Ribeirão Cambé: a bacia que respira Londrina e agoniza no Igapó
Crise ambiental revela fragilidades históricas de saneamento e manejo da água em Londrina; cientistas apontam riscos à biodiversidade e gestores correm contra o tempo para recuperar a bacia
PUBLICAÇÃO
domingo, 05 de outubro de 2025
Crise ambiental revela fragilidades históricas de saneamento e manejo da água em Londrina; cientistas apontam riscos à biodiversidade e gestores correm contra o tempo para recuperar a bacia

Quem observa o Igapó, cartão-postal de Londrina, enxerga apenas a superfície: as águas verde-escuras, as ilhas de alfaces-d’água e a espuma que se acumula nas margens.

Mas o problema começa quilômetros antes, na nascente do Cambé, que deveria ser pura e cristalina, símbolo de vida, e hoje já nasce marcada por lixo e ocupações irregulares. O contraste é brutal: o que no mapa deveria ser uma linha azul aparece, na paisagem real, como um fio marrom ladeado por entulhos e resíduos domésticos.

Logo na nascente, sinais de esgoto se misturam ao curso d’água. Pequenas espumas se formam em pontos de represamento, indício da presença de detergentes e fósforo em excesso. Para os especialistas, esse é o gatilho de um ciclo vicioso: mais nutrientes significam maior proliferação de algas e cianobactérias. O biólogo Weliton da Silva, doutor em Botânica e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), explica: “Chamamos isso de eutrofização. É como se o rio fosse super alimentado, mas com a comida errada.” O resultado é um desequilíbrio que se espalha corrente abaixo.

As nascentes, que por lei deveriam ser Áreas de Preservação Permanente (APPs), foram engolidas pela urbanização. O ribeirão foi empurrado para os fundos de vale, muitos deles ocupados de forma irregular. Não é raro ver sofás, pneus e entulhos de construção abandonados nas encostas ao longo de seu percurso.


O Ministério Público do Paraná já apontou o problema em relatórios: dezenas de núcleos urbanos informais às margens do Cambezinho despejam resíduos sólidos e líquidos sem qualquer tratamento. Garrafas PET e sacolas plásticas enroscam-se nas raízes, e capivaras convivem com uma mistura de ambiente natural e rejeito humano. O resultado é que a água já sai comprometida na origem, carregando o lixo e os nutrientes que alimentam o colapso no Igapó.

O pesquisador Lucas Henrique dos Santos, doutorando em Ciências Biológicas pela UEL e integrante do Laboratório de Ecologia Aquática e Conservação de Espécies Nativas (LEACEN), explica que a degradação é um processo lento, mas cumulativo. " O Igapó passa por um processo de simplificação biológica: quanto mais homogêneo e degradado o sistema, menor a diversidade que ele sustenta". O resultado é que os organismos mais sensíveis desaparecem e vai encontrando só os mais resistentes, que sobrevivem em ambientes já muito degradados.

ESPINHA D'ÁGUA
O Ribeirão Cambé nasce tímido no sopé da Serra Formosa, pequena elevação natural que marca o limite entre as áreas rurais de Londrina e Cambé, na altura do trevo da Rodovia Celso Garcia Cid (PR-445), próximo ao acesso para Maringá. Logo abaixo do viaduto, a água brota cristalina e canalizada, escorrendo entre o asfalto e a vegetação.

A nascente é alimentada principalmente pelo Sistema Aquífero Serra Geral, com recarga complementar do Aquífero Caiuá, combinação que explica por que suas águas emergem frias e límpidas, mesmo em períodos de estiagem. Dali, o fio d’água desce pelos vales, cruza pastos e manchas de mata esparsa até encontrar o perímetro urbano.
Nesse ponto, o Cambé deixa de ser apenas um córrego de serra e passa a ser o eixo hídrico que costura Londrina transversalmente sentido oeste-sudeste. Ele atravessa bairros densamente ocupados e recebe uma série de afluentes e drenagens até formar o sistema lacustre do Lago Igapó. Uma sequência interligada que compreende o Lago 4, Lago 3, o Aterro, Lago 2 e Lago 1, antes de seguir rumo ao Parque Arthur Thomas, desaguar no Ribeirão Três Bocas e, por fim, encontrar o Rio Tibagi. Por essa razão, qualquer desequilíbrio ambiental, poluição ou excesso de nutrientes precisa ser combatido na nascente, onde o Cambé começa a reunir tudo o que mais tarde refletirá nas águas verdes do lago que é o espelho da cidade.

