A Região Metropolitana de Londrina foi palco de três feminicídios em menos de uma semana. Tanto em Rolândia, quanto em Jataizinho e Londrina, os homens fizeram uso de violência extrema em suas ações, com facas e um canivete como as armas de escolha. Todos foram presos em flagrante.

O mais recente ocorreu em Rolândia na noite de quinta-feira (25). Um homem de 26 anos foi preso pelo assassinato da madrasta de 30 anos, após uma discussão sobre o uso da máquina de lavar roupas da residência. Conforme um policial do 15º BPM (Batalhão da Polícia Militar), que atendeu a ocorrência, a vítima levou mais de 20 golpes de canivete.

A equipe encontrou a mulher, que foi socorrida pelo Siate e encaminhada em estado grave ao Hospital São Rafael, mas não resistiu aos ferimentos.

“Durante a intervenção policial, foram apreendidos dois instrumentos utilizados no crime: uma faca, que teria sido empunhada pela vítima, e um canivete, utilizado pelo suspeito”, informou o delegado Bruno Silva Rocha. Ainda na casa, o investigado assumiu a autoria do ataque, com a perícia constatando uma expressiva quantidade de sangue e recolhendo os objetos para análise.

O que ele diz

Em interrogatório na Delegacia da Polícia Civil, o enteado declarou que teria agido em legítima defesa. Ele disse à polícia que estava na lavanderia da residência e ligou a máquina de lavar, quando a madrasta teria chegado e dito “não falei que não era pra ligar essa máquina?” e batido com a mão no eletrodoméstico. A discussão teria escalado com a suposta ação da mulher de tirar uma faca do bolso e ameaçá-lo.

Ela teria “ido para cima dele”, nas palavras do homem, e cortado o seu braço. O investigado disse que já estava em posse de um canivete, que teria usado para se defender. Ele informou que não lembrava as partes do corpo da vítima em que empunhou o canivete, nem quantas lesões infligiu. “Não fiquei olhando pro rosto dela, estava olhando para onde ela ia vir pra cima de mim com a faca. Não foi na intenção de matar ela não, foi na intenção de me defender, preservar a minha vida”, alegou na Delegacia de Polícia.

Quando a mulher caiu, ele teria corrido para fora da casa. Segundo o enteado, uma vizinha que ouviu o barulho perguntou o que estava acontecendo. Ele teria solicitado que ela ligasse para a polícia, contando que também discou o 190 uma ou duas vezes.

O jovem recebeu atendimento médico. Durante o interrogatório, estava com um dos braços enfaixados pelo suposto corte profundo. No outro braço, é possível observar cortes superficiais.

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Prisão preventiva em Rolândia

Diante da quantidade de lesões sofridas pela vítima, a delegada que o interrogou não entendeu o ato como legítima defesa e o autuou em flagrante pelo crime de feminicídio.

A PCPR instaurou o inquérito para apurar o caso e requereu a conversão da prisão em flagrante em preventiva, por conta da gravidade dos fatos. Informou ainda que “as investigações permanecem em andamento a fim de esclarecer as circunstâncias do crime, as motivações envolvidas e apurar a veracidade das alegações prestadas pelo indivíduo”. O homem segue preso na Cadeia Pública de Rolândia.

Golpes de faca em mãe e filha em Jataizinho

O feminicídio em Jataizinho ocorreu em um sítio, na terça (23), com mãe e filha como alvos. Um homem de 30 anos confessou à polícia o assassinato de sua companheira de 40 e de ter ferido sua enteada, 16, com um golpe de faca na região da cabeça. A menina sobreviveu, foi socorrida e encaminhada ao Hospital Cristo Rei, em Ibiporã, mas a mãe veio a óbito no local do crime.

Preso em flagrante, confessou a autoria do crime em interrogatório na delegacia da Polícia Civil, segundo a corporação. Alegou que a discussão teria começado por conta de um aparelho celular, mas não explicou de forma clara o motivo da violência. O caso está sob responsabilidade da Delegacia de Polícia Civil de Ibiporã.

