Segredos místicos e raciais de Minas em Gramado
Dirigido por Grace Passô e baseado na sua peça "Amores Surdos", o filme "Nosso Segredo" leva atmosfera sobrenatural ao Festival de Gramado
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 21 de agosto de 2026
Dirigido por Grace Passô e baseado na sua peça "Amores Surdos", o filme "Nosso Segredo" leva atmosfera sobrenatural ao Festival de Gramado
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA 

GRAMADO (RS) -A mineiridade no cinema sempre se pautou por uma espécie de jornada exterior, com certo sentido urgente de ir para a rua ou cair na estrada. Devem ser citados trabalhos importantes de Carlos Alberto Prates Correia, passando por "O Grande Mentecapto" de Oswaldo Caldeira (romance de Fernando Sabino), os filmes mais recentes de Cao Guimarães, Helvécio Marins e Marília Rocha. E bem mais recentemente, o entendimento da casa como centro da narrativa ofereceu agora neste 54º Festival de Gramado o longa "Nosso Segredo" como maior exemplo. Exibido na noite de quinta (20), o longa é forte candidato ao Kikito de melhor filme de ficção.
Escrito e dirigido pela mineira Grace Passô (baseado em sua peça “Amores Surdos”, prêmio Shell de melhor texto), o roteiro se desenvolve praticamente do portão para dentro de velha habitação de uma família, num subúrbio de Belo Horizonte. Depois que um médium (ou pai de santo) observa para o taxista Gilson que ele teria deixado algo importante na rua, após o início de uma conversa sobre saudade, o carro do motorista de aplicativo entra na garagem da residência. E o espectador vai junto compartilhar uma estranha jornada.
Esta casa da periferia de BH vai aos poucos ganhando vida, entre silêncios, troca de olhares e de poucos diálogos entre os membros de uma família negra que ali habita. Há sinais visíveis de estranhamentos, a começar por manchas no teto e um líquido marrom que escorre pela parede. O que se entende ali é que cada pessoa daquele grupo ainda convive e experimenta um período de luto, após a morte do patriarca.
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ESTRANHAMENTO
A casa absorve esse sentimento coletivo, sentindo-se abandonada. Barulhos diversos fazem parte desse dia a dia, em lúgubre, crescente e incompreensível sonoridade. O estranhamento se espalha, sem ninguém entender o que está acontecendo. Há um mistério no ar.
Embora aparentemente seja um cenário de horror (meio à mineira), há bem mais que isso, e a casa ganha outro significado, aos poucos adquirindo uma identidade cultural.
Ela é um espaço sagrado de unidade familiar, ainda que o que vemos é o distanciamento gradual mas não aceito entre os personagens. A diretora Grace Passô trabalha esse lugar profanado pela memória com grande potência sonora, aumentando a feição fantasmagórica daquele espaço e assim incrementando a letargia nas condutas.
Os seis integrantes da casa ouvem, mas parecem não ouvir esses avisos.
“Talvez falte amor”, como uma amiga diz a um dos filhos. Uma das cenas finais traz o taxista Gilson deitado nu na cama, em posição fetal. Vários momentos de "Nosso Segredo" evidenciam a necessidade de restabelecimento do vínculo familiar. A investida no sobrenatural é sugerida e simbolizada pela presença de um animal (hipopótamo) habitando metaforicamente a parte de cima e pouco conhecida da casa).
Há muito de memória e culpa naquela família de corpos negros literalmente periféricos.
Há muito de sensorial e místico neste filme intrigante (um filme encantado?) e absorvente, e que se resolve em parte na cabeça, em parte nas emoções despertadas no público.
* O jornalista viajou a convite do Festival.




