Mais de 98% dos municípios paranaenses gastaram, juntos, R$ 1,2 bilhão de recursos públicos com a contratação de 1.158 atrações artísticas entre 2021 e o primeiro semestre de 2026. Um levantamento do TCE-PR (Tribunal de Contas do Estado do Paraná) mostra uma escalada no custeio público de eventos artísticos nos últimos anos. Em 2021, sob o impacto das restrições impostas pela pandemia de Covid-19, o montante empenhado pelas prefeituras do Estado somou R$ 25,1 milhões. Com a retomada dos eventos, as cifras dispararam. O ápice ocorreu no ano passado, quando o gasto atingiu o recorde de R$ 403,5 milhões.

Em relação a 2024, quando foram gastos R$ 292,2 milhões em recursos públicos para custear apresentações artísticas, a alta no ano passado foi de 38%. Na comparação com 2021, o crescimento ficou acima de 1.507%. No primeiro semestre deste ano, as despesas alcançaram R$ 144,7 milhões.

Os dados fazem parte do novo Painel de Gastos com Eventos Municipais do TCE-PR, que soou o alarme ao identificar indícios de destinação de verbas de outras áreas, como saúde e educação, para bancar os eventos. Por enquanto, estão abertos procedimentos para avaliar com maior rigor as contas de dois municípios: Nova América da Colina, no Norte Pioneiro, e Mauá da Serra, no Norte Central. Mas outras cidades ainda podem entrar nessa lista.

A ferramenta é alimentada com as informações repassadas pelas próprias prefeituras, com base em 10.900 empenhos acima de R$ 20 milhões. A plataforma permite cruzar contratos com receitas locais e investimentos em áreas vitais, estimulando a transparência e o controle social por parte do cidadão.

Os números incluem artistas solo, duplas e grupos musicais. Na lista dos maiores cachês, nomes do sertanejo se destacam. A dupla Fernando e Sorocaba lidera o ranking, com R$ 18,1 milhões recebidos de prefeituras paranaenses entre 2021 e 2026. Dos 399 municípios do Estado, apenas seis não gastaram com shows: Campo do Tenente, Guaporema, Nova Cantu, Paulo Frontim, Pinhal de São Bento e Piraquara. Entre os que contrataram, a média por empenho ficou em R$ 112,3 mil. Dos R$ 1,2 bilhão gastos nos últimos seis anos e meio, R$ 4,3 milhões foram provenientes de emendas parlamentares, segundo o levantamento do TCE-PR.

A Prefeitura de Nova América da Colina desembolsou R$ 2.392.045,02 para apresentações artísticas no período analisado. Na documentação entregue ao Tribunal, R$ 956.045,02 aparecem como gastos “não identificados”. Dos R$ 1,436 milhão cuja destinação foi especificada, mais de R$ 872,2 mil são referentes ao exercício de 2025 e desse montante, quase a metade foi usada para custear o cachê do cantor Amado Batista, que se apresentou durante a sexta edição da Exponac (Exposição de Nova América da Colina), em julho. Pelo show, Batista recebeu R$ 410 mil, divididos em três empenhos, com valor médio de R$ 136,6 mil cada um. Outros R$ 300 mil foram pagos à dupla Ícaro e Gilmar, que se apresentou na mesma edição do evento.

O TCE-PR informou que realiza uma triagem nas informações e vai solicitar aos municípios o detalhamento dos gastos apontados como “não identificados”.

A lista dos maiores cachês pagos pelos eventos realizados em Nova América da Colina desde 2021 inclui ainda a dupla Guilherme e Santiago, que recebeu R$ 230 mil pelo show na Exponac 2026, e os sertanejos Rick e Renner, que cobraram R$ 192 mil pela apresentação na festa dos 63 anos de emancipação política do município, em 2023.

O pagamento a Amado Batista, em 2025, foi o que levantou suspeitas de irregularidade no uso de verbas públicas. O TCE-PR apura se recursos da saúde teriam sido destinados para o pagamento de dois dos três empenhos referentes ao cachê do artista.

O presidente do TCE-PR, conselheiro Ivens Linhares, ressaltou que o direito à cultura e ao lazer é assegurado pela Constituição Federal e que as informações divulgadas têm caráter exclusivamente informativo. O painel, explicou ele, foi desenvolvido com a finalidade de induzir a transparência e a boa gestão dos recursos públicos, “sem a emissão de juízo de valor quanto à pertinência da promoção de eventos culturais”.

No entanto, Linhares entende que a ferramenta elaborada pelo Tribunal é uma forma de permitir à sociedade o acompanhamento das despesas públicas, uma vez que a legitimidade do gasto é condicionada à demonstração de finalidade pública, razoabilidade dos custos, alinhamento com políticas culturais estruturadas e impactos concretos na vida da população.

Leia mais:

Em Mauá da Serra, a prefeitura destinou, em seis anos e meio, R$ 5.324.198,69 milhões a apresentações artísticas, somados os 56 empenhos. Desse total, R$ 2.467.198,69 estão descritos como “não identificado”. Os R$ 2,857 milhões restantes foram utilizados na contratação de artistas que se apresentaram nas últimas edições da Festa do Milho. As maiores fatias ficaram com as duplas Ícaro e Gilmar e Fernando e Sorocaba, que receberam R$ 350 mil cada uma pelos shows realizados no evento, em 2024 e 2025, respectivamente.

Na lista dos cachês mais caros aparecem ainda João Bosco e Vinícius (R$ 339 mil, em 2026), o DJ Jiraya Uai (R$ 250 mil, em 2026), Jefferson e Suellen (R$ 220 mil, em 2026), Daniel (R$ 210 mil, em 2022), Edson e Hudson (R$ 200 mil, em 2023) e a dupla Fiduma e Jeca (R$ 195 mil, em 2026).

O TCE-PR também apura uma suspeita de irregularidade em Mauá da Serra, onde verbas da educação teriam sido destinadas ao pagamento da dupla Fernando e Sorocaba.

Procurado pela reportagem, o prefeito Givanildo Lopes (União) negou o pagamento irregular e disse que o erro foi no sistema, durante a prestação de contas. “A prefeitura pagou com dinheiro de recurso livre. Só que na hora de lançar para o sistema, houve um erro e deu essa divergência. O empenho saiu com outra fonte. Já mandamos a correção para o Tribunal de Contas”, justificou. “Antigamente, as nossas secretarias de Cultura e de Educação eram vinculadas, funcionavam juntas. Pode ser aí que deu o erro, mas não pagamos nenhum centavo com dinheiro da Educação”, reforçou.

A reportagem não conseguiu contato com a Prefeitura de Nova América da Colina.

Imagem ilustrativa da imagem Gastos com shows em municípios do Paraná disparam após pandemia
mockup