Educação digital nas escolas: é preciso conscientizar as crianças
Escolas municipais de Londrina têm trabalho pedagógico sobre o uso consciente e ético das tecnologias, prevenindo alunos contra ameaças digitais
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 17 de março de 2026
Escolas municipais de Londrina têm trabalho pedagógico sobre o uso consciente e ético das tecnologias, prevenindo alunos contra ameaças digitais

A incitação e a violência promovidos e praticados por grupos criados virtualmente têm envolvido a participação de crianças e adolescentes em crimes reais. A presença das tecnologias digitais no cotidiano dos estudantes é uma realidade cada vez mais presente, inclusive no contexto escolar. Na Rede Municipal de Educação de Londrina, o uso de computadores, tablets e plataformas digitais tem finalidade pedagógica e está relacionado ao desenvolvimento de competências necessárias para a formação integral dos estudantes.
Nesse contexto, a rede está implementando o Referencial Curricular de Educação Digital e Computação, documento que orienta o trabalho pedagógico nas escolas municipais. Entre os seus eixos estruturantes está a Cultura Digital, que aborda aspectos relacionados ao uso consciente, ético e responsável das tecnologias.
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De acordo a profissional integrante do com Apoio Pedagógico de TDIC em Educação, Mirella Cito Botti, esse eixo contempla temas como cidadania digital, segurança na internet, respeito às interações online, proteção de dados e reflexão crítica sobre o uso das redes sociais e dos aplicativos.
Botti, explica que em 2025, a Secretaria Municipal de Educação de Londrina iniciou tratativas para a formalização de uma parceria com o Cyberlab – Laboratório de Pesquisas em Crimes Cibernéticos da Universidade Estadual de Londrina (UEL). "A iniciativa tem como objetivo promover palestras educativas sobre prevenção a crimes cibernéticos e educação digital, levando informações importantes aos estudantes da rede pública de algumas escolas sobre os riscos existentes no ambiente digital e sobre práticas seguras e responsáveis no uso da internet", pontua. A proposta busca contribuir para que os estudantes compreendam melhor os desafios do mundo digital e desenvolvam atitudes mais conscientes diante das tecnologias digitais.
Como exemplo de iniciativa pedagógica desenvolvida na rede, a Escola Municipal Joaquim Pereira Mendes realizou, no ano passado, um trabalho específico com estudantes do 5º ano voltado à conscientização sobre cyberbullying e uso responsável da internet.
Nesse cenário, o eixo Cultura Digital assume um papel fundamental no processo educativo, pois busca formar estudantes capazes de compreender, utilizar e produzir tecnologias de forma crítica, ética e responsável. "Trabalhar esse eixo na escola significa promover reflexões sobre comportamento no ambiente digital, segurança na internet, respeito nas interações online e uso equilibrado das tecnologias, contribuindo para a formação de cidadãos preparados para participar de maneira consciente da sociedade digital", ratifica Botti.

ESCOLAS EM AÇÃO
Em 2025, Escola Municipal Joaquim Pereira Mendes, a diretora da unidade, Valdirene Maria de Oliveira Guiraldelli começou a perceber que alguns conflitos entre alunos não nasciam apenas dentro da sala de aula, mas estavam relacionados a situações que aconteciam no ambiente digital, especialmente em jogos online e aplicativos de mensagens.
Episódios envolvendo bullying e cyberbullying, por exemplo, surgiam em plataformas de jogos online e depois repercutiam em aplicativos de mensagem e no convívio escolar. "Muitas vezes as famílias nem imaginavam o que as crianças estavam vivenciando nesses espaços virtuais, e isso nos mostrou que a escola precisava olhar com mais atenção para essa nova dimensão da vida social das crianças", lembra.
Logo, a coordenação pedagógica, representada pela Silvana Biazão, junto às professoras dos 5º anos, organizou uma série de ações educativas para trabalhar temas como bullying, cyberbullying, ética nas redes e uso responsável da internet. "Realizamos encontros com as famílias, utilizamos materiais educativos de órgãos como o Ministério Público e desenvolvemos atividades em sala de aula baseadas em círculos de diálogo e princípios da justiça restaurativa. Os alunos também produziram cartazes e participaram de uma exposição de conscientização para toda a escola, além de recebermos a visita da juíza Dra. Fabiana Matie, que conversou com as crianças sobre segurança, direitos e responsabilidades no ambiente digital.”
A partir dessas experiências, os educadores criaram o projeto ‘Tecnologia para Todos: Inovar é Incluir’, desenvolvido pelas professoras Isis Kfouri Silva, Juliana Bueno Grizos de Carvalho, Gabriella Tenorio Hora e Camila do Prado, em parceria com o PPGENS/UNOPAR, a FACTI e a Secretaria Municipal de Educação. A proposta busca formar estudantes capazes de usar a tecnologia de maneira ética, crítica e responsável, algo cada vez mais necessário em uma sociedade em que as experiências digitais fazem parte da infância desde muito cedo.”
O PAPEL DOS PAIS
Uma vez que na escola é proibido o uso de celulares, e as plataformas digitais são utilizadas unicamente em práticas pedagógicas, a psiquiatra e psicanalista Dra Zuleica Barreto Campos, considera que os responsáveis possuem um papel primordial no controle do uso de telas em casa, em se tratando de crianças nessa faixa etária, no controle do uso das telas - tanto em quantidade quanto em conteúdo.
"Crianças nessa faixa etária não têm a condições de poder desenvolver este controle por conta própria. Podemos pensar que essa dificuldade não se dá só com as telas, mas em todas as atividades da criança. Por exemplo, é muito provável que se você deixar a criança decidir o que ela vai comer, ela escolha doces, ou vou ficar assistindo televisão até tarde., sem se preocupar com o horário que vai acordar no dia seguinte. Cabe um adulto colocar limites e instaurar uma rotina saudável", avalia.

A respeito de casos recentes de incitação e violência promovidos e praticados por grupos criados virtualmente, Campos considera que toda a sociedade deve estar atenta e banir este tipo de formação. "Temos uma obrigação cívica de estar atentos e promover ações contra este fenômeno", pensa.
Para a psiquiatra, o esforço precisa ser coletivo. Da sociedade, das escolas e das famílias. "Todos somos vulneráveis, mas as crianças por razões óbvias, são muito mais. Por isso, é fundamental os pais estarem atentos para não cair na ilusão de que se seu filho está dentro de casa, ele está protegido", analisa.
A psiquiatra esclarece ainda que é fundamental que os pais exerçam o papel que possuem e suas responsabilidades. Os pais com dificuldade em lidar com isso podem recorrer a profissionais para tratar deste assunto. Muitas vezes pode ser o próprio pediatra ou hebiatra. Ou situações mais complexas, um psicólogo ou até mesmo um psiquiatra", afirma. A profissional destaca que estimular as crianças a participar de círculos saudáveis, como esportes coletivos, por exemplo, é fundamental. " Não somente pelo benefício das atividades em si, mas também pelo exercício da convivência, que por si só já é um trabalho de aceitar limites", expõe.
* A matéria continua na próxima edição edição da Folha Cidadania trazendo as experiências orientações da Rede Municipal de Cambé sobre a educação digital.


Walkiria Vieira
Repórter de Cultura, Educação e temas sociais.





