A exibição de “O Projeto” abriu a mostra da sessão competitiva “Longas Metragens Documentais Brasileiros”, e deixou forte impressão na mídia presente ao 54º Festival de Gramado. A obra tem como proposta investigar os impactos históricos e contemporâneos do colonialismo e do racismo a partir de diferentes perspectivas e experiências de vida. Escrito e dirigido a quatro mãos pela cineasta negra carioca Sabrina Fidalgo e pelo suíço Yvan Rodic, o filme compartilha vivências pessoais de ambos que ajudaram a construir uma rica narrativa focada em racismo estrutural e heranças coloniais.

A diretora relembrou episódios de sua infância relacionados aos padrões estéticos impostos à população negra e refletiu sobre como essas violências simbólicas permanecem presentes em diferentes contextos sociais. Por sua vez, a presença do olhar estrangeiro na construção do roteiro reforça aquela afirmação antropológica sobre não estranhar o outro, mas estranhar a si mesmo. Premido pela necessidade implícita no filme de promover extrema investigação sobre si mesmo antes de se propor a pensar sobre os outros, o codiretor Yan Rodic, de ascendência iugoslava, teve que refletir sobre o racismo estrutural sofrido por sua família quando seu pai saiu do Leste Europeu para radicar-se na Suíça.

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SUPREMACIA BRANCA

Sabrina e seu codiretor realizaram profunda viagem investigativa sobre os desdobramentos do projeto colonial europeu e da supremacia branca do Sul e Norte global a partir da visão de uma afro-brasileira e de um suíço. Na entrevista coletiva, a cineasta destacou ainda a influência do livro ‘Memórias da Plantação’, de Grada Kilomba, uma das entrevistadas do documentário. A obra ajudou a ampliar sua compreensão sobre os impactos psicológicos e sociais do racismo e do colonialismo, especialmente em contextos contemporâneos.

Entre os temas debatidos no filme e que reverberaram na coletiva destaca-se a diferença entre culpa e responsabilidade quando o assunto é racismo estrutural e heranças coloniais. Sabrina ressaltou que o filme não busca atribuir culpas individuais, mas compreender sistemas históricos que seguem produzindo desigualdades. Por sua vez, Yvan afirmou que uma das intenções do documentário é estimular reflexões sobre o papel das pessoas privilegiadas diante dessas estruturas. “O primeiro passo é entender que não estamos (as pessoas brancas) fora do problema. Fazemos parte dele. A partir desse ponto, precisamos compreender quais são as nossas responsabilidades e o que podemos fazer para contribuir com mudanças”, frisou.

Sabrina Fidalgo e Yvan Rodic: investigação dos processos históricos e contemporâneos do colonialismo em documentário
Sabrina Fidalgo e Yvan Rodic: investigação dos processos históricos e contemporâneos do colonialismo em documentário | Foto: Agência Pressphoto/ Divulgação

EXPERIÊNCIAS PESSOAIS

Ao longo do debate, Sabrina também compartilhou experiências pessoais que ajudaram a construir a narrativa do filme. A diretora relembrou episódios da infância relacionados aos padrões estéticos impostos à população negra e refletiu sobre como essas violências simbólicas permanecem presentes em diferentes contextos sociais. Ela citou práticas como o clareamento da pele e o alisamento dos cabelos como exemplos de heranças culturais associadas à valorização de padrões eurocêntricos de beleza.

“O projeto passa pelo corpo também”, observou, ao completar que “são violências que continuam reverberando e moldando a forma como as pessoas se enxergam e são vistas”. A cineasta destacou ainda a influência do livro ‘Memórias da Plantação’, de Grada Kilomba, uma das entrevistadas do documentário. A obra ajudou a sua compreensão sobre os impactos psicológicos e sociais do racismo e do colonialismo, especialmente em contextos contemporâneos.

Coproduzido por Canal Brasil, Globo Filmes e GloboNews, o documentário foi filmado em muitos países, onde a dupla investiga questões relacionadas à raça, aos privilégios, ao pertencimento e às marcas deixadas pelo colonialismo em diferentes sociedades. É bastante provável que o filme tenha lançamento nacional em novembro, no Dia da Consciência Negra.

* O jornalista está em Gramado a convite do festival.
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