Anilza Dionísio da Silva figura na lista de 206 recém-formados em Direito pela UEL (Universidade Estadual de Londrina). Natural de Munhoz de Melo, cidade vizinha de Astorga, colou grau no Ginásio de Esportes Moringão na sexta-feira (11). Aos 55 anos, agora estuda para o Exame da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) na expectativa de seguir carreira na advocacia previdenciária.

Anilza Dionísio da Silva no Escritório de Aplicação de Assuntos Jurídicos: aos 55 anos , ela venceu todas as etapas até a formatura
Anilza Dionísio da Silva no Escritório de Aplicação de Assuntos Jurídicos: aos 55 anos , ela venceu todas as etapas até a formatura | Foto: Arquivo pessoal

Seu sonho é “ajudar velhinhos a se aposentar” de maneira justa, para que não sejam enganados como quase aconteceu com ela. Em 2018, solicitou sua aposentadoria com um advogado a princípio de confiança, mas conferindo com um amigo profissional, percebeu que o defensor estava tentando “passar a perna” em Anilza por cerca de R$ 5 mil.

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Resolvendo a situação com as próprias mãos, decidiu que se formaria em Direito para ajudar idosos necessitados, sem cobrar um centavo. Assim, se inscreveu no CEPV (Curso Especial Pré-Vestibular) da UEL em 2019, sem ter pisado em uma sala de aula há mais de trinta anos. Em 2020, foi aprovada no curso em sua primeira tentativa, com sua história de superação retratada em uma reportagem da FOLHA.

“Eu mal via notícia de jornal, então tudo pra mim era novo. Eu vim conhecer a sociologia e química no cursinho da UEL, filosofia antigamente era ciências sociais, então aquilo tudo era diferente, e todos eles empenhados em me ajudar. Eu fiquei apaixonada pelo pessoal do cursinho”, relembrou Silva.

A ex-aposentada levou uma tradição do CEPV à graduação, de levar bebidas aos colegas diariamente. “Entrei na UEL e no primeiro dia levei uma garrafinha de café pra mim, e dois alunos pediram um golinho. Aí, no outro dia, levei uma garrafa grande, e uma menina falou ‘ah, dona Anilza, que pena, só tomo chá’, aí comecei a levar uma garrafa de café e uma de chá pra eles todo dia”.

APOIO INCONDICIONAL

A bacharela em Direito diz ter sido bem acolhida nos cinco anos de graduação, mas que no início teve receio de se aproximar dos colegas por não saber quem poderia desprezá-la. “Você vê uma mulher negra, pobre, que já não é mais jovem, as pessoas me falaram que só ia ter gente rica e que iam me humilhar”. Anilza diz ter pedido capacitação e ajuda a Deus, que “conhece minhas limitações e sabe que não sou inteligente assim igual esses jovens”.

Anilza Dionízio Silva e os colegas na colação de grau: ela teve apoio incondicional da turma até chegar ao diploma
Anilza Dionízio Silva e os colegas na colação de grau: ela teve apoio incondicional da turma até chegar ao diploma | Foto: Arquivo pessoal

Sem expectativas, disse ter feito amizades no primeiro dia de aula, com pessoas dispostas a ajudá-la que tiveram carinho por ela. Todos os anos em seu aniversário, os colegas a surpreenderam com festa e bolo. “No último, reuniram as duas turmas, vários professores, também do EAAJ (Escritório de Aplicação de Assuntos Jurídicos), onde eu fazia estágio, e me deram um notebook e um celular novinho de presente. Que carinho”.

Durante o curso, na UEL, foram muitas as festas de aniversário comemoradas com os colegas de curso
Durante o curso, na UEL, foram muitas as festas de aniversário comemoradas com os colegas de curso | Foto: Arquivo pessoal

Relatou ainda que por vezes pensou em desistir do curso na época da pandemia de Covid-19, por dificuldades com o ensino à distância. “Quando tinha seminário, tinha que fazer slide pelo computador e eu não sabia mexer com isso, não sei até hoje. Não queria prejudicar um grupo por minha causa, e falei que ia parar o curso. A menina me disse ‘a senhora fala tudo que quer colocar no slide e vou fazer, não vai parar de jeito nenhum’, e foi assim”.

Além do apoio em sala de aula, o incentivo em casa foi vital para que Silva permanecesse na universidade. Ela mora no bairro Moradias do Cabo Frio, na zona norte de Londrina, com o esposo Cícero e os filhos João Pedro e Julia. Seu marido se aposentou na mesma época em que ela estava escrevendo o TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), e passou a “cuidar da casa do jeitinho dele”.

A filha é recém-formada em Ciências Biológicas, pela mesma instituição. Ela contou que a experiência de ser estudante ao mesmo tempo que Anilza era “muito legal”, podendo ir até o CESA (Centro de Estudos Sociais Aplicados) quando precisava da mãe, e encontrando com ela no ônibus para irem embora juntas. “Quando eu falava que minha mãe estava na UEL, o pessoal perguntava se ela trabalhava lá, e eu falava que ela era aluna, fazia Direito, e diziam ‘nossa, que bacana’”, recordou a filha.

MUDANÇA NA CAMINHADA

Vinda do “sítio”, como se referiu, Anilza trabalhou da adolescência à aposentadoria em uma fábrica de confecções em Londrina, subindo de cargo até chegar na área de planejamento e controle da produção. Ter essa bagagem de experiência foi útil quando conheceu o Direito do Trabalho, contando que associava tudo o que aprendeu na empresa com as lições.

Ela está em preparação para o Exame da OAB, para se tornar advogada oficialmente e cumprir com seu objetivo de ajudar idosos que precisarem de seus serviços. Mesmo formada, ainda conta com o apoio de seus colegas de profissão, que a incentivam a estudar e revisar os conteúdos para a prova marcada para o final do mês.

Anilza Dionísio da Silva na defesa do TCC: agora, já formada, ela se prepara para o Exame da OAB
Anilza Dionísio da Silva na defesa do TCC: agora, já formada, ela se prepara para o Exame da OAB | Foto: Arquivo pessoal
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