Londrina registra primeiro feminicídio de 2026
Um dia após pedir "resgate" à irmã, Roseli Machado Clementino foi encontrada morta em sua casa; o marido, Luciano Borges Vieira, foi preso
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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026
Um dia após pedir "resgate" à irmã, Roseli Machado Clementino foi encontrada morta em sua casa; o marido, Luciano Borges Vieira, foi preso

Luciano Borges Vieira, 42, foi preso em flagrante e autuado por feminicídio em Londrina na noite de domingo (11), após a PC (Polícia Civil) constatar que a morte da esposa, Roseli Machado Clementino, 32, inicialmente tratada como possível overdose, foi provocada por agressões físicas. A reviravolta no caso ocorreu depois que o IML (Instituto Médico-Legal) identificou lesões internas graves no corpo da vítima, incompatíveis com morte natural ou uso de drogas. O casal tinha três filhos, de 8, 6 e 3 anos, que estão com a tia, uma irmã de Roseli.
Encaminhado à Central de Flagrantes, o homem optou por permanecer em silêncio ao ser interrogado e segue preso após ter passado por audiência de custódia. Na manhã do mesmo dia, havia informado à equipe da PM (Polícia Militar) que atendeu a ocorrência que encontrou a companheira caída no chão do banheiro da casa em que vivem. Vieira contou que estava dormindo e não ouviu nenhum barulho diferente, alegando que a esposa teria o hábito de passar dias fora de casa fazendo uso de entorpecentes.
Jurou Roseli de morte
O corpo de Roseli Clementino foi recolhido e encaminhado ao IML. A Declaração de Óbito constatou que a morte decorreu de hemorragia interna, com lesões encefálicas e abdominais compatíveis com ação contundente. “Embora a versão inicial dele (Luciano) fosse de que ela teria caído no banheiro, os policiais conseguiram provar através de oitivas de testemunhas, de vizinhos e parentes, que a vítima sofria constantes violências físicas por parte desse indivíduo, que já a jurou de morte. Foi robustamente comprovado no auto de prisão em flagrante que esse indivíduo praticava, sim, agressões contra a sua esposa”, explicou o delegado Magno Miranda.
Além disso, uma testemunha “que foi no local do crime, provavelmente, na hora da morte” depôs na delegacia que o suspeito confessou ter agredido Clementino no dia do feminicídio. Miranda informou que “nenhum instrumento” foi utilizado pelo suspeito durante o crime.
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Antecedentes criminais
O procedimento foi encaminhado à Delegacia da Mulher, que deve finalizar o inquérito policial em dez dias, em posse dos laudos de local de crime e necropsia, para confirmar as lesões sofridas. Ao ser interrogado no domingo, Vieira informou que foi preso anteriormente por tráfico de drogas, garantindo que foi absolvido, e já respondeu um processo no âmbito da Lei Maria da Penha.
A reportagem tentou contato com a Defensoria Pública de Londrina à procura do advogado designado ao caso, mas não obteve retorno.
Vítima pediu ajuda à irmã
Uma irmã da vítima prestou depoimento na Central de Flagrantes ainda no domingo à noite. Ela recordou que o último contato que teve com Roseli foi no sábado (10), dia anterior à sua morte. A vítima havia enviado áudios falando que estava “morrendo de saudades” da irmã, pedindo que ela viesse para Londrina tirá-la de casa, dizendo que “estava sofrendo demais e apanhava bastante dele (Luciano)”.
Em relação às agressões, disse que “os filhos viam tudo”, e salientou duas ocasiões diferentes: quando Roseli enviou um áudio dizendo que estava com a costela quebrada e não aguentava mais a dor, e quando repassou fotos de machucados pelo seu corpo que teriam sido infligidos por Vieira com um martelo.
Em mensagens trocadas pelas irmãs no começo de dezembro, Roseli suplicava: “Por favor, me tira daqui”, “hoje tenho que ir embora de qualquer jeito, não quero ficar mais aqui”, “só me ajuda” e “quero ficar do seu lado pra sempre, nunca mais vou sair de perto de você, porque longe de você só estou sofrendo, te amo muito”. Ao delegado, a irmã da vítima esclareceu que não compartilhou o relato com ninguém a pedido de Roseli.
‘Indesejado, mas não inesperado’
Mãe de três crianças, duas meninas e um menino, a morte de Roseli Machado Clementino marcou o primeiro feminicídio registrado na cidade em 2026. Este é um “modo muito triste de inaugurar a contagem do ano, mas ainda que seja indesejado, não é inesperado”, analisou Silvana Mariano, porta-voz do Néias - Observatório de Feminicídios Londrina e professora do Departamento de Ciências Sociais da UEL (Universidade Estadual de Londrina).
Ela indicou que os meses de dezembro e janeiro, período comum de férias e de afastamento do trabalho, trazem consigo o aumento do convívio familiar e atividades de lazer. “Isso aumenta a ocorrência de violências contra a mulher e, infelizmente, se desdobra também no aumento de feminicídio. Nestes meses têm acontecido esse crescimento e agora temos um exemplo disso, já nos primeiros dias do ano, o primeiro feminicídio consumado em Londrina”.
Mariano recordou o padrão em dezembro de 2024, mês que registrou, sozinho, três feminicídios. No ano todo, foram cinco consumados e três tentados, e em 2023, sete consumados e cinco tentados. Os dados foram coletados pelo Lesfem - Laboratório de Estudos de Feminicídios, da UEL.
Já no ano passado, o único feminicídio consumado em Londrina ocorreu em setembro, na mesma semana de mais dois casos na região, em Rolândia e Jataizinho. No total, foram mais quatro tentativas no município.
Maior eficiência no atendimento
A professora define o crime como o “desfecho extremo de um contínuo processo de violência”. Como a queda de ocorrências foi observada somente em um ano - 2025 -, até o momento, Mariano informou que a janela de tempo não é grande o suficiente para analisar a mudança. Porém, pode-se deduzir que uma cadeia de ações resultou na diminuição.
“Quando acontece uma situação alarmante, os serviços (das forças de segurança) ficam mais em alerta e passam a ser mais efetivos na sua atuação, conseguem prevenir mais, evitar as circunstâncias em que a violência continua na escalada até chegar ao feminicídio. Uma hipótese é essa, de que diante do crescimento que tivemos em 2023 e 2024, os serviços foram mais efetivos no atendimento ao longo de 2025”, considerou Mariano.


Heloísa Gonçalves
Repórter com atuação em Educação, Saúde e Cidades.



