No Caps, pacientes têm acolhimento e trabalham ressocialização
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sábado, 18 de maio de 2019
Simoni Saris - Grupo Folha 
Em Londrina, pessoas com transtorno mental recebem ajuda no Caps 3 (Centro de Atenção Psicossocial). Em atividade há 22 anos, a unidade atende hoje em torno de 1.600 pacientes, cerca de 50 deles com quadros crônicos que passam o dia no local, onde participam de atividades terapêuticas, de segunda a sexta-feira.

No Caps, eles encontram acolhimento, atenção, escuta afetiva e atividades de ressocialização. O tratamento é individualizado e segue o PTS (Projeto Terapêutico Singular), principal instrumento de trabalho interdisciplinar dos centros de atenção psicossocial. O local também oferece pronto-socorro e ambulatório para atendimentos de urgência e emergência 24 horas e seis leitos de internamento, chamado de hospedagem. “O nosso trabalho pode ser resumido em uma palavra: acolhimento. Quem vem precisa ser acolhido no seu sofrimento”, diz a assistente social e coordenadora do Caps, Juliana Perez Moreira Baratto.
A terapeuta ocupacional Maristela Handchucka atua há 38 anos na psiquiatria. Trabalhou em manicômios e acompanhou todo o processo que culminou com a Reforma Psiquiátrica até chegar ao Caps 3. A desinstitucionalização dos pacientes com transtornos mentais, garante ela, só trouxe ganhos aos doentes e à sociedade. “Hoje, eles têm a compreensão da doença. Houve uma quebra de tabu. A gente discute o diagnóstico com total liberdade e eles interagem com a sociedade. Só o fato de cuidarem da própria medicação, saberem os horários que têm que tomar os remédios, é um ganho enorme. É muito bom saber que teve essa evolução fantástica”, comemora.
No Caps 3 há vários pacientes que chegaram à unidade com um histórico de sucessivas internações em hospitais psiquiátricos, mas com os cuidados diários as crises ficaram para trás. J., 51 anos, é um deles. Em um curto espaço de tempo, enfrentou uma série de perdas. Além dos pais, tentou superar a morte de dois irmãos. Mas o sofrimento tomou proporções gigantescas, conta ele, e desencadeou o transtorno mental. “Não tinha problema antes disso. Com 15 anos comecei a trabalhar em uma firma e tinha uma vida normal até os 37 anos. Aí, com as mortes na minha família, eu só ficava dentro do quarto e o médico disse que eu estava com depressão. Fui internado 18 vezes. Primeiro era bebida, depois eu perdi a cabeça. Eu ficava muito nervoso e quebrava as coisas”, recorda.
J. frequenta o Caps há dez anos e diz que a vida hoje está mais fácil. “Hoje eu não preciso mais quebrar as coisas. Venho todos os dias, de segunda a sexta-feira. Fico o dia todo. Tratam a gente muito bem. Nunca mais voltei para o hospital psiquiátrico. Tomo todos os remédios. Agora eu quero parar de fumar”, planeja.
Há apenas quatro meses no local, A., 28 anos, não deixa de sorrir enquanto enumera os progressos que vem observando em sua vida desde que saiu do internamento no hospital e passou a ser atendida na unidade. Com as medicações, diz, começou a se alimentar melhor, engordou e se sente feliz. “Sou outra pessoa. Agora converso com as outras pessoas, tenho mais responsabilidades, passo o dia aqui, volto para casa feliz e no outro dia estou aqui de novo. Antes eu achava que a minha vida era uma droga, mas agora estou muito bem.”
A., 52 anos, também passa os dias no Caps e diz ser “freguês antigo” na unidade de atendimento psicossocial. Chegou pela primeira vez em 2005. Iniciou o acompanhamento, melhorou, parou de frequentar a unidade, veio uma nova crise e retornou em 5 de janeiro de 2010, conta, demonstrando uma memória prodigiosa. Ele participa de várias atividades terapêuticas, atua na produção do Zureta, o jornal escrito pelos próprios pacientes, não mede elogios aos funcionários e faz questão de ressaltar a qualidade da comida servida diariamente aos pacientes. “O atendimento aqui é muito bom e as refeições são servidas no horário regular. Falo pelo meu estômago. A alimentação aqui é boa.”
No centro de acolhimento, encontrou até uma companheira, F., 39 anos, com quem se casou há oito anos. “Quando fiquei internada, ele demonstrou todo o amor dele por mim. Ia me visitar todos os dias. Eu ficava esperando, me arrumava, passava batom”, conta ela, orgulhosa da atitude do marido. “O paciente que sofre de algum tipo de transtorno mental recebe pouca visita de quem não é parente. Eu não trabalho fora, sou aposentado e não pago transporte. Tenho direito a 40 passagens de ônibus por mês. Dá para ir fazer 20 visitas no hospital. Marido tem que ser assim”, ensina A.(S.S.)
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