no campo. Episódio tem memória preservada por museus, jornalistas e outras testemunhas do fato marcante.


Geada de 1975 - Navegação com Sumário


Lembranças daquela sexta-feira

O dia que simboliza o fim da era do café faz meio século. O que sobrou na memória dos que viveram aquele frio descomunal? A geada que tornou o inverno de 1975 no marco zero de uma nova cidade, de um novo estado, de um novo caminho ainda desafia nossa capacidade de traduzir o passado.

Lúcio Flávio Moura - Especial para a FOLHA

De tanto se falar nele, de tantas reflexões, interpretações, ponderações, divagações que subestimaram ou superestimaram a realidade, depois de 50 anos oscilando entre a dúvida e a certeza, entre o real e o imaginário, entre a lenda e a história, o evento climático mais extremo de que se tem notícia nestas plagas, parece um assunto encerrado, um inquérito arquivado.

Mas a grande geada de 1975 ressuscita quando convém, na franqueza das impressões pessoais mais cristalinas. Da mente de quem sempre rascunhou a História, a tragédia se refaz em subjetividades.

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O Museu Histórico, maior guardião dos registros daquele 18 de julho que nunca terminou, está fechado para reformas. A velha plataforma silenciada recebe cinco jornalistas que viveram aquele dia e se dispuseram, a convite da Folha, a lançar mão apenas das próprias lembranças para tentar traduzir em poucas palavras a dimensão de uma tragédia climática, econômica e social que tirou o café das lavouras para colocá-lo apenas como elemento de afeto e identidade.

Seria o contraponto da história de euforia iniciada com um certo grito de “chegamos!” - a senha que aliviou os excruciados pioneiros liderados por George Craig Smith 46 invernos antes - naquela clareira próxima a três nascentes, naquela beleza selvagem onde Londrina era tão somente uma ideia a ameaçar o futuro das perobas-rosas, bracatingas e aroeiras que reinavam na margem ocidental do Tibagi?

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Londrina recuperou-se totalmente? Sem as lindas floradas, sem peneiras que sacolejam ritmadas, sem colônias com casas de onde se cumprimenta pela janela, sem carreadores, sem terreiros e cascas, no horizonte da plataforma sem trem se enxerga uma cidade que não existia em 1975. Conservada durante mais de 18 mil alvoradas, a verdade resiste? Aqueles 3,5 negativos congelariam qualquer reminiscência?

Chega de interrogações. Agora, são as afirmações que revolvem o episódio sombrio. Elas dominam a estação, de onde partem as viagens ao passado. O cinquentenário da grande geada é um novo motivo para a reconstituição.

O tiro de misericórdia

“Na véspera da geada choveu e uma combinação extraordinária de fatores gerou uma situação fora de série, muito mais grave do que outras geadas pesadas como a de 1953 e 1963. Ela foi comparada pelos fazendeiros a um tsunami”, conta Widson Schwartz, repórter da Folha na ocasião e um dos memorialistas mais respeitados da cidade. “Um deles contou que quando foi visitar a fazenda, a caminhonete patinava sobre o gelo, enquanto lá fora o cafezal estava inteiramente perdido”, conta, lembrando que logo a seguir a maioria deles optou por erradicar toda a lavoura. “Alguém definiu como um tiro de misericórdia na cafeicultura paranaense”, lembra. Das 900 milhões de plantas, Schwartz lembra que 200 milhões foram danificadas completamente, enquanto outros 700 milhões sofreram danos profundos. Ele lembra que as plantações já vinham encolhendo desde a geada de 1963. No intervalo entre as duas geadas, 300 milhões de cafeeiros já haviam sido erradicados.

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Panorama no papel

O frio recorde na então Capital Mundial do Café não impactou apenas o maior e mais tradicional jornal da cidade, mas também as emissoras de TV e de rádio. E também um concorrente muito especial nas bancas, o jornal Panorama. Título mítico na história da imprensa paranaense, fundado meses antes, o diário passou a ser o maior concorrente da Folha no semestre anterior. Era um projeto ambicioso do empresário de mídia e ex-governador Paulo Pimentel. Teve uma trajetória tão breve quanto marcante. Com suplementos especiais e fortemente influenciado pelo chamado jornalismo literário, com um conteúdo inquieto produzido por uma redação povoada de repórteres e editores que vieram da imprensa alternativa do eixo Rio-São Paulo, o Panorama ganhou uma grande chance de visibilidade no episódio, manchetado como “A Pior Geada - Café, Tudo Queimado”, enquanto a Folha de Londrina estampava nas bancas “Não Sobrou um Pé de Café”.

O jornalista e poeta Nelson Capucho lembra que quando chegou na redação do Panorama a equipe estava agitada porque, depois das ligações para as fontes oficiais, já era possível dizer que o dano seria “terrível”. “Era um menino de cidade, mas meus avós tinham um sítio no Limoeiro e a primeira vez que fui visitá-los fiquei chocado: os pés de cafés se tornaram esqueletos. Assim foi em todos os sítios vizinhos e na região toda”.

