Prevenção da violência de gênero precisa começar na infância
A insistência brasileira em somente endurecer penas revela falta de perspectiva sobre como frear a violência contra mulheres
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 08 de janeiro de 2026
A insistência brasileira em somente endurecer penas revela falta de perspectiva sobre como frear a violência contra mulheres
Luciene Oliveira Vizzotto Zanetti 
A cada dia, o Brasil enterra mais uma mulher assassinada por alguém que dizia amá-la. Todos os anos, milhares de meninas atravessam silenciosamente as portas da escola carregando marcas, físicas ou emocionais, da violência sofrida dentro da própria casa. Ainda assim, seguimos investindo quase exclusivamente em respostas penais: aumento de penas, projetos de lei punitivistas e discursos de endurecimento criminal, como se o agressor, antes de puxar o gatilho ou levantar a mão, parasse para calcular quantos anos poderia cumprir na prisão.
Essa lógica é falha, superficial e cruel. Ela ignora aquilo que a pesquisa “Livres para Sonhar? Percepções da comunidade escolar sobre violência contra meninas”, do Instituto Serenas, expõe com urgência: o problema não nasce no crime; nasce na cultura.
A insistência brasileira em acreditar que penas mais duras resolverão a violência contra mulheres revela uma falta de perspectiva estratégica. O feminicida não calcula sua pena; o agressor não faz contas; o abusador não pondera consequências jurídicas, porque a violência já foi normalizada nele desde a infância.
Ela foi aprendida na piada machista que ficou impune, na educação que poupou meninos de responsabilidades domésticas, na fala religiosa que ensinou a submissão feminina como vontade divina, na escola que nunca ensinou igualdade de gênero e na política que se recusa a discutir sexualidade, afeto, consentimento e respeito.
Esses padrões constituem o que chamamos de machismo estrutural. Para desmontá-lo, a educação precisa começar exatamente nesse período, quando crianças aprendem empatia, cooperação, convivência e limites. Mas quando mais precisamos da escola, ela é silenciada. Dados da pesquisa citada mostram que 29% dos professores não se sentem preparados para tratar do tema com seus alunos, e 45% apontam a falta de formação como principal barreira.
O mesmo relatório evidencia que professores enfrentam uma resistência feroz de parte das famílias, muitas das quais acreditam que temas como gênero, consentimento e respeito ao corpo “pertencem apenas ao lar”. Na prática, porém, essas mesmas famílias frequentemente recusam-se a enfrentar essas conversas e, em alguns casos, chegam a culpabilizar meninas vítimas de assédio.
Enquanto isso, dentro de casa, o ciclo continua. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, 68% dos feminicídios no país são cometidos por parceiros ou ex-parceiros dentro do lar. Esses homens não se tornaram violentos de um dia para o outro. Eles foram socializados em uma cultura que lhes ofereceu privilégios emocionais, sociais e simbólicos: o direito à raiva, à posse, ao ciúme, ao comando.
Se a violência é aprendida, a não violência também precisa ser ensinada, e cedo.
Uma escola livre do cerco político e moral poderia ensinar meninos a lidar com emoções, a dividir, a reconhecer limites, a pedir desculpas, a ver meninas como iguais. Poderia ensinar meninas que sua voz é legítima, que seu corpo tem valor, que sua autonomia não é ameaça a ninguém. Poderia ensinar famílias que prevenir violência não é “doutrinar”, mas proteger.
Luciene Oliveira Vizzotto Zanetti , juíza de Direito do TJPR; mestra em Estudos sobre as Mulheres, Gênero, Cidadania e Desenvolvimento pela Universidade Aberta de Portugal; especialista em Direitos Humanos e Questão Social pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Membra da Comissão de Igualdade e Gênero e da Comissão de Solução fundiária, ambas do TJPR; pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisa sobre Gênero, Direitos Humanos e Acesso à Justiça da Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados; Cofundadora do Grupo de Magistradas do TJPR Antígona-O TJPR Somos Todas Nós; membra do coletivo TODAS da Lei e da Coalizão Nacional de Mulheres