Tentou gravar a enteada no banho

Como informado no depoimento da adolescente, a mãe convivia há mais de 10 anos com o padrasto. A jovem informou que chegou em casa na noite do assassinato e foi tomar banho, porém, não encontrou suas vestes no cesto de roupas. Ao procurar, achou um celular com “fitas pretas fixadas nele”, e percebeu que um vídeo estava sendo gravado há sete minutos, com a câmera voltada ao box.

Depois que tomou banho, mostrou o aparelho para sua mãe, que discutiu com o companheiro. O autuado alegou que não tinha sido ele quem colocou o celular daquela maneira, mas a própria gravação mostrava que isso era mentira. A mãe teria ligado para o pai da adolescente e relatado o ocorrido. A agressão física começou quando ela tentou retomar a posse do aparelho do atual companheiro.

A mulher foi atingida por diversos golpes de faca, principalmente na região do pescoço. A lesão da enteada também foi proveniente de arma branca.

‘Não teve legítima defesa’

O delegado Magno Miranda disse que o homem alegou legítima defesa durante o interrogatório. Na sua versão, a companheira teria se armado com uma faca e um pedaço de madeira e iniciado a agressão. Como “não tinha como se defender”, tomou a faca dela e cometeu a “barbaridade”, em suas palavras.

“Foi mera alegação dele. O que consta é que teve a discussão e a adolescente falou que ele quem pegou a faca e agrediu a mulher primeiro, e depois ela se defendeu. Então não teve legítima defesa”, pontuou Miranda.

O fato foi confirmado pela testemunha, vizinho da família que trabalhava com o homem. “Ele falou que presenciou ele (padrasto) agredindo a adolescente, que ela foi pedir socorro, depois voltou lá para tentar proteger a mãe e ele agrediu a menina novamente. O vizinho falou que era bem amigo dele, que não desconfiava desse tipo de comportamento, que pudesse fazer algo do tipo, mas ele não tinha nada contra o indivíduo até presenciar a situação de violência”, disse o delegado.

Motivação do crime provada

Peritos estiveram no local e recolheram as duas facas utilizadas no crime. O homem se mostrou arrependido, segundo o delegado, e foi levado à Cadeia Pública de Ibiporã.

O inquérito policial já foi finalizado e relatado ao MPPR (Ministério Público do Paraná), que tem um prazo para oferecer ou não denúncia, ou ainda solicitar que o documento retorne para mais diligências.

Miranda informou que todos os laudos confirmaram a materialidade dos crimes, “tanto de lesão corporal na adolescente e no contexto de violência doméstica contra a vítima de feminicídio”. Disse ainda que paira a questão do assédio sexual contra a enteada, “que pode ser que eles denunciem também, há indícios, conforme o celular”.

Apreendido e vasculhado, nenhum registro incriminatório foi encontrado. “Vai ficar a critério do MP, se quiserem pedir uma quebra desse celular. Está bem provado já a motivação do crime”, considerou o delegado.

Buscou ajuda na rua

Já em Londrina, o crime hediondo foi cometido na noite do último sábado (20), em uma conveniência no Conjunto Farid Libos (zona norte). Uma jovem morreu após sofrer ferimentos de faca na região do pescoço, infligidos por seu ex-companheiro. Toda a ação foi captada por câmeras de segurança.

De acordo com boletim da PM (Polícia Militar), a vítima teria buscado ajuda de uma equipe policial que realizava patrulhamento próximo a um estabelecimento de lanches. Ela apresentava intenso sangramento no pescoço e caiu na calçada assim que se aproximou.

A PM comunicou que um brigadista do Hospital do Câncer que estava no local chegou a prestar atendimento à mulher, iniciando os primeiros socorros. Entretanto, ela não resistiu e morreu.

À polícia, populares informaram que o autor do crime havia fugido em direção ao Conjunto Hab. José Belinati. Minutos depois, a equipe localizou um homem com características compatíveis às repassadas. Ele foi abordado e reconhecido como o responsável pela agressão.

Ao retornar ao local do crime junto com a PM, o suspeito teria apresentado aos policiais a faca utilizada no crime. O homem foi preso e encaminhado à Delegacia de Polícia Civil de Londrina.

O caso e a motivação do feminicídio estão sendo investigados pela Delegacia da Mulher. A reportagem entrou em contato para atestar o andamento da investigação, porém, não obteve retorno até a publicação do material.

(Com PCPR e PMPR)

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