Blusa sob a gandola, cachecol no pescoço

Aos 19 anos, além de escrever no Panorama, Capucho servia ao tiro de guerra. Naquela sexta-feira, conta ele, acordou muito cedo, vestiu a farda, saiu e voltou para a casa, na Rua Belém, na área central. “Um gelo! Tive que colocar uma blusa sob a gandola, enrolei no pescoço um cachecol da minha avó e saí caminhando até o campo da Vila Santa Terezinha, onde tinha uma atividade. O paralelepípedo da rua estava branco, as calçadas estavam tomadas por um gelo em pó. Um carroceiro se compadeceu e me deu carona. No caminho contou que no Vale do Rubi a água acumulada tinha formado blocos de gelo. Foi sofrida aquela manhã e no final tivemos que tomar aquele banho de gato antes de ser liberado”, lembra.

Pelas medições fornecidas pelo antigo IAPAR (hoje IDR), as máximas daquele dia alcançaram 13,3 graus centígrados no meio da tarde (contra 12,2 do dia anterior), quase 17 a mais que a madrugada, mas durante toda a manhã a temperatura permaneceu em um dígito. No sábado, também houve registro de temperatura negativa.

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| Foto: Celso Felizardo

A mudinha, o preto, o branco e o time de garotos

Londrina crescia e o jornal Panorama não era a única novidade no serviço noticioso da cidade. Dois meses antes da grande geada que a TV Coroados acrescentou o jornalismo local à sua programação. Ossamu Nonaka, conhecido como Shoni, chefiava uma jovem equipe recrutada no curso de Comunicação Social da UEL, que ainda engatinhava. “Éramos um time de garotos numa emissora praticamente desaparelhada e, de repente, nos deparamos com uma geada que acabou com a cafeicultura”, conta. “Na verdade, demoramos a descobrir o que tinha acontecido. De manhã, estávamos no campus da UEL para fazer a rematrícula semestral. Nos pontos alagados com a chuva da noite anterior, havia placas de gelos espessas, os gramados embranquecidos”. Shoni lembra que para retratar tudo aquilo, o equipamento disponível à época não era dos mais apropriados. As câmeras “mudinhas”, com cartuchos curtos de 16 milímetros, que geravam imagens em preto e branco, desafiavam os repórteres cinematográficos para mostrar os galhos secos e desfolhados dos cafeeiros. “Muita coisa se perdeu, mas alguns filmes foram doados ao museu”.

A dificuldade de informar ao público não se restringia às emissoras de TV. Vita Guimarães, uma das vozes mais marcantes da história do rádio londrinense, estava na Rádio Cruzeiro do Sul como produtora, emprego novo, serviço interno, quando teve que se desdobrar para fornecer aos locutores as primeiras impressões dos agricultores e informar o ouvinte sobre a dimensão daquela tragédia. “Fazíamos rádio escuta para conseguir alguma coisa. Devagar, começamos a entender aquele acontecimento, a dor, a tristeza que provocou”, recorda-se.

Boletins da Aeronáutica

No encontro dos jornalistas, não poderia faltar Coutinho Mendes, um comunicador que sempre foi referência nas questões meteorológicas. Ele era o chefe de reportagem da TV Tibagi e também colaborava para o jornal Panorama. Para acompanhar a massa polar que vinha do Sul, ele monitorava as rádios e já no meio da tarde do dia anterior, já se sabia que os termômetros registrariam valores recordes. “No fim da tarde, alguns pingos da chuva já caíam congelados, confirmando o que havíamos apurado com os boletins da Aeronáutica, que já previam uma geada muito forte”.

Nilson Monteiro, jornalista com passagem marcante pela Folha de Londrina mas que na ocasião era repórter do Panorama, não pôde ir ao Museu Histórico, mas fez seu relato por telefone. “Pegamos um Fusca no meio da madrugada e fomos na direção da Warta, de forma aleatória, depois seguimos até Bela Vista do Paraíso. Fomos parando nos sítios, nas fazendas e ouvindo gente”. Ele lembra que conseguiu um célebre título - “O Inferno que Veio do Frio” - ao conversar com um lavrador. “Ele me descreveu assim o que aconteceu. ‘Ontem, o céu estava azulzinho. De repente, veio um vermelhão. Aí virou um inferno’”, conta Monteiro, que se emocionou algumas vezes na entrevista. “Não foi uma dor, uma dor particular, uma dor pessoal, uma dor de um ou de outro, foi uma dor coletiva”, resume.

Da janela do ônibus, a devastação

A repórter fotográfica Elvira Alegre é outra grande jornalista da cidade que ainda se emociona ao puxar a grande geada pela memória. “Sou cria do café. Meu pai chegou em Londrina em 1951 para trabalhar com manutenção de máquinas de café e arroz. Me lembro que ele percorria as fazendas e me levava junto. Tenho muitas fotos de criança em cafezais, em terreiros. Até hoje sinto o cheiro daquele ambiente. É uma coisa enraizada em mim”, relata. “Em 1975, depois de passar pelo Panorama por alguns meses, eu fui para São Paulo, trabalhar numa publicação da imprensa alternativa, o jornal Ex. No dia da geada, minha mãe me ligou e falou sobre a geada, que tinha queimado tudo. Quis ver com os meus próprios olhos. Peguei um ônibus e na estrada, depois de Ourinhos, comecei a chorar. Nunca tinha visto aquilo. Dos dois lados da estrada, uma devastação, parecia outro mundo. Uma tristeza!”.

