|
  • Bitcoin 194.990
  • Dólar 5,4587
  • Euro 6,1923
Londrina

Folha Rural 5m de leitura Atualizado em 03/12/2021, 16:12

DEDO DE PROSA | O tempo e a memória

PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 03 de dezembro de 2021

Dailton Martins é leitor da FOLHA.
AUTOR autor do artigo

menu flutuante

Relembrar fatos e pessoas, em geral, é uma atividade mental de grande importância na vida. Digo isso porque sem memória nossa vida seria vazia, sem nexo entre as situações vividas e as pessoas com quem nos relacionados ao longo dos anos.

Minhas lembranças são mais urbanas embora meus pais tenham vindo do campo e eu tenha tido uma infância em que meus parentes tivessem sítio e fôssemos lá em muitos domingos. O trajeto era Londrina- Cambé. Voltava com os pés sujos de terra vermelha, a chamada terra rossa que é vermelho em italiano ,uma das tantas etnias que foram pioneiras no norte do Paraná.

Lembro do Bratislava ,patrimônio de Cambé, onde habita em minhas memórias a velha igrejinha de tábuas, o campo de futebol ,careca de grama debaixo das traves e me parece que tinha também um barracão de tábuas com uma máquina de beneficiar arroz. Na entrada do patrimônio, vindo de Cambé pelo Caramuru havia do lado esquerdo uma venda com um construção de madeira onde os mais antigos jogavam bocha que até hoje não sei como se joga mas faz seus adeptos verdadeiros entusiastas.

Na região, reza a lenda que havia passado por ali antigamente tribos indígenas. Na verdade, houve uma redução jesuítica em Cambé, no inicio dos anos 1600 quando a região pertencia aos espanhóis por causa do Tratado de Tordesilhas mas a colonização veio com os ingleses vendendo terras em pequenos lotes depois de desistirem de plantar algodão.

Sorte dos pequenos agricultores que puderam comprar lotes a prestações acessíveis e trouxeram uma força de trabalho que impulsionou toda a região do Norte do Paraná. Dentro de um contexto em que a região era voltada à agricultura estávamos envoltos à uma aura de plantações de café e entressafras de milho e outras pequenas culturas.

Tínhamos uma vida fundada nos alicerces da agricultura mas um grande baque foi a geada de 1975,a chamada “geada negra”, que exterminou o cafezal da região Norte e Noroeste do Paraná. Por outro lado foi depois dessa crise que a região começou a se desenvolver em outras áreas e a diversificação de culturas agrícolas nos levou a procurar novos caminhos para o desenvolvimento econômico.

Sociologicamente falando, a mudança no aspecto social foi drástico pois a população urbana aumentou com o êxodo rural e a mecanização do campo. Muitos sofreram com o drama do desemprego pois o ainda frágil mercado de trabalho nas cidades não conseguiu absorver toda a mão de obra oferecida. A década de setenta já não era mais parecida com a de sessenta.

Em todos esses anos que se seguiram as mudanças foram muito rápidas. Ao relembrar tantos fatos marcantes e tantas pessoas que se fizeram presentes nesse cenário relembro com um misto de espanto e entusiasmo o quanto podemos sobreviver às intempéries da História.

Portanto, o que nos leva a seguir adiante em nosso caminho não são só os fatores externos, mas a nossa capacidade de resiliência, essa palavra tão em voga que quer dizer que por mais que as adversidades da vida nos transformem, continuaremos sempre a ter a mesma essência. Por mais que o ferreiro bata no ferro e o deforme, mais forte o aço será para a ferramenta e jamais deixará de ser metal. Falando assim parece a metafísica de Aristóteles.

Sendo assim, ao olhar para as fotos antigas do Paraná pareço relembrar tantos fatos muitos dos quantos não vivi mas que a internet coloca à disposição e a minha vida tanto quanto as que viveram naquela época me fazem crer que são a mesma coisa dado que somos a mesma terra, o mesmo amor aos vínculos humanos e portanto a mesma essência. E acho que é isso que nos faz transcender aos desafios que se impõem na nossa modernidade líquida e incerta.

LEIA TAMBÉM:

Dedo de Prosa | Nosso bem maior: A água

instagram

ÚLTIMOS POSTS NO INSTAGRAM