O feminicídio e a sutileza do mal
"Pele de Rinoceronte" , inspirado no feminicídio de Ângela Diniz, traz reflexão sobre os índices crescentes da violência contra a mulher
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
"Pele de Rinoceronte" , inspirado no feminicídio de Ângela Diniz, traz reflexão sobre os índices crescentes da violência contra a mulher
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA 

A presença do longa metragem “Pele de Rinoceronte” na lista de selecionados que concorrem a Kikitos diversos no 54º Festival de Gramado é absolutamente óbvia. O filme trata deste delito que, veloz e desgraçadamente, vem inchando os índices estatísticos e se transformando em calamidade pública, escapando do âmbito do cenário privado, isto é, da “mera” violência doméstica, física, verbal e derivados. Os números não só não mentem (2.312 mulheres assassinadas em 2025 e até o momento em 2026, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública).
Mas o filme dirigido por Marcello Ludwig Maia visto em primeira exibição nacional em Gramado em nenhum momento trata o feminicídio se valendo da violência gráfica, da força bruta encharcada de sangue, aquela visível pela ótica de cenas dilacerantes, expandidas formalmente pelas lentes do voyerismo, embora nunca deixe de ser esta uma pauta urgente e obrigatória. O roteiro de Josefina Trota optou por uma escolha – uma novidade, com certeza - que atravessa “Pele de Rinoceronte” do início ao fim: não mostrar, embora tratando o problema com a gravidade que ele exige, sem flertar com a explicitude a título denúncia como vem ocorrendo ultimamente no cinema brasileiro. Trata-se da sutileza do mal.
Neste filme, a decisão foi a de que o corpo de Ângela Diniz, a mulher morta no litoral do Rio de Janeiro pelo amante com quatro tiros à queima roupa, nunca seria mostrado, vivo ou morto. Ela poderia sim, ser Ângela Diniz, aquela socialite mineira assassinada pelo playboy Doca Street no final dos anos 1970; há muitas semelhanças entre aquela realidade e esta ficção, mas no filme o nome nunca é pronunciado nos diálogos (esta é uma mulher que poderia ser aquela Ângela Diniz), e o público mesmo assim sente o peso do crime. Como dramaturgia, esta aposta que o filme faz é cumprida com correção e seguida com interesse pelo espectador.
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NARRATIVA EM CAMADAS
Há duas camadas de narrativa a considerar em “Pele de Rinoceronte”. A primeira conta com um casal de advogados criminalistas contratados pela família da vítima. O marido (Irandhir Santos) quer tentar anular o argumento da defesa do assassino, desqualificando a tese de legítima defesa da honra (e portanto transformando a vítima em culpada: mulher livre, vida promíscua, etc. etc.); a esposa e advogada (Naruna Costa) quer provar que ciúme e posse não são provas de amor, mas demonstrações de ódio; o crime, portanto foi por ódio e não por amor. E para isso precisa convencer o marido, advogado mais experiente, que ela deve assumir o protagonismo quando ocorrer a sessão do júri popular. O casal, que aparenta ser feliz, tem duas filhas menores. E então ele pergunta a ela: “Se você for, quem vai ficar em casa cuidando delas ?” Não há vilania ou indignidade na pergunta, só a arquitetura invisível do machismo estrutural, o tipo que se disfarça de rotina doméstica e nunca precisa levantar a voz para oprimir. É nesse registro que o filme também funciona melhor: quando entende que a violência de gênero não é só a explosão, mas o estopim maior ou menor, acúmulo de pequenos gestos que a sociedade aprendeu a não enxergar.
Surge então o segundo grande acerto do filme, através da personagem da jornalista especializada em cobrir fatos policiais (Débora Falabella). Ela entra na trama como repórter obcecada por levantar a verdade sobre a vítima, sem meias palavras e direta aos fatos. Aos poucos vai reconhecendo e descobrindo que ela mesma está vivendo uma relação abusiva com o chefe da redação do jornal (Augusto Madeira). Esta é uma situação também bem construída, que evita o esquematismo de transformar a protagonista em observadora externa da tragédia alheia e a coloca como peça importante no tabuleiro. Ao aproximar investigadora e investigada, “Pele de Rinoceronte” sugere que a linha entre quem cobre violência e quem a sofre é mais tênue do que se gostaria de admitir.





