Escola Municipal Salim Aboriham conquista prêmio nacional
Projeto Rotas Multisensoriais para o Ensino da Multiplicação, da professora Gesiane Medeiros de Andrade, ficou em segundo lugar
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 27 de outubro de 2026
Projeto Rotas Multisensoriais para o Ensino da Multiplicação, da professora Gesiane Medeiros de Andrade, ficou em segundo lugar

O projeto Rotas Multisensoriais para o Ensino da Multiplicação, de autoria da professora de matemática da Escola Municipal Salim Aboriham, Gesiane Medeiros de Andrade, foi premiado recentemente no Prêmio Boas Práticas na Escola - Educação Inclusiva.
O projeto conquistou o 2º lugar e participou na categoria Educação Infantil e Anos Iniciais. Integraram o projeto 25 estudantes, com foco direto no acompanhamento de cinco estudantes públicos-alvo da Educação Especial com Transtorno do Espectro Autista - TEA e Deficiência Intelectual - DI, professores da instituição, equipe gestora, comunidade familiar e a professora regente. A unidade tem como diretora Regiane Cristina de Souza Garcia e a coordenadora pedagógica é Leandra dos Santos Rosa Araújo.
Com o objetivo de desenvolver uma prática pedagógica inclusiva para o ensino da multiplicação, utilizando diferentes recursos visuais, táteis, concretos e pictóricos como possibilidades de acesso ao conhecimento matemático, especialmente para estudantes com TEA, DI e em processo de alfabetização.
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SUPERAÇÃO DE BARREIRAS
De acordo com a docente, antes da intervenção, os estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Deficiência Intelectual (DI) e em processo de alfabetização já apresentavam barreiras de acesso aos enunciados e às representações matemáticas, especialmente diante de propostas predominantemente baseadas na linguagem escrita.
"Essas barreiras se manifestavam, entre outras situações, na dificuldade para relacionar quantidade e representação numérica, organizar agrupamentos iguais e registrar matematicamente situações que já conseguiam resolver parcialmente por meio da contagem", explica.
Andrade esclarece que a proposta busca reduzir a interferência das barreiras de alfabetização sobre a aprendizagem do raciocínio lógico-matemático, favorecendo a compreensão dos agrupamentos, das relações multiplicativas e de seus registros simbólicos. "Pretende-se, ainda, ampliar as possibilidades de participação, autonomia e aprendizagem de todos os estudantes, preservando a complexidade conceitual da multiplicação e oferecendo diferentes caminhos para sua compreensão e representação".

DESENVOLVIMENTO DA PRÁTICA
A prática foi organizada a partir da compreensão de que a multiplicação não poderia ser apresentada aos estudantes apenas por meio da linguagem escrita e do registro convencional. "Para alguns deles, especialmente aqueles que ainda estavam em processo de alfabetização ou que apresentavam dificuldades de acesso às representações matemáticas, a introdução da multiplicação ampliou as barreiras já observadas em outros conteúdos. Compreender uma situação-problema, identificar quantidades, perceber agrupamentos e transformá-los em uma operação exigia articular diferentes formas de representação", expõe.
A regente explica ainda que o termo “Rotas Multisensoriais” denomina o percurso metodológico multimodal construído para ampliar as possibilidades de acesso à multiplicação. "Articulando experiência corporal, exploração tátil, percepção visual, representação pictórica, linguagem matemática e registro simbólico", ratifica. "Mais do que acrescentar recursos às aulas, a prática buscou transformar a maneira de apresentar e mediar o conhecimento, criando condições para que os estudantes avançassem gradualmente da ação concreta à representação simbólica e a formas mais autônomas de participação", acresenta.
As adaptações realizadas, segundo a autora, não consistiram na substituição da multiplicação por tarefas de menor complexidade, mas na diversificação das formas de acesso ao mesmo conhecimento matemático. "A adaptabilidade, portanto, não consistiu apenas em oferecer atividades diferenciadas, mas em realizar ajustes intencionais a partir das barreiras identificadas durante o processo", sustenta. Dentre as conclusões, a docente compreende que o percurso metodológico demonstra que, quando o estudante dispõe de rotas alternativas e suportes visuais adequados, ele deixa de depender exclusivamente de contagens manuais um a um e passa a estruturar o pensamento matemático de maneira organizada, autônoma e significativa.
Andrade também considera que mais do que uma intervenção pontual, a experiência vem se consolidando como um movimento de criação, participação e multiplicação e que ultrapassa os limites da sala de aula e começa a integrar a cultura escolar. "O 'Laboratório Inventor Tátil' já se constituiu como um espaço de experimentação e produção coletiva, envolvendo estudantes, professores e familiares na concepção, confecção e utilização de Tecnologias Assistivas de Baixo Custo (TABC)", pontua.
A professora reconhece que ensinar matemática é desafiador. "Muito, e sei bem disso por experiência própria. Quando eu era criança, sentia muita dificuldade na matemática justamente porque tudo era abstrato demais e não existia esse olhar para o lúdico nem o uso de materiais manipulativos na minha época". Recorda ainda que o desafio era duplo: "Havia crianças com autismo, deficiência intelectual e alunos que ainda não sabiam ler nem escrever. Ensinar a multiplicar nesse cenário parecia quase impossível, e eu não queria que eles passassem pelo mesmo sofrimento que tive na infância", compartilha.

Neste sentido, Andrade compreende também que o projeto tem o papel de transpor barreiras. "Nós tiramos a matemática do papel e levamos para as mãos das crianças. Usamos coisas simples do dia a dia, como tampinhas, blocos de montar, macarrão, botões e até brincadeira de amarelinha no chão. Com isso, o aluno não precisava saber ler para entender a lógica da conta. Ele pegava, contava, desenhava e só depois passava para o caderno. A trava simplesmente sumiu", alegra-se.
Receber o reconhecimento em âmbito nacional é significativo para a professora em sua trajetória, para os alunos e para a comunidade escolar. "É a prova de que a inclusão funciona na prática. Para a minha carreira, traz a certeza de estar no caminho certo. Para os alunos, representa autoconfiança: eles superaram as dificuldades, viraram donos do próprio aprendizado e criaram os próprios materiais. E para as famílias, mudou tudo, pois elas passaram a participar ativamente das atividades e a entender como ajudar os filhos em casa", celebra.
O Prêmio Boas Práticas na Escola, da Editora Moderna, foi criado para reconhecer e dar visibilidade a práticas pedagógicas desenvolvidas por professores da rede pública de ensino de todo o país. A missão é valorizar propostas pedagógicas que ampliam oportunidades, formam o futuro, inspiram novas histórias e despertam grandes ideias.


Walkiria Vieira
Jornalista