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Museus de Londrina preservam a memória da Geada de 1975

Acervos do Museu Histórico da UEL e do Museu do Café, do Sesc, reconstroem a tragédia climática que devastou o Norte do Paraná há 50 anos

Celso Felizardo

Cinquenta anos depois da Geada Negra de 1975, o fenômeno climático ainda está presente na memória de quem viveu aquele inverno devastador — e também no imaginário popular, mesmo entre quem não era nascido na época. Essa conservação da memória pode ser conferida nos museus de Londrina, especialmente no Museu Histórico da UEL (Universidade Estadual de Londrina) e no Museu do Café, mantido pelo Sesc.

O Museu Histórico está fechado temporariamente para reforma, mas guarda um acervo robusto sobre a geada, com fotografias, documentos e objetos. A FOLHA conversou com servidores da instituição que, além de cuidarem desse patrimônio, vivenciaram a tragédia ainda na infância — e trazem nas lembranças pessoais os impactos da noite em que o café amanheceu queimado.

O impacto da geada pode ser contado pelas lembranças de Amauri Ramos da Silva, 58, técnico de acervo do Museu Histórico de Londrina e especialista em Patrimônio Histórico e Identidades. Filho de agricultores, ele viveu o trauma da devastação ainda criança, em uma pequena propriedade em Jaguapitã, onde a família cultivava café em regime de trabalho familiar.

“Cada um dos 13 filhos do meu avô cuidava de uma parte da lavoura. Era como se fossem meeiros do próprio pai”, relata Amauri. “No dia anterior à geada, fomos buscar milho. Já fazia muito frio. No dia seguinte, a madrugada foi de chuva forte e a temperatura caiu drasticamente, chegando a -9ºC na raiz, segundo a literatura. A lavoura, que estava toda verde, amanheceu marrom. Era como se tivesse sido pintada.”

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| Foto: Celso Felizardo

Aos nove anos, ele testemunhou a transformação repentina do cenário e, em pouco tempo, o rebaixamento social da própria família. “Meu pai passou de pequeno proprietário a boia-fria. Fomos morar todos em um cômodo de 3x3 metros. Não tinha o que colher, não tinha o que comer. Foi um choque. Muitos venderam seus sítios. Hoje, onde ficava nossa colônia, só tem pasto”, conta.

Sem tecnologia para replantio rápido, os cafezais foram arrancados, e o café deixou de ser viável. Amauri lembra que o pai levou mais de um ano trabalhando como diarista até conseguir comprar um terreno em Cambé, para onde a família se mudou em 1977. “Mesmo assim, sofremos por mais de três anos. Não passamos fome porque ele sempre dava um jeito, mas foi muito difícil.”

No Museu Histórico de Londrina, onde atua desde 2002, Amauri ajuda a preservar documentos e fotografias que registram esse momento decisivo. O acervo sobre a geada e do café como um todo inclui jornais da época, como a Folha de Londrina, e imagens de fotógrafos como Armínio Kaiser. “A geada destruiu colônias, acelerou a mecanização e provocou um êxodo rural que se reflete nas periferias urbanas até hoje.”

Outra memória preservada no Museu Histórico de Londrina é a da secretária executiva Edeni Ramos Vilela, que trabalha lá há 13 anos. Ela conta que viveu a Geada Negra ainda na infância, como filha de trabalhadores rurais em uma colônia de café. “A gente até sabia que ia ter geada, meus pais e irmãos trabalhavam na lavoura, eu era pequena, também ajudava. Mas ninguém tinha noção do tamanho que ela ia ser.”

Ela se recorda do clima tenso no dia anterior, com o frio aumentando rapidamente. “Quando a gente acordou de manhã, foi um susto. O gelo dava mais que a altura de um tijolo, a gente pisava e o pé afundava até o tornozelo. Foi muito forte. Lembro dos meus pais muito preocupados, porque a gente era empregado na fazenda, e de repente todo mundo ficou desempregado.”

Naquela manhã, a família saiu para ver a plantação. “Foi desesperador. Todo mundo já sentia que ia ter que ir embora, porque a geada tinha atingido uma parte muito grande do Norte do Paraná. Ninguém sabia o que fazer, nem pra onde ir.”

Sem alternativas, o pai passou a procurar trabalho em outras fazendas. “Ele saía e deixava minha mãe com a gente, ia atrás de serviço. Não tinha telefone, não tinha como se comunicar. Às vezes ele voltava com um caminhão e já levava a mudança. Foi assim que a gente foi pra Porecatu, onde ele conseguiu emprego na usina de cana.”

