Dedo de Prosa | Estilos


Estela Maria Frederico Ferreira
Estela Maria Frederico Ferreira

Sempre gostei de observar o jeito de ser das pessoas, percebendo, a cada dia, o quanto são diferentes, como cada uma é especial com seu estilo próprio. Algumas marcam pelo jeito de rir, de falar, de andar, de se vestir, de se apresentar, enfim, de ser, de maneira singular. Pela vida afora vou recordando esses seres estilosos, marcantes, inesquecíveis. Enveredando pelas lembranças, claro que volto para meus primeiros anos, na cidade natal, naquelas ruas esburacadas, no vaivém das pessoas que lhe davam vida, pulsando nos seus estilos próprios e interessantes. Revisito minha antiga casa, sempre movimentada e alegre pela presença de tanta gente querida...e estilosa! De terno escuro e camisa branca, fizesse frio ou calor, sempre correndo pelas ruas, lá ia o Senhor Zé de Belo, de terno e gravata, a entregar a correspondência na sua função de carteiro. Corada e sempre com calor, chegava a dona Paula, de sombrinha, trazendo num braço a cesta de ovos; sempre passava em minha casa e, volta e meia, levava costuras para minha mãe. Havia também o Léo Cruz, pedreiro, que estava sempre com um guarda-chuva embaixo do braço, chovendo ou fazendo sol, era quase uma obrigação.


 

Dedo de Prosa | Estilos
Marco Jacobsen
 




Assim como a dona Paula, todas as mulheres usavam sombrinha e, se não me falha a memória, pó de arroz Cashmere bouquet. Sempre achei um charme as mulheres de sombrinha e ficava admirando as estampas, rindo quando o vento as virava pelo avesso e vendo minha mãe “consertar” quando escapava a varinha, exigindo um ajuste perfeito para voltar a ser nova.


Meu avô Mário também era estiloso: calças pretas, camisa branca, chapéu (usou a vida inteira), o relógio de bolso com aquela correntinha e o lenço branco. A vó Luiza ia um pouco mais atrás, com seu vestidinho talhado, estampadinho, lenço na cabeça, uma toalhinha na mão, avental, e, é claro, uma sombrinha. Essa é uma das tantas recordações que guardo. A maioria dos homens usava calça social e camisa, as camisetas eram usadas embaixo das camisas.


A moda não mudava muito, como acontece atualmente, mas se aprimorava, as mulheres seguiam elegantes em seus vestidos tradicionais, bem cinturados e os homens com seus ternos de linho, Casimira e seus chapéus.


A moda foi evoluindo, lembro quando as mulheres começaram a usar calças compridas, no início tipo “ cigarretes”, mais curtas, depois as pantalonas e por fim as calças jeans. Muitas resistiam por muito tempo antes de adotar a nova


moda. Depois vieram os vestidos “tubinho “, uma verdadeira guinada na vida das mulheres e, com ele, a minissaia! Essa foi o máximo! Pernas para que te quero! Para mostrar, claro!


Entra moda, sai moda, os estilosos de plantão marcavam presença! Na cidade pequena as moças queriam sempre ser as primeiras a estrearem a moda nova! E fazer sucesso! Vestidos ou saias longas apareciam nos bailes. E todas “ reparavam...” Algumas exageravam na minissaia, já partiam para as micro..., mas nem sempre as pernas ajudavam. E vinham os falatórios. Havia também aqueles e aquelas que ignoravam os ditames da moda e continuavam a usar as mesmas roupas, os mesmos modelos, o mesmo penteado, por anos a fio. Usou tranças no cabelo a vida inteira...A camisa era sempre xadrez. A gente até já conhecia a pessoa pela roupa. E se aquela roupa estragasse fazia outra igualzinha. As mudanças se faziam muito devagar, tanto na moda quanto no modo de vida.


Até as casas tinham estilo próprio! Lembro das casas da família em Taiaçu. A mesa, a toalha de plástico, as xicrinhas...você ia e voltava e elas pareciam intactas. As cristaleiras.... Mais tarde, os sofás que também eram eternos; os rádios à pilha ou à bateria. Os quadros de Santos nas paredes: São Sebastião, Santa Luzia, São José, São João, Santa Izildinha, Padre Donizeti... esses tenho até hoje na lembrança. A casa da Tia Maria era diferente, tinha uma cristaleira com xícaras douradas que me deixavam deslumbrada, um jardim, uma casa de artista, que, de fato, era mesmo. O primo Wilson, artista plástico que já trouxera tantas modernidades para a casa e a tornara “única” e estilosa.


Ainda hoje percebo pessoas estilosas. Marcam pelo jeito de levar a vida do seu jeito, por insistirem em serem elas mesmas, contradizendo o que é padrão por aí. Pintam e bordam, costuram roupas e poemas, enfeitam a casa e a vida, dão colorido às existências, se destacam, inventam coisas tão boas que fazem a gente voltar lá para aquele passado bonito que estilizou a nossa vida tornando-a tão linda e tão cheia de recordações maravilhosas.... Tudo em grande estilo, é claro!


Estela Maria Frederico Ferreira é leitora da FOLHA


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