Silva explica que o erro está em tratar apenas os sintomas visíveis. Pesquisador da biodiversidade, flora, taxonomia, ecologia, filogenia de microalgas e qualidade da água, Silva é uma das principais fontes científicas nas análises sobre o Lago Igapó e o Ribeirão Cambé em 2025 e segundo ele, não basta intervir no lago: o foco precisa estar em toda a bacia hidrográfica.
PROBLEMA ANTIGO
Ao entrar em Londrina, o Ribeirão Cambé deixa de ser um curso natural e passa a desempenhar múltiplas funções: canal de drenagem, valão de águas pluviais e coletor do que o escoamento urbano carrega.





O rio desaparece da paisagem, engolido por galerias de concreto, e ressurge mais adiante como espelho artificial — o Lago Igapó, cartão-postal da cidade.


Hoje, o principal reservatório do complexo lacustre de Londrina enfrenta uma crise ecológica severa. Em 4 de setembro de 2025, o Lago Igapó 2 amanheceu com uma coloração verde-escura e a superfície tomada por tapetes de alfaces-d’água (Pistia stratiotes) — sintomas evidentes de um sistema saturado por nutrientes e negligenciado por décadas. O fenômeno expôs o acúmulo histórico de falhas de saneamento, urbanização desordenada e gestão precária das bacias hidrográficas que abastecem o lago.
Silva explica que o desequilíbrio é resultado direto do excesso de fósforo e nitrogênio que alimenta a floração de cianobactérias potencialmente tóxicas, como a Planktothrix isothrix e espécies do gênero Microcystis. “Algumas populações dessas cianobactérias produzem toxinas e outras não. Por isso é fundamental realizar análises regulares da água. Quando essas algas proliferam, o risco deixa de ser apenas estético: é ambiental e de saúde pública”, alerta o pesquisador.


Segundo ele, o processo de eutrofização é uma engrenagem difícil de interromper: os nutrientes alimentam as algas; as algas, ao morrer, consomem o oxigênio da água; e a decomposição devolve ainda mais matéria orgânica ao sistema. “É uma roda que gira sozinha, mas cada intervenção mal planejada faz girar mais rápido”, resume.
Para os especialistas ouvidos pela FOLHA, o sistema atingiu o estágio de eutrofização avançada — quando há saturação de nutrientes e perda de equilíbrio ecológico.
“A alface-d’água é uma planta nativa do Brasil, encontrada principalmente em regiões tropicais e também em outras partes do mundo. Ela se reproduz de forma muito rápida e, quando não há controle, pode se descontrolar facilmente no ambiente”, explica a bióloga e educadora ambiental, Paolla Ody de Oliveira. Segundo ela, o crescimento acelerado da planta bloqueia a entrada de luz e oxigênio na água, afetando diretamente a biodiversidade, a qualidade do recurso hídrico e a vida dos animais que dependem desse ecossistema. “Embora seja usada como planta ornamental no paisagismo e até comercializada, a alface-d’água, quando se torna um problema ecológico, pode prejudicar canais de irrigação e comprometer o uso dos recursos hídricos. Por isso, é fundamental adotar estratégias de controle para minimizar os danos ambientais”, alerta.
“É importante destacar que a proliferação da alface-d’água não pode ser atribuída apenas às ações recentes da Prefeitura. Esse fenômeno provavelmente também está relacionado ao longo período de estiagem que a região vem enfrentando nos últimos meses, o que favorece o crescimento excessivo dessas plantas. No entanto, a situação pode sim trazer impactos à fauna aquática, atingindo desde sapos até outros organismos que dependem do lago. Por isso, é fundamental que sejam realizados mais estudos, com a participação de profissionais especializados, para avaliar a real necessidade de manejos e remoções. O controle deve ser feito de forma planejada e baseada em evidências científicas, garantindo que a solução não agrave ainda mais o problema ecológico", completa Ody.


Como o Lago Igapó é formado por um encadeamento de quatro reservatórios interligados, o problema se propaga em cascata: o que começa no Lago 4 chega ao Lago 1, atinge o Parque Arthur Thomas e segue, com menor intensidade, até o Ribeirão Três Bocas e o Rio Tibagi e a crise mostra que o problema local é, na verdade, uma manifestação de uma crise urbana que se estende por toda a bacia do Ribeirão Cambé e que se mantém sem solução há décadas.



O decreto de emergência ambiental de 28 de fevereiro de 2025, assinado após o vazamento de uma das comportas do Igapó 2, autorizou intervenções sem estudos prévios de impacto, a medida pode ter ocasionado o revolvimento de sedimentos ricos em nutrientes, o que, segundo pesquisadores, pode ter acelerado o processo de eutrofização que hoje pinta o lago de verde e expõe, com nitidez, o custo da negligência acumulada.
Ao longo de 2025, a Folha de Londrina acompanhou detalhadamente a evolução da crise, em reportagens assinadas por Heloísa Gonçalves, Jéssica Sabbadini e outros jornalistas da redação. A cobertura começou em 4 de setembro, com o registro da mudança abrupta na coloração do lago. Naquele momento, especialistas atribuíram o fenômeno à estiagem prolongada e à alta incidência solar, que concentraram nutrientes e favoreceram a multiplicação das algas.
Em paralelo, a Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Obras e Pavimentação, deu início à operação de limpeza e desassoreamento dos córregos do Aterro do Igapó 2. A reportagem de Jéssica Sabbadini acompanhou o trabalho e registrou a preocupação de comerciantes da Rua Professor Joaquim de Matos Barreto, afetados por alagamentos recorrentes. Poucos dias depois, o cenário piorou com a explosão das macrófitas aquáticas, que cobriram quase toda a superfície do lago.
Santos reforça a gravidade da situação. “Nos últimos três anos, realizei pesquisas no Lago Igapó com foco nos anuros (sapos, rãs e pererecas), bioindicadores sensíveis às mudanças ambientais. A riqueza de espécies foi extremamente baixa: registraram-se principalmente as mais generalistas, capazes de tolerar ambientes degradados, enquanto as mais sensíveis não apareceram. Em campo, observei ainda baixo oxigênio dissolvido, vegetação aquática quase inexistente e forte assoreamento — sinais de empobrecimento ecológico que tendem a se agravar com a atual proliferação de algas e alfaces-d’água, pois o excesso de biomassa reduz luminosidade e oxigenação, dificultando a sobrevivência dos organismos aquáticos."
Em meio a esse cenário, o secretário municipal do Ambiente, Gilmar Domingues, reconheceu que monitoramentos recentes apontaram níveis de fosfato acima da média em vários pontos do Igapó. “O excesso de nutrientes causa essa oferta de fosfato e, em alguns locais, também a diminuição de oxigênio dissolvido”, explicou à reportagem em 3 de outubro de 2025. Segundo ele, a análise levou à suspeita de lançamentos clandestinos de esgoto. “As nossas equipes foram a campo, mas não localizaram as origens. A Sanepar informou que há 60 imóveis na bacia do lago que ainda não estão conectados à rede pública de esgoto”, disse o secretário.
Para tentar reverter o quadro, a Prefeitura iniciou testes de aeração superficial. “Não podemos injetar oxigênio no fundo, porque isso revolveria os sedimentos e liberaria mais nutrientes. É um equilíbrio delicado”, completou Domingues.

“Quando o fosfato está alto, as algas agradecem. Mas o rio deixa de respirar. De dia, elas produzem oxigênio; à noite, consomem. O que sobra é uma gangorra perigosa, capaz de levar peixes e anfíbios à morte", explica Silva sobre o efeito desse desequilíbrio.


O pesquisador defende um olhar sistêmico, que abranja o cartão-postal e suas origens — os córregos canalizados, as microbacias urbanas, as bordas ocupadas e os manejos realizados sem planejamento. “O que corre invisível até o Igapó é o que o adoece”, resume.

LONGE DOS OLHOS
Se o Lago Igapó é a vitrine da crise, os bastidores estão escondidos nas entranhas do saneamento. É lá, entre as tubulações invisíveis, as estações de tratamento e as ligações clandestinas, que o drama do Ribeirão Cambé ganha corpo — e revela a distância entre o discurso e a realidade.


À primeira vista, Londrina ostenta índices de cobertura que soam exemplares: 98% das residências ligadas à rede de esgoto, segundo a Sanepar. Mas relatórios do Ministério Público do Paraná (MPPR) mostram um quadro bem mais complexo: 8.992 imóveis com ligações irregulares na bacia do Ribeirão Lindóia, conectada ao sistema do Cambé, além de 26 bairros e oito distritos ainda sem cobertura total. Em setembro de 2025, a 20ª Promotoria de Justiça, especializada em Meio Ambiente e Urbanismo, expediu recomendações à prefeitura e à Sanepar: revisar o Plano Municipal de Saneamento, atualizar diagnósticos e comprovar a correção das irregularidades.


A companhia reconhece o desafio. “Recebemos as recomendações com tranquilidade e seriedade”, declarou Antonio Gil Gameiro, gerente regional da Sanepar no Norte do Estado. Segundo ele, o número de bairros pendentes “é pequeno diante dos mil existentes em Londrina, mas tem grande importância social”. Gameiro garante que todos estão incluídos no plano de investimentos, com obras previstas entre 2027 e 2029, prazo estimado para alcançar a universalização do serviço. O atraso, explicou, deve-se à complexidade técnica das intervenções, que exigem novas estações elevatórias e redes profundas em áreas densamente ocupadas.
Nos bastidores, porém, a universalização esbarra em velhos obstáculos: ligações clandestinas, fossas negras e redes pluviais interligadas ao esgoto doméstico. “Ter a rede na frente da casa não basta”, alertou Gameiro. “Cada morador precisa fazer a instalação interna adequada, com caixa de gordura e separação da água de chuva. Sem isso, o sistema sobrecarrega e devolve o problema para o rio.”
A fiscalização, segundo a Sanepar, enfrenta um entrave decisivo: o acesso aos imóveis. Quase 40% das residências da bacia do Cambezinho não permitem vistoria. “Em muitos casos, as fossas são apenas buracos no solo, sem tratamento real”, admite o gerente. O resultado é um fluxo subterrâneo de efluentes que escapa à estatística e corre, invisível, para o Cambé.

Nos distritos rurais — Irerê, Lerroville, Paiquerê e Guaravera — as obras de ampliação da rede estão em andamento, mas enfrentam o mesmo problema de licenciamento ambiental. Gameiro cita ainda que o Paraná possui uma das legislações ambientais mais restritivas do Brasil, exigindo que as Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) reduzam a Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO) de 90 mg para até 10 mg antes do despejo. “Por isso dobramos a capacidade das ETEs Norte e Sul. São elas que tratam quase 90% do esgoto da cidade”, afirmou.

Mas a cidade continua drenando o que não deveria. Em bairros periféricos e margens do Cambé, o que corre pelas canaletas é espuma branca de detergente, cheiro de sabão, efluentes que escapam do controle. As câmeras de celulares registram o que o sistema não admite: o despejo ininterrupto de águas turvas, que seguem o curso natural até o Igapó, depois ao Ribeirão Três Bocas e, finalmente, ao Rio Tibagi — de onde volta parte da água que abastece 60% dos lares londrinenses.

O gerente da Sanepar reforça que “os loteamentos irregulares não podem receber infraestrutura até serem regularizados pela prefeitura”. Segundo ele, a companhia atua em parceria com a COHAB, dentro dos programas de Regularização Fundiária Urbana (REURB), para viabilizar essas obras.
Mas nos bairros onde o Ribeirão Cambé passa escondido entre muros e matagais, o que prevalece é a informalidade e o silêncio. Cada chuva arrasta novos detritos. Cada sol escaldante apressa a proliferação de algas. Cada adiamento burocrático empurra o problema um pouco mais para o lago.
Enquanto isso, a água segue seu curso. Carrega consigo resíduos domésticos, espumas de sabão e compostos de fósforo que tingem o lago de verde e alimentam a crise. E, quando a chuva chega, ela apenas embaralha o cenário: o rio se ergue, varre o lixo das margens e o despeja no espelho que a cidade insiste em chamar de paisagem.
O Ribeirão Cambé é o fio condutor dessa história — o que sai da torneira e o que corre pelo ralo. E enquanto a cidade continua olhando o reflexo do Igapó, o que está embaixo segue invisível, respirando com dificuldade.

O CAMBÉ NÃO TERMINA NO IGAPÓ
O Ribeirão Cambé não é apenas um curso d’água. É também uma linha de conflito — um palco onde se encenam disputas de responsabilidade, narrativas e omissões. A crise verde que tomou o Lago Igapó e toda a bacia não se limita à biologia ou à engenharia sanitária: ela expôs, com rara clareza, o modo como o poder público e a sociedade convivem com o colapso ambiental como se fosse rotina.

Nos vídeos que circularam nas redes sociais em setembro, o secretário de Obras do município, Otávio Vitor Gomes, procurou descolar a prefeitura da origem do problema. “Obviamente, o desassoreamento dos canais não tem relação com o aparecimento das alfaces d’água no lago”, afirmou. “O que fizemos foi liberar o fluxo, e com a chuva elas apenas seguiram o curso natural até o Igapó 2.”
Mas o professor da UEL rebate a explicação: “A obra pode não ter causado a floração diretamente, mas ao revolver o sedimento rico em nutrientes, contribuiu para agravar a crise. É como cutucar uma ferida aberta.”

No Consema (Conselho Municipal do Meio Ambiente), o debate sobre transparência e responsabilidade dominou as reuniões de setembro. “Não adianta divulgar percentuais de cobertura de esgoto sem mostrar onde estão as falhas”, registrou uma das atas. “E não adianta culpar a estiagem quando há espuma de detergente descendo pelas galerias pluviais.”
Enquanto isso, as instituições trocam acusações.
A Sanepar atribui parte das irregularidades à falta de fiscalização municipal sobre ligações clandestinas. A Secretaria do Meio Ambiente alega que não possui equipe suficiente para monitorar todas as margens e ocupações irregulares. O Ministério Público, por sua vez, cobra ações concretas, mas o cronograma avança devagar — e o lago continua verde.
A disputa de versões se espalhou pela cidade. Empresários financiaram ações simbólicas, com jetskis e retroescavadeiras retirando manualmente as alfaces-d’água da superfície. Do outro lado, moradores registravam despejos de esgoto e publicavam vídeos denunciando o cheiro e a espuma. No meio do barulho, os cientistas tentavam ser ouvidos.

“A alface-d’água é nativa, sim. Mas o problema não é a planta — é o ambiente que a deixou crescer demais”, explica Silva. “Quando um lago ou um ribeirão se cobre por completo, isso não é natureza, é um sintoma.”
Um pesquisador ouvido pela reportagem ironizou: “É mais fácil culpar a chuva do que admitir que o problema está no cano”.
Enquanto isso, o tempo faz o seu trabalho silencioso: o lixo se acumula, o fosfato se espalha e o verde se adensa.
Nesse cenário, a cidade sente falta de uma voz que não falava por cargo, mas por convicção: a de João Batista Moreira Souza, o João das Águas. Morador antigo da região da Serra Formosa, onde o Cambé nasce, João transformou a rotina em militância ambiental. Munido de uma enxada, um balde e o celular, passava dias limpando margens, retirando lixo e registrando os despejos clandestinos. “É aqui que o lago começa, mas ninguém vê”, dizia, apontando para o filete de água cristalina que brota sob o viaduto da PR-445.
Suas postagens viraram testemunhos de um ativismo solitário, feito mais de persistência do que de audiência. João morreu em 2022, antes da crise verde explodir, mas deixou um legado de lucidez: mostrou que a defesa do Igapó começa muito antes das suas margens. Hoje, sua ausência ecoa em cada trecho do Cambé tomado por lixo, em cada nascente sufocada pelo entulho.
O ambientalista que chamava o rio de “meu vizinho mais velho” virou símbolo da resistência silenciosa. E sua frase — “o lago começa onde ninguém olha” — soa, agora, como epitáfio e aviso.

SAÚDE PÚBLICA EM RISCO
O que parece apenas um problema estético — a superfície esverdeada, o lago coberto de plantas e espumas — é, na verdade, uma ameaça silenciosa à saúde pública. As mesmas algas que tingem o Lago Igapó de verde podem liberar toxinas letais para peixes, animais e seres humanos. A crise, que começou como um incômodo visual, tornou-se um alerta sanitário.
“As cianobactérias são organismos oportunistas”, explica Silva. “Quando encontram nutrientes em excesso e pouca circulação de água, elas se multiplicam rapidamente. Mesmo que nem todas produzam toxinas, a simples concentração já torna a água imprópria para recreação.”
O risco cresce de forma invisível. Em condições favoráveis, espécies como Planktothrix isothrix e Microcystis aeruginosa produzem cianotoxinas, substâncias capazes de afetar o fígado, o sistema nervoso e até a pele humana.

“Mesmo quando não há liberação de toxinas, a decomposição dessas algas reduz o oxigênio dissolvido e altera o pH, sufocando a vida aquática”, alerta. “De dia, elas produzem oxigênio; de noite, consomem. É uma gangorra que pode colapsar o sistema inteiro.”
O caso mais emblemático de contaminação por cianotoxinas no Brasil ocorreu em Caruaru (PE), nos anos 1990. Pacientes em hemodiálise morreram após a ingestão de água contaminada por microcistinas — uma tragédia que se tornou referência mundial. “Foi o exemplo extremo do que acontece quando a gestão da água ignora o risco biológico”, lembra o pesquisador.
Londrina não está nem de longe nesse ponto, mas o cenário acende sinais vermelhos. Nenhum protocolo municipal prevê testes regulares de toxinas no Igapó ou nos ribeirões que o alimentam.
Os primeiros alertas vieram dos usuários do lago. Canoístas relataram irritações na pele e atletas amadores descreveram coceiras e ardência após treinos no Igapó 2. Um grupo de mulheres sobreviventes de câncer de mama, que pratica esportes aquáticos no lago, foi orientado por pesquisadores da UEL a suspender atividades em dias de forte coloração verde. “Atividades como natação, pesca para consumo e contato direto com a água não são recomendáveis neste momento”, alertaram os especialistas.
Os efeitos vão além do corpo humano. Silva, observa que as toxinas se acumulam nos tecidos dos peixes, podendo entrar na cadeia alimentar. “Elas podem não matar imediatamente, mas se acumulam. Quem consome esses peixes acaba absorvendo as mesmas substâncias”, explica. Tilápias, espécie exótica resistente, ainda sobrevivem — mas sua dominância no lago é outro indício de desequilíbrio ecológico. “Se um dia vermos mortandade de tilápias no Igapó, será um sinal de colapso completo. Até o peixe que suporta tudo terá sucumbido”.
O problema também alcança a fauna silvestre. Capivaras, patos e outros animais que circulam entre o Igapó e o Parque Arthur Thomas bebem dessa água contaminada e transportam as algas em seus corpos, ajudando involuntariamente a espalhar o problema para outros corpos hídricos da cidade.

O impacto é silencioso e cumulativo — um desequilíbrio que, uma vez instaurado, exige anos de recuperação.
Apesar da gravidade, não há placas de advertência nas margens, nem campanhas educativas alertando a população sobre os riscos do contato.
A estratégia oficial, até agora, tem sido esperar a natureza agir — contar com as chuvas para diluir o verde.
“Não é possível enfrentar uma crise ambiental com fé na meteorologia”, ironiza um pesquisador da UEL. “Enquanto se espera a chuva, o lago continua fermentando.”
O silêncio institucional é tão nocivo quanto a própria poluição. “O Igapó hoje é uma roleta russa ecológica”, resume um sanitarista ouvido pela reportagem. “Cada mergulho pode ser só um refresco — ou o início de um problema de saúde invisível.”
O QUE A CIÊNCIA PROPÕE
A crise do Lago Igapó — e de toda a bacia do Ribeirão Cambé — não será resolvida com mutirões pontuais, retroescavadeiras em ação nem vídeos de limpeza publicados nas redes sociais, apontam os especialistas. O que está em jogo não é apenas o cartão-postal, mas a saúde pública e a resiliência ambiental de Londrina. “Abraçar o lago é fácil”, resume Silva. “Difícil é abraçar a bacia inteira.”
Os especialistas ouvidos pela FOLHA são unânimes: enfrentar o colapso exige um plano contínuo, com ações estruturais e baseadas em evidências científicas. Não há atalhos, nem soluções rápidas. A cidade precisa olhar para a água com a mesma seriedade com que olha para o asfalto.
Curto prazo: monitorar, alertar e proteger
Ainda segundo os especialistas, a primeira resposta precisa ser técnica e imediata: monitorar.

Parâmetros como oxigênio dissolvido (OD), pH, turbidez e presença de cianotoxinas devem ser acompanhados semanalmente. “Sem dados, estamos no escuro”, adverte Silva. “Precisamos saber se o lago está produzindo toxinas e qual é o grau de risco.”
Mas monitorar não basta. A população precisa ser informada.
Faltam placas, alertas e campanhas públicas para que as pessoas não continuem nadando, pescando e praticando esportes em águas contaminadas. “Informar é parte da responsabilidade ambiental", diz Silva.
O poder público deve agir como mediador entre o conhecimento científico e a rotina dos cidadãos — comunicar, educar e proteger enquanto o sistema é diagnosticado.
Médio prazo: atacar a fonte da doença
Toda água contaminada tem origem, e no caso do Igapó, elas são conhecidas.
Domingues, admitiu a existência de 60 imóveis sem ligação à rede de esgoto na bacia do lago, além de indícios de lançamentos clandestinos.
Essa é a ferida aberta da cidade. Enquanto o esgoto continuar fluindo para os córregos, cada chuva será um reforço na dosagem de fósforo e matéria orgânica que alimenta as algas.
Fiscalizar é preciso — e com rigor.
Lacrar ligações irregulares, multar reincidências, exigir regularização e garantir que a rede pública realmente cumpra sua função.
Ações paliativas, como a simples remoção de plantas, só maquiam o problema, alertam os cientistas.
Além disso, o município precisa criar bacias de contenção e zonas de retenção natural, capazes de filtrar parte dos poluentes antes que atinjam o lago. Esses filtros biológicos — compostos por pedras, vegetação e solo permeável — são soluções de baixo custo já testadas em cidades como Curitiba e São Carlos.
Longo prazo: recuperar a bacia, não o espelho
O Igapó é apenas o sintoma visível de uma doença sistêmica.

A cura depende de restaurar a bacia hidrográfica inteira — do filete cristalino sob o viaduto da PR-445, onde nasce o Ribeirão Cambé, até a foz no Ribeirão Três Bocas, antes de encontrar o Tibagi.
O caminho inclui reflorestamento das margens, recomposição de mata ciliar, controle da expansão urbana e gestão integrada entre os municípios.

O que não fazer: atalhos que agravam o problema
O histórico de outras cidades serve de aviso.
Aplicar algicidas pode parecer solução rápida, mas é armadilha: ao matar as algas, as toxinas são liberadas de uma vez na água, piorando a contaminação.
Revolver o fundo do lago com retroescavadeiras libera nutrientes aprisionados nos sedimentos, acelerando a eutrofização.
E medidas simbólicas — como cobrir a superfície com barreiras artificiais — apenas escondem o sintoma, sem tocar a causa.
O caminho sustentável exige paciência e planejamento: não basta limpar o lago, é preciso tratar o sistema.
Um roteiro para o futuro
A saída passa por três compromissos:
- Do poder público, transparência e continuidade — que os planos não terminem com cada gestão.
- Da universidade, pesquisa aplicada e diálogo aberto com a população.
- Da sociedade, cobrança e corresponsabilidade — entender que o lixo jogado no chão termina no lago.
- Da indústria, inovação responsável e compromisso ambiental — que o crescimento econômico não pese no ecossistema.
O Ribeirão Cambé pode voltar a ser o que um dia foi — um fio de água cristalina cruzando Londrina.
Mas isso exigirá um pacto coletivo.
A água é espelho e memória: reflete o que fazemos dela e o que deixamos de fazer.
E se o Lago Igapó hoje grita em verde, talvez ainda seja tempo de escutar antes que o silêncio se torne definitivo.
Colaboraram o repórter Douglas Kuspiosz e a estagiária de jornalismo Jessica Mussatti.


Patrícia Maria Alves
Editor e Gerente de Produtos Digitais