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Ela conta que muitas famílias viveram esse mesmo processo. “Era caminhão indo e vindo, levando mudança de trabalhador. A gente deixava tudo: escola, amigos, a vida que tinha. Subia no caminhão e ia tentar recomeçar em outro lugar.”

Como criança, lembra que inicialmente tudo parecia uma brincadeira. “A gente saía pra brincar no gelo, era novidade. Mas depois a gente entendeu. Foi como se o povo tivesse virado refugiado, não de guerra, mas do desemprego. A cidade começou a inchar, as periferias cresceram, as famílias se acumulavam em barracos tentando sobreviver.”

Ela vê naquele período a origem de transformações profundas em Londrina. “A cidade foi feita pra ter 10 mil pessoas na área urbana e 30 mil no campo. Mas aí acabou o emprego rural. Muitos falam em crescimento desordenado, sem planejamento. Como planejar uma cidade assim? Ninguém esperava uma geada daquele jeito.”

Edméia Ribeiro, diretora do Museu Histórico de Londrina desde 2019, destaca que esse impacto está representado nas exposições e no acervo do museu. “Temos referência à geada de 1975, conhecida como Geada Negra, na nossa exposição histórica. Ela termina com o ciclo do café, como se a geada encerrasse essa fase e abrisse caminho para outra cultura.”

Segundo ela, o museu mantém uma das coleções mais importantes sobre o tema no Estado. “Temos uma riqueza muito grande de fotografias. Fotógrafos importantes registraram essa catástrofe do dia 18 de julho de 1975. O acervo é muito pesquisado. Recebemos coleções dos maiores fotógrafos de Londrina. São mais de 1 milhão e 300 mil itens documentais no acervo total.”

Além da preservação, Edmeia ressalta o papel formativo do museu. “Ele é espaço de pesquisa, ensino, extensão e ação cultural. As crianças são apaixonadas pela locomotiva, mas também pela exposição. Não tem como passar por este museu sem sair com algum conhecimento a mais, sem sair refletindo.”

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Museu do Café conta o antes e o depois da Geada

Heloísa Gonçalves

Com o aroma da bebida no ar, o visitante do Museu do Café, anexo ao Sesc Cadeião Cultural, tem uma experiência imersiva no espaço criado para preservar a história de um dos ciclos econômicos mais importantes do Estado.

Inaugurado em 2023 e localizado no centro de Londrina, os cômodos abertos para visitação são permeados por vestimentas e objetos históricos, esculturas e registros fotográficos e audiovisuais. As peças se unem ao retratar a importância da cafeicultura para Londrina, principalmente nas décadas de 50 e 60, mostrando como o patrimônio histórico cultural entrelaçou famílias com diferentes profissões, etnias e origens.

‘Memória viva’

Ao adentrar no Museu, a técnica de atividades Viviane Guilhermino está à disposição para guiar os interessados pelas salas, com exposições de longa ou curta duração - de dois meses. O passeio começa com a mostra “As Vozes da Alvorada”, dos Irmãos Santiago, filhos de trabalhadores que cultivavam café próximo à época da Geada Negra.

As esculturas em papel machê remontam ao trabalho no cafezal, representando histórias “de quem madrugava, preparava o café e o almoço para levar à roça, agasalhava as crianças que, mais tarde, eram colocadas em caminhões junto com os pais para acompanharem a colheita”, como diz a descrição do trabalho. As peças materializam a lembrança desses jovens, “guardiões de uma memória viva”, para reabrir páginas “de um tempo que precisa ser lembrado”.

Seguindo adiante, o visitante chega na primeira das duas exposições permanentes, que traz informações sobre os grupos e etnias formadoras da cafeicultura em Londrina, além de peças, fotografias e depoimentos que situam o trabalho, cotidiano e lazer em torno do café. Há uma parede com fotos de pioneiros, cafeicultores e pesquisadores que se dedicam ao estudo do café, que contribuíram para a formação do Museu.

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Dia a dia

Guilhermino explica que o espaço referencia à Geada Negra, apresentando elementos do êxodo rural que remetem ao fenômeno durante as primeiras décadas da urbanização. “Até 1975, a maior parte das pessoas morava na zona rural. Em 75 acontece a Grande Geada e as pessoas acordaram sem nada, saíram de lá e vieram para a cidade. Então contamos a partir disso, essas transformações, a necessidade das pessoas mudarem, da cidade ficar maior”, pontuou.

Garantidos por doações e empréstimos do Museu Histórico de Londrina, objetos do cotidiano da época estão à mostra, como um rastelo, arco de pua, serrote, foice e plaina de mão. As ferramentas eram todas manuais, visto que não havia máquinas disponíveis, explicou a guia. “Esses objetos já eram usados na zona rural, e o pessoal trouxe para construir suas casas na cidade, cortar árvores, rastelar”, exemplificou.

Saindo da construção, também estão presentes equipamentos clássicos encontrados em residências nos dias atuais, porém, em suas formas primitivas, como um mosqueteiro, marmiteira em alumínio, cantil em metal, grandes relógios analógicos, rádios e uma máquina para fazer a massa de macarrão. Com foco no café, há um grande saco com grãos ainda na casca, com a imagem de um lavrador no fundo como se estivesse colhendo o material. Ao lado, uma grande peneira específica para separar grãos e um torrador “bolinha”.

