Nas primeiras décadas do século 20, a cafeicultura ajudava a consolidar os núcleos urbanos do Norte do Paraná. A cerca de 40 quilômetros de Londrina, o patrimônio de Bela Vista do Paraíso, pertencente ao município de Sertanópolis, se expandia junto com a produção cafeeira e em 1947 conquistou a emancipação. No início da década de 1950, seus cafezais registravam uma produção recorde de 33 mil toneladas do grão, o que fez com que a recém-criada cidade recebesse a alcunha de “Princesinha do Vale do Paranapanema”.

Em um período relativamente curto, Bela Vista passou de um pequeno povoado aberto em meio a mata densa a uma cidade com 30 mil habitantes, mais do que o dobro do contingente populacional atual. O rápido desenvolvimento da região atraiu gente de diversas origens, com diferentes propósitos e visões de mundo, trazendo novas perspectivas à população. Assim como acontecia em outros pontos da Região Sudeste e do Paraná, a circulação da riqueza oriunda do café contribuía para a reconfiguração da sociedade bela-vistense, alterando os costumes.

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TEATRO NO NORTE DO PR

Nesse contexto é que, em 1959, surge o grupo TBVC (Teatro Bela Vista de Comédia) e, em seu rastro, o Teatro Municipal Geraldo Moreira. A história do grupo amador que se funde à edificação do imponente espaço cultural é contada no livro "História e Memória: Teatro Municipal Geraldo Moreira – 1962-2025", de autoria da professora de história e sociologia e pesquisadora bela-vistense Angela Pires.

Lançada recentemente com o incentivo da PNAB (Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura), a obra literária é um desdobramento do Trabalho de Conclusão de Curso de licenciatura em História da autora e começou a ser elaborada em 2012. Fruto de um extenso e exaustivo trabalho de pesquisa e resgate histórico, Pires transporta o leitor de volta ao início da colonização do Norte do Paraná, refazendo o caminho dos primeiros desbravadores, relembrando conflitos e disputas por terras até chegar ao ponto em que ocorre uma transformação social que abre espaço para novas expressões culturais e artísticas e culmina na construção do Teatro Municipal, entregue à sociedade em dezembro de 1962.

Nas 200 páginas do livro, estão descritos o apogeu e o declínio do equipamento cultural, resultante de anos de descaso do poder público e que teve como desfecho a sua privatização.

Prédio dos anos 1960 foi descaracterizado em relação ao projeto original a partir de inúmeras intervenções
Prédio dos anos 1960 foi descaracterizado em relação ao projeto original a partir de inúmeras intervenções | Foto: Divulgação

14-BIS

O teatro foi um dos primeiros erguidos no Paraná e durante muito tempo, foi o único teatro municipal do interior do Estado, como lembra Pires. A estrutura destacou-se pelo pioneirismo cultural e arquitetônico, com o icônico projeto inspirado no avião 14-bis, do mineiro Alberto Santos-Dumont, e teve enorme relevância na formação das artes, da cultura, do lazer, da educação e do entretenimento não só da cidade, mas da região.

Por décadas, o teatro municipal de Bela Vista do Paraíso, instalado na praça Brasílio de Araújo Filho, serviu à apresentação de peças teatrais e eventos culturais, mas também foi cenário para festas, celebrações, encontros religiosos e solenidades políticas. Integrado ao cotidiano da comunidade, era um ambiente democrático que ainda contava com uma biblioteca e mais recentemente, abrigou também um museu.

Tal qual um espetáculo teatral, Angela Pires divide o livro em atos. Em um deles, ela relembra a trajetória dos integrantes do TBVC, entre eles, Geraldo Moreira, um dos fundadores, considerado a alma do grupo. A sua morte precoce, aos 46 anos, motivou a mudança de nome do teatro, inicialmente chamado de Ary Barroso. Sem Moreira, o TBVC começou a se dissolver.

Alguns anos depois, em 1975, a geada negra dizimou os cafezais paranaenses e fez desmoronar a estrutura produtiva do Norte do Paraná, fortemente pautada na exportação do grão que formava a base econômica de cidades inteiras, como Bela Vista do Paraíso. Sem a pujança do ciclo do café, que ajudava a impulsionar a cultura local, o teatro entrou em decadência.

Angela Pires, autora do livro
Angela Pires, autora do livro

DESCARACTERIZAÇÃO

Além de não zelar pela preservação da edificação, as administrações municipais permitiram inúmeras intervenções, que acabaram por descaracterizar completamente o projeto original, especialmente entre 1997 e 2000. Os recursos para a manutenção do espaço foram ficando cada vez mais escassos e a situação se agravou, até o momento em que houve o desabamento do teto, em 2009. O início do levantamento histórico que deu origem ao livro começou na mesma época do incêndio que destruiu o Teatro Ouro Verde, em Londrina. “Comecei a me interessar pelo assunto. Por que uma coisa que era tão valiosa em outras épocas ficou tanto tempo em situação de abandono? Eu achava isso um absurdo”, comentou Pires.

Entre 2012 e 2020, o maior espetáculo foi o desdém. A autora faz críticas sutis à inércia dos sucessivos gestores, que não priorizaram a preservação do teatro. “Em algum momento, por volta de 2010, houve a procura por recursos para tentar a revitalização. Mas a informação que obtiveram é que a reforma realizada no início dos anos 2000 tinha descaracterizado o formato original.” Um dos prefeitos tentou meios de revitalizar o imóvel, contou Pires, mas a verba que conseguiu era insuficiente para custear todas as obras necessárias e pagou apenas a cobertura metálica que substituiu a original, em madeira.

SALVAÇÃO

Em 2017, uma manobra política e administrativa resultou em um acordo para a doação da praça e do teatro à Fecomércio PR, administradora do Sesc e Senac. A entrega à iniciativa privada salvou o prédio da ruína, mas foi na contramão do caráter público e de interesse coletivo sob o qual a obra foi idealizada. A perda da sua essência democrática é simbolizada pela instalação de altas grades no entorno da praça. “O teatro foi privatizado porque tinha todo um contexto de desvalorização da cultura”, avaliou Pires.

A autora lamenta a falta de abertura à participação popular nas discussões que antecederam a desestatização. “A gente sempre soube que era difícil uma prefeitura de uma cidade pequena conseguir manter um espaço como aquele, mas por outro lado, a população não foi ouvida.”

SERVIÇO:

"História e Memória: Teatro Municipal Geraldo Moreira – 1962-2025"

Autora: Angela Pires

À venda pelo e-mail: [email protected]

Preço: R$: 50,00 mais o valor do envio

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