Viver vem sem garantias
Aceitar a imprevisibilidade da vida é aceitar algo profundamente angustiante: não comandamos quase nada
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segunda-feira, 18 de maio de 2026
Aceitar a imprevisibilidade da vida é aceitar algo profundamente angustiante: não comandamos quase nada
Sylvio do Amaral Schreiner 

Há pessoas que se orgulham de serem extremamente cuidadosas. Planejam cada detalhe, antecipam cenários, calculam riscos, imaginam conversas antes que aconteçam, tentam prever reações, organizar o futuro e evitar qualquer possibilidade de frustração. À primeira vista, parecem apenas responsáveis, maduras, prudentes. E, de fato, parte disso pode ser cuidado legítimo. O problema começa quando o cