Paraná vê queda de feminicídios, mas segue entre os 5 mais violentos
Dados do Ministério da Justiça mostram redução de 20% entre 2024 e 2025 no estado, que ocupa o 5º lugar no ranking nacional. O Brasil atingiu taxa recorde
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quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
Dados do Ministério da Justiça mostram redução de 20% entre 2024 e 2025 no estado, que ocupa o 5º lugar no ranking nacional. O Brasil atingiu taxa recorde

O número de feminicídios caiu 20% no Paraná em 2025, passando de 109 para 87 casos de mulheres mortas em razão da condição de gênero. O estado vinha de uma trajetória de crescimento nesse tipo de crime, já que em 2023 haviam sido registradas 81 mortes.
Apesar da redução, o Paraná segue entre os estados com maior número de feminicídios no país, atrás apenas de São Paulo (233), Minas Gerais (139), Rio de Janeiro (104) e Bahia (103). Também lidera as estatísticas na região Sul, à frente do Rio Grande do Sul (80) e de Santa Catarina (52).
Os dados constam no relatório do Sinesp (Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública), atualizado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública nesta quarta-feira (21).
No cenário nacional, contudo, os números seguem em alta e atingiram um recorde histórico. O Brasil contabilizou 1.470 feminicídios em 2025, ante 1.464 em 2024, o que representa uma média de quatro mulheres mortas por dia. A tendência é de que esse total ainda aumente, já que o Sinesp não recebeu os dados referentes ao mês de dezembro dos estados de São Paulo e da Paraíba.
Desde a tipificação do feminicídio, que em 2015 passou a ser uma qualificadora do crime de homicídio, o aumento no número de registros é de quase 175%, saltando de 535 para 1.470 ocorrências. Em 2024, uma nova legislação transformou o feminicídio em crime autônomo, com pena que pode chegar a 40 anos de prisão.
PROBLEMA ESTRUTURAL
Para a presidente do Néias - Observatório de Feminicídios de Londrina, Martha Ramírez-Gálvez, o avanço da legislação na última década demonstra uma preocupação do Legislativo com o tema e reforça que se trata de um problema de política pública. “Não é um problema de marido e mulher, é um problema estrutural”, afirma. Ela avalia ainda que houve maior conscientização social e um “refinamento” das estatísticas, embora a subnotificação e a correta tipificação do crime continuem sendo desafios.
Segundo Ramírez-Gálvez, a maior visibilidade do tema e sua presença no debate público, inclusive por meio da cobertura jornalística, são fundamentais para identificar quando um caso se trata de tentativa de feminicídio. “A gente vai ter que ir costurando essa tomada de consciência com o aprimoramento da lei e das estatísticas”, acrescenta.
Um desafio apontado pela presidente do Néias é a falta de regulamentação das redes sociais, que permitem a disseminação de conteúdos misóginos, de ódio e de desprezo às mulheres. “Não podemos esquecer disso. Aquilo que circulava nos bares e nas conversas tomou uma dimensão muito maior na internet. As pessoas podem dizer essas besteiras sem nenhum controle”, critica. “Enquanto não tivermos uma regulamentação dos conteúdos da internet, vamos continuar enxugando gelo.”
A presidente do Néias ressalta que o feminicídio é um problema complexo, que envolve fatores estruturais e culturais, e que tem sido potencializado pela ausência de regulamentação das mídias digitais.
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“Além disso, há todo um aspecto do Judiciário que precisa ser aprimorado, com uma perspectiva de gênero. Algumas instâncias, como o Supremo Tribunal Federal e o próprio Ministério Público, têm essa consciência, mas isso precisa chegar à formação dos jovens advogados, para que não reproduzam discursos conservadores”, reforça Ramírez-Gálvez. Ela defende que o país avance em políticas públicas capazes de responder à complexidade do problema.
DESAFIO CONTINUA
Em Londrina, os casos de feminicídio seguem sendo uma realidade. O primeiro registro de 2026 ocorreu no dia 11 de janeiro, quando Roseli Machado Clementino, de 32 anos, foi encontrada morta no banheiro de casa, na zona leste da cidade. O companheiro de Roseli, Luciano Borges Vieira, de 42 anos, alegou inicialmente que a mulher teria sofrido uma overdose, mas familiares relataram uma rotina de agressões e ameaças.
O homem foi preso e o caso é investigado pela Polícia Civil como feminicídio.
"Este caso evidencia, mais uma vez, um dos aspectos mais perversos da violência de gênero: mesmo quando os riscos são identificáveis e as ameaças são explícitas, muitas mulheres não conseguem encontrar saídas efetivas. O medo, a dependência econômica, o isolamento, a descrença na proteção institucional e a insuficiência das redes de apoio aprisionam mulheres em um ciclo de violência que se intensifica até o desfecho letal", disse o Néias sobre a morte de Roseli.


Douglas Kuspiosz
Repórter com foco em Política e Cidades.




