Livro resgata história e memória do teatro de Bela Vista
Obra da pesquisadora Angela Pires narra o apogeu e o declínio do espaço cultural inaugurado na década de 1960
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
Obra da pesquisadora Angela Pires narra o apogeu e o declínio do espaço cultural inaugurado na década de 1960

Nas primeiras décadas do século 20, a cafeicultura ajudava a consolidar os núcleos urbanos do Norte do Paraná. A cerca de 40 quilômetros de Londrina, o patrimônio de Bela Vista do Paraíso, pertencente ao município de Sertanópolis, se expandia junto com a produção cafeeira e em 1947 conquistou a emancipação. No início da década de 1950, seus cafezais registravam uma produção recorde de 33 mil toneladas do grão, o que fez com que a recém-criada cidade recebesse a alcunha de “Princesinha do Vale do Paranapanema”.
Em um período relativamente curto, Bela Vista passou de um pequeno povoado aberto em meio a mata densa a uma cidade com 30 mil habitantes, mais do que o dobro do contingente populacional atual. O rápido desenvolvimento da região atraiu gente de diversas origens, com diferentes propósitos e visões de mundo, trazendo novas perspectivas à população. Assim como acontecia em outros pontos da Região Sudeste e do Paraná, a circulação da riqueza oriunda do café contribuía para a reconfiguração da sociedade bela-vistense, alterando os costumes.
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Nesse contexto é que, em 1959, surge o grupo TBVC (Teatro Bela Vista de Comédia) e, em seu rastro, o Teatro Municipal Geraldo Moreira. A história do grupo amador que se funde à edificação do imponente espaço cultural é contada no livro "História e Memória: Teatro Municipal Geraldo Moreira – 1962-2025", de autoria da professora de história e sociologia e pesquisadora bela-vistense Angela Pires.
Lançada recentemente com o incentivo da PNAB (Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura), a obra literária é um desdobramento do Trabalho de Conclusão de Curso de licenciatura em História da autora e começou a ser elaborada em 2012. Fruto de um extenso e exaustivo trabalho de pesquisa e resgate histórico, Pires transporta o leitor de volta ao início da colonização do Norte do Paraná, refazendo o caminho dos primeiros desbravadores, relembrando conflitos e disputas por terras até chegar ao ponto em que ocorre uma transformação social que abre espaço para novas expressões culturais e artísticas e culmina na construção do Teatro Municipal, entregue à sociedade em dezembro de 1962.
Nas 200 páginas do livro, estão descritos o apogeu e o declínio do equipamento cultural, resultante de anos de descaso do poder público e que teve como desfecho a sua privatização.

14-BIS
O teatro foi um dos primeiros erguidos no Paraná e durante muito tempo, foi o único teatro municipal do interior do Estado, como lembra Pires. A estrutura destacou-se pelo pioneirismo cultural e arquitetônico, com o icônico projeto inspirado no avião 14-bis, do mineiro Alberto Santos-Dumont, e teve enorme relevância na formação das artes, da cultura, do lazer, da educação e do entretenimento não só da cidade, mas da região.
Por décadas, o teatro municipal de Bela Vista do Paraíso, instalado na praça Brasílio de Araújo Filho, serviu à apresentação de peças teatrais e eventos culturais, mas também foi cenário para festas, celebrações, encontros religiosos e solenidades políticas. Integrado ao cotidiano da comunidade, era um ambiente democrático que ainda contava com uma biblioteca e mais recentemente, abrigou também um museu.
Tal qual um espetáculo teatral, Angela Pires divide o livro em atos. Em um deles, ela relembra a trajetória dos integrantes do TBVC, entre eles, Geraldo Moreira, um dos fundadores, considerado a alma do grupo. A sua morte precoce, aos 46 anos, motivou a mudança de nome do teatro, inicialmente chamado de Ary Barroso. Sem Moreira, o TBVC começou a se dissolver.
Alguns anos depois, em 1975, a geada negra dizimou os cafezais paranaenses e fez desmoronar a estrutura produtiva do Norte do Paraná, fortemente pautada na exportação do grão que formava a base econômica de cidades inteiras, como Bela Vista do Paraíso. Sem a pujança do ciclo do café, que ajudava a impulsionar a cultura local, o teatro entrou em decadência.

DESCARACTERIZAÇÃO
Além de não zelar pela preservação da edificação, as administrações municipais permitiram inúmeras intervenções, que acabaram por descaracterizar completamente o projeto original, especialmente entre 1997 e 2000. Os recursos para a manutenção do espaço foram ficando cada vez mais escassos e a situação se agravou, até o momento em que houve o desabamento do teto, em 2009. O início do levantamento histórico que deu origem ao livro começou na mesma época do incêndio que destruiu o Teatro Ouro Verde, em Londrina. “Comecei a me interessar pelo assunto. Por que uma coisa que era tão valiosa em outras épocas ficou tanto tempo em situação de abandono? Eu achava isso um absurdo”, comentou Pires.
Entre 2012 e 2020, o maior espetáculo foi o desdém. A autora faz críticas sutis à inércia dos sucessivos gestores, que não priorizaram a preservação do teatro. “Em algum momento, por volta de 2010, houve a procura por recursos para tentar a revitalização. Mas a informação que obtiveram é que a reforma realizada no início dos anos 2000 tinha descaracterizado o formato original.” Um dos prefeitos tentou meios de revitalizar o imóvel, contou Pires, mas a verba que conseguiu era insuficiente para custear todas as obras necessárias e pagou apenas a cobertura metálica que substituiu a original, em madeira.
SALVAÇÃO
Em 2017, uma manobra política e administrativa resultou em um acordo para a doação da praça e do teatro à Fecomércio PR, administradora do Sesc e Senac. A entrega à iniciativa privada salvou o prédio da ruína, mas foi na contramão do caráter público e de interesse coletivo sob o qual a obra foi idealizada. A perda da sua essência democrática é simbolizada pela instalação de altas grades no entorno da praça. “O teatro foi privatizado porque tinha todo um contexto de desvalorização da cultura”, avaliou Pires.
A autora lamenta a falta de abertura à participação popular nas discussões que antecederam a desestatização. “A gente sempre soube que era difícil uma prefeitura de uma cidade pequena conseguir manter um espaço como aquele, mas por outro lado, a população não foi ouvida.”
SERVIÇO:
"História e Memória: Teatro Municipal Geraldo Moreira – 1962-2025"
Autora: Angela Pires
À venda pelo e-mail: [email protected]
Preço: R$: 50,00 mais o valor do envio


Simoni Saris
Repórter com atuação nas áreas de Economia, Infraestrutura e Agronegócio.