“Esse torrador era bem caseiro, geralmente os filhos mais novos usavam, porque era bem chato para fazer e você ficava um bom tempo ali. Você colocava o café e ia queimar, fazer a torra no forno à lenha, e como era muito quente, o pessoal falava que tinha que tomar banho antes e depois não podia sair, não podia pegar a friagem porque ficava doente”, afirmou a guia.

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‘Feito de histórias’

As fotos em exposição, de Armínio Kaiser, variam entre registros de famílias de pioneiros no cafezal na década de 60, a pais com crianças pequenas e descalças na cidade, até uma casa na antiga “favela do Grilo”, hoje, Vila Fraternidade.

Guilhermino contou que é comum a romantização do tempo, mas que, na realidade, era uma vida sofrida. “A gente vê através das roupas, dos calçados, família grande com os filhos com pouca diferença de idade. As crianças trabalhavam muito cedo e não se estudava, então quanto mais filhos, melhor para ajudar na lavoura. Com 4 ou 5 anos já colhiam os grãos de café pequenos que estavam no chão”.

A importância de apresentar histórias como essa mostra que os pioneiros não são só aqueles que “venceram”, e sim, “todas essas pessoas, essas etnias que vieram para a nossa cidade e a construíram. Não somos feitos só com os grandes que tiveram muito dinheiro, todo mundo é importante. O museu é feito dessas histórias”.

Uma mesa giratória de prova, para analisar a qualidade do grão e do café, é cercada por um vidro no meio da sala, juntamente de uma cuspideira. Uma classificadora, usada para separar os grãos por tamanho e a sujeira, a acompanha na área central.

Valorização

Na sala de exposições ao lado, também de longa duração, estão representadas diferentes etnias que possuem conexões com o café e impactaram a formação de Londrina. A “ala dos sujeitos” valoriza mulheres, indígenas, crianças e negros, “pouco falados no início da história da cidade”, com explicações sobre a sua participação na cafeicultura.

Um dos focos da ala é a concepção da criança trabalhadora na agricultura familiar, que limpava troncos, capinava e ensacava grãos para a venda. Representando o lazer, há uma coleção de bonecas de diferentes materiais que mostram a evolução de sua composição, sendo “de milho, corda, tecido, até chegar no mais recente, de plástico e madeira”.

Amauri Ramos é técnico em museologia no Museu Histórico e tem uma citação retratada no espaço, que lê: “meu primeiro presente foi uma enxada, com quatro anos. A partir dos seis anos eu entrei na escola, então 15 quilômetros de caminhada”. Por conta do alto valor do calçado e a lama no caminho, Ramos carregava os sapatos no ombro e percorria o trajeto descalço. Guilhermino pontuou que o presente é “impensável” atualmente, e que as crianças que visitam o espaço brincam e agradecem por não terem nascido na época.

SERVIÇO

Com entrada gratuita, o Museu do Café recebe visitas de terça a sexta-feira, das 9h às 21h, e aos sábados e domingos, das 9h às 18h.

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| Foto: Arquivo Folha

Fator climático não foi única causa do declínio do café no Paraná

Celso Felizardo

Embora a Grande Geada de 1975 seja frequentemente apontada como o estopim do declínio da cafeicultura no Paraná, uma leitura mais ampla dos fatos mostra que o fenômeno climático foi apenas parte de um processo mais complexo. A avaliação é da professora Caroline Oliveira Costa, mestre em História Social pela UEL (Universidade Estadual de Londrina), que se debruçou sobre o tema em sua pesquisa acadêmica.

Natural de Sertaneja, cidade do Norte Pioneiro que já teve 30 mil habitantes no auge do ciclo cafeeiro (hoje são 5,6 mil), Caroline cresceu em meio aos cafezais cultivados pela avó e viu de perto os reflexos do abandono dessa cultura. Sua vivência pessoal despertou o interesse pelo tema, que acabou se tornando o eixo central de seu trabalho de graduação e, mais tarde, do mestrado.

"Eu entrei na pesquisa acreditando que a geada havia acabado com tudo. Mas, conforme fui estudando os arquivos e entrevistando moradores e técnicos da época, percebi que já havia uma substituição do café por outras culturas, como a soja", afirma. Em Sertaneja, por exemplo, a produção de café já era residual em 1975.

Caroline observa que o processo de declínio do café começou antes mesmo da mais famosa das geadas. "Na década de 60, já havia uma superprodução e os preços começaram a cair. Além disso, muitos cafezais estavam envelhecidos e se tornaram antieconômicos", aponta. Outro fator importante foi a política do governo federal de diversificação da produção agrícola, implementada pelo IBC (Instituto Brasileiro do Café), que incentivava a erradicação dos pés antigos e o plantio de culturas consideradas mais modernas, como soja, trigo e milho.

A pesquisadora destaca ainda que a mecanização do campo, promovida pelo Estado naquele período, também contribuiu para a substituição do café. “O café era visto como uma lavoura ultrapassada, que exigia muita mão de obra e não se adaptava bem às novas tecnologias”, explica. Ao contrário das lavouras temporárias, como a soja, o café é uma cultura perene que ocupa o solo por mais tempo e exige cuidados manuais intensivos.

A retração da cafeicultura teve impactos sociais profundos, principalmente nas pequenas cidades e colônias rurais que dependiam diretamente dessa atividade. Além da perda de empregos com a mecanização e substituição das lavouras, houve uma redução drástica na produção de alimentos de subsistência. “Entre as ruas dos cafezais, cultivava-se alimentos para o consumo das famílias e venda do excedente. Com o fim do café, essa prática também foi desaparecendo”, relata Caroline.

Para ela, o imaginário em torno da geada como causa única do colapso cafeeiro simplifica uma história muito mais rica e reveladora. “A geada foi impactante, mas ela veio como agravante de um processo que já estava em curso. Não podemos atribuir a um único evento climático a responsabilidade pelo fim de um ciclo tão decisivo para o desenvolvimento do Norte do Paraná. É preciso analisar a relação do homem com o meio ambiente”, conclui.

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| Foto: Celso Felizardo

Visão romantizada não retrata a realidade

Segundo a pesquisadora, é necessário romper com uma visão romantizada do passado, que tende a exaltar o papel dos pioneiros e minimizar a complexidade dos processos sociais vividos pelas populações camponesas. Um dos marcos dessa idealização é justamente o discurso do “vazio demográfico”, a ideia de que a região Norte do Paraná estava desabitada antes da chegada dos colonizadores. “É um imaginário construído, que ignora a presença de povos indígenas, ribeirinhos e pequenos agricultores que já viviam aqui. A narrativa do pioneiro é importante, mas não pode ser a única”, destaca Caroline.

Ela aponta ainda que a extinção do sistema de colonato - no qual famílias inteiras viviam e trabalhavam nas fazendas, sendo remuneradas pelo cultivo de um número determinado de pés de café - também teve forte impacto na transformação do campo. A mudança foi acelerada pela criação do Estatuto do Trabalhador Rural, em 1963, que passou a exigir o pagamento de salário mínimo individualizado aos trabalhadores. “Isso tornava o sistema inviável economicamente para os fazendeiros, que passaram a preferir a mecanização e o arrendamento a grandes produtores”, explica.

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| Foto: Celso Felizardo

O resultado foi uma reestruturação agrária significativa. Pequenas propriedades foram sendo incorporadas por fazendas maiores, adequadas às culturas temporárias e ao uso intensivo de máquinas. “Hoje temos grandes latifúndios em Londrina e região, mas a proposta original da colonização era de lotes de, no máximo, 100 hectares”, observa Caroline. A concentração fundiária, segundo ela, agravou o êxodo rural, inflou as periferias urbanas e alterou profundamente a dinâmica social do campo.

Esse deslocamento forçado da população rural para as cidades, especialmente após a geada de 1975, também teve reflexos duradouros. “Em Sertaneja, por exemplo, de 30 mil habitantes no auge do ciclo do café, hoje restam 5,6 mil. É preciso perguntar: para onde foram essas pessoas?”, questiona. Para a pesquisadora, muitos trabalhadores não conseguiram se adaptar à nova realidade urbana e industrial, sendo relegados à informalidade e à precariedade, como no caso dos “boias-frias”.

Caroline acredita que é necessário revisar essa narrativa dominante. “Mais do que uma ruptura abrupta, o fim do ciclo cafeeiro no Paraná foi uma transição marcada por disputas, interesses econômicos, políticas públicas e transformações culturais. Ouvir os silenciados dessa história é fundamental para entender o que de fato aconteceu”, afirma.

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| Foto: Gustavo Pereira Padial

Boias-frias: sangue, suor e precarização

Luciano Silva - Especial para a FOLHA

O termo "boia-fria" ficou famoso por designar um trabalhador rural temporário sem qualquer vínculo empregatício formal. No Norte do Paraná, esses trabalhadores tornaram-se símbolo de precariedade e sobrevivência, especialmente após eventos climáticos extremos, como a Geada Negra de 1975, que devastou plantações e agravou as condições sociais em toda a região cafeeira.

A figura do trabalhador volante já existia no Paraná, vendendo seu suor sempre que fazendeiros os contratavam para serviços pontuais ou de curto período. Ela coexistiu por algum tempo ao lado dos trabalhadores do sistema de colonato, em vias de extinção, e do sistema de parceria que, através de acordos ou contraindo dívidas, arrendavam uma porção de terra para produzir café em uma fazenda e revertia a maior parte da produção ao proprietário.

Esses três sistemas distintos de trabalho rural refletiam as transformações econômicas e sociais do campo. Enquanto o colonato e a parceria eram heranças de um modelo menos instável (mas não menos exploratório), o surgimento dos boias-frias representou a precarização extrema do trabalho no campo.

