'Reabrir manicômios é um crime'
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de maio de 2019
Simoni Saris - Grupo Folha 
A jornalista Daniela Arbex publicou, em 2013, o livro-reportagem Holocausto Brasileiro, que recupera a história do Colônia, o maior hospício brasileiro, fundado em 1903 na cidade mineira de Barbacena. A partir dos relatos dos sobreviventes da instituição, a autora revela um histórico de tortura, violência e morte de pessoas que eram enviadas até lá, muitas vezes sem antecedentes de doença mental. Entre adultos e crianças, muitos dos internos do Colônia eram apenas epilépticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, moças que haviam perdido a virgindade antes do casamento, pessoas com depressão ou muito tímidas.
Na instituição, tinham as cabeças raspadas, andavam nus, passavam fome. Bebiam água do esgoto e comiam ratos e eram submetidos a sessões de eletrochoque não com o objetivo de tratamento, mas como punição ou forma de conter os ânimos.
Até a década de 1980, quando foi fechado, mais de 60 mil pessoas morreram no Colônia, vítimas da barbárie e da desumanidade praticadas pelo Estado brasileiro com a conivência de médicos, funcionários e da sociedade.
Para Arbex, a história do Colônia é uma referência do que não se deve fazer no tratamento de pacientes com transtornos mentais e retrata a falência de um modelo de terapia. ”Eu julgava esse modelo superado e quando vem o Ministério da Saúde e a nova coordenação de saúde mental e anunciam a nota técnica, todas as pessoas que conheceram essa realidade ficaram assustadíssimas com a possibilidade real de retrocesso”, comentou. “Não existe manicômio bonzinho. Manicômio humanizado é só uma retórica. O que segrega, isola e confina não tem condição de ser humanizado.”
A jornalista lembra que em Juiz de Fora (MG), cidade onde vive, o último hospital psiquiátrico foi fechado somente em 2014 e as condições dos pacientes eram precárias. “A gente não conseguia entrar durante um tempo e, quando o poder público entrou no hospital, era a mesma coisa do Colônia. Os pacientes estavam amarrados, nus, passando fome, uma situação gravíssima. E isso só tem cinco anos.”
A proposta de retorno dos manicômios como política de saúde mental, avalia Arbex, não é decorrente de desconhecimento técnico, mas de interesses financeiros. Os argumentos de que o fechamento dos manicômios resultou em um gargalo, com a extinção de leitos para internamento, não se justifica, ressalta ela. Entre a década de 1990 e os anos 2000, o número de leitos hospitalares caiu de 50 mil para 3 mil. “Realmente, não houve uma resposta adequada para os internamentos. Mas usar isso como justificativa para reabrir manicômios é um crime. Vamos afinar o que está ruim, criar leitos psiquiátricos em hospitais gerais e não criar espaços isolados”, sugere. “Os donos de hospitais nunca se conformaram em perder os leitos. A perda de receita foi enorme. Com a proposta de reabertura dos manicômios, vemos a questão financeira passando por cima da questão humana.”(S.S.)
LEIA MAIS:
- Associação Brasileira de Psiquiatria defende qualificação de hospitais especializados
- Cronologia da luta antimanicomial
- No Caps, pacientes têm acolhimento e trabalham ressocialização