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| Foto: Arquivo Folha

Com a mecanização parcial das lavouras, por meio da introdução de tratores e colheitadeiras, pequenos sitiantes foram expulsos para as cidades. O sistema de parceria foi desaparecendo, engrossando as fileiras dos trabalhadores volantes, que não tinham terra própria. A mão de obra se tornava cada vez mais barata.

Em 1963, com a criação do Estatuto do Trabalhador Rural, os fazendeiros, com medo de serem obrigados a pagar indenizações e processos, dispensaram de vez os colonos. O que gerou um significativo aumento na massa de trabalhadores que partiram rumo a grandes áreas urbanas, como Londrina e Maringá, entre outros centros, engrossando as periferias com ocupações e assentamentos precários.

Outro fenômeno foi o do quase desaparecimento de cidades pequenas, com os “Retirantes” migrando em massa para outras regiões cafeeiras, como Minas Gerais, em busca de trabalho. Para citar um exemplo, Lupionópolis caiu de 16 mil habitantes na década de 50, quando a cidade contava com duas linhas aéreas regulares, para próximo de 5 mil com a crise do café.

Nesse mesmo período pós geada, outro grande contingente de famílias migrou para trabalhar na construção da Usina de Itaipu. Por serem analfabetos ou semianalfabetos, assumiam o trabalho braçal que surgisse na obra.

Na releitura da novela Pantanal, de 2022, a ficção trouxe de volta a realidade dos boias-frias para as telas. Tenório, interpretado por Murilo Benício, vinha de uma família de trabalhadores volantes do norte do Paraná. Em cena o personagem conta a vida de sofrimento e tragédia pela qual passou. Caso protagonizado por inúmeros desconhecidos fora da ficção: caminhões abarrotados de trabalhadores, crianças, mulheres, idosos, todos sem acomodação adequada, viajando em pé, com medo, frio e fome, correndo riscos constantes nas péssimas estradas da região.

Imagem ilustrativa da imagem Há 50 anos, não sobrou um único pé de café em Londrina
| Foto: Gustavo Pereira Padial

Eram comuns notícias da época sobre acidentes fatais envolvendo esse meio de transporte.

Popularmente chamado de “Pau-de-Arara”, os veículos possuíam grades de madeira ou ferro adaptadas na carroceria que levava os boias-frias. Elas serviam como apoio para os passageiros viajarem em pé durante o trajeto longo e perigoso das cidades às lavouras.

Especialmente após a geada de 75, esses veículos se tornaram a evidência das precárias condições a que as pessoas se submetiam diariamente. Com o tempo, seu uso foi proibido por questões de segurança, mas sua imagem ainda é nítida na memória de muita gente.

A Geada Negra não só destruiu lavouras de café no Paraná, mas também transformou drasticamente a forma de trabalho no campo. Com a perda das plantações, tanto os proprietários quanto os colonos ou os parceiros não tiveram mais condições de continuar.

Muitos produtores, em vez de esperar anos pela recuperação dos cafezais, optaram por substituí-los por outra cultura e acelerar a mecanização das propriedades. E quando novos financiamentos para o café foram liberados pelo IBC (Instituto Brasileiro do Café), a produção cafeeira não era mais tendência.

Em trecho de seu livro “História Concisa do Paraná”, o professor Renato Mocellin retrata a cena apocalíptica de consequências graves para a economia, espalhando milhares de desempregados no campo e na cidade, e aproximadamente 80 mil pequenas propriedades deixando de existir entre 75 e 85: “O êxodo rural foi assustador. Com base em dados do Censo do IBGE na década de 1970, 1,2 milhão de pessoas deixaram os campos do Paraná. Muitos migraram para Mato Grosso, Rondônia e para o atual Estado do Tocantins. Outros tantos passaram a viver em centros urbanos no Paraná e em outros Estados. Diversos municípios perderam parcelas significativas de suas populações. A economia da região mudou radicalmente, a partir de então, houve uma forte expansão da soja, da pecuária, da cana-de-açúcar, do trigo e do milho”.

Assim, a crise estabeleceu de forma imediata mudanças que estavam lentamente em curso, tornando o boia-fria a principal fonte de mão de obra. Sua explosão foi, no mínimo, conturbada no processo de declínio e queda da produção cafeeira. A geada havia decretado de vez o fim das outras relações de trabalho.

O capítulo dos boias-frias do Norte do Paraná vem marcado por expropriação, exploração, desastres naturais e resistência. A geada de 75 foi um ponto de virada, expondo a vulnerabilidade desses trabalhadores e acelerando transformações socioeconômicas que vinham a passos curtos. Ainda hoje, sua luta por direitos permanece atual, refletindo os desafios do trabalho rural no Brasil.

Marmita gelada

O nome curioso dado a esses trabalhadores vem da alimentação fria com que se mantinham durante os dias nas lavouras. Acordar às 4 da manhã, preparar as marmitas, se vestir e sair para o ponto de embarque. Muitos volantes iam com suas famílias – mulheres e crianças – e levavam as marmitas em panelas de lata ou alumínio, chamadas regionalmente de "boia". Mas, ao chegar na roça, não havia onde esquentar a marmita e as pessoas precisavam almoçar a boia fria. Assim surgiu a alcunha que marcou gerações.

Mas mesmo a rotina da marmita gelada, que vinha substituindo as antigas relações coloniais, enquanto o café perdia espaço para culturas mecanizadas, como a soja, foi ficando para trás no norte do Paraná. Essa transformação, porém, deixou marcas profundas na vida do trabalhador volante. Sem políticas públicas eficientes, eles enfrentaram preconceito, fome e miséria, tornando-se o símbolo da desigualdade no campo e nas periferias urbanas.

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| Foto: Gustavo Pereira Padial

Gatos

O transporte dos boias-frias era realizado por empreiteiros conhecidos como Gatos, homens muitas vezes com vínculos com os fazendeiros. Seu papel era reunir os trabalhadores em pontos pré-determinados, fechar o acordo de diária e levá-los até as lavouras.

Sofrendo com abusos e exploração, sem direitos ou estabilidade, o boia-fria ainda caía nas garras dessa prática igualmente predatória. Sem opção, partiam das cidades, arrastados às lavouras nos caminhões paus-de-arara que os pegavam em pontos específicos, como praças públicas, favelas e bares.

O boia-fria e a Geada Negra na tela do celular

A tarefa de encontrar bons materiais sobre os inúmeros temas históricos locais ou regionais não é fácil, pois sua produção e difusão exigem esforços constantes e muitas vezes pouco recompensados. O fenômeno da Geada Negra é mais corrente nas páginas da História oficial do que o dos boias-frias. É mais mencionado e menos apagado. Porém, há décadas profissionais empenhados não deixam a memória popular ser esquecida.

Para além de trabalhos acadêmicos, diversos documentários disponibilizados por instituições, entusiastas e autodidatas, estão hoje disponíveis em plataformas de vídeo e em redes sociais. É o caso do documentário “Os Filhos do café”, produzido pela antiga TV Coroados, em 1980. Um rico material com cerca de 45 minutos, que além de estar no canal oficial, também é replicado em canais amadores de História. Há também o documentário “A Geada Negra (1975)”, hospedado no canal Rede Social do Café, no Youtube. Pode-se encontrar, ainda, o podcast “Geada Negra no Paraná”, disponibilizado no canal Curso Positivo, também no Youtube, em junho deste ano.

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| Foto: Gustavo Pereira Padial

O site Paraná Histórica, que possui páginas destinadas à História do estado e de diversas cidades da região, como Londrina Histórica e Maringá Histórica, entre outras, surgiu como parte de uma rede de preservação de memórias de estados e cidades chamado “Cidades Históricas”. “São temas diversos e no Paraná Histórica nós produzimos dois documentários por mês, dois episódios”, diz Miguel Fernando, gestor do site Cidades Históricas, que trabalha há quase vinte anos com pesquisa profissional histórica e produção de conteúdo para livros e audiovisual, além de materiais digitais.

A equipe avalia que a História é o principal ativo das cidades, sendo um conteúdo com uma taxa de rejeição próxima a zero. “Quando você recebe um conteúdo Histórico no seu WhatsApp, no Instagram, no TikTok, ou no Facebook, você minimamente para e dá uma olhada, pela curiosidade. Se este conteúdo tiver relação com a cidade onde mora, você vai ter uma atenção maior e começa a estabelecer conexões, ‘poxa, eu conheço essa praça... poxa, eu conheço essa avenida’. Então, o que a gente percebeu é que as pessoas, de um modo geral, sempre quiseram saber mais sobre a História, sobre o passado da sua cidade, mas elas não sabiam onde encontrar”, relata.

Quanto aos boias-frias, Miguel avalia que não há um mapeamento preciso da utilização desse termo antes dos anos 70. “Achamos muito importante e significativo contextualizar a relevância dessa figura na história rural de nosso estado. E obviamente é inevitável fazer a conexão entre eles, os boias-frias, e a Geada Negra. Justamente porque eles surgem num processo de êxodo rural ocasionado a partir desta intempérie climática”. É do Paraná Histórica o documentário “A origem dos ‘boias-frias’", disponibilizado em abril deste ano no Youtube.

Com exceção dos que viveram o fenômeno, isso é pouco lembrado no passado oficial, devido à vida difícil desses trabalhadores estar mais presente na memória do que em documentos ou registros. “Por incrível que pareça, nós não temos muitos materiais à disposição ainda sobre este conteúdo. Então muita coisa a gente teve que trabalhar com fonte primária de arquivos que a gente digitalizou e, claro, algumas coisas que a gente acabou encontrando pela internet”, explica Miguel.

Outro documentário disponível é o “Bóias Frias (1974)” da Escola de Comunicação e Artes da USP (ECA) que pode ser encontrado no cana da Emplasa (Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano S.A) no Youtube. Em 35 minutos, ele traz depoimentos de trabalhadores da época e relata as condições de trabalho a que eram submetidos. Condições que se repetiam desde o interior do Estado de São Paulo até o norte do Paraná, onde predominou, seguindo o rastro da cultura do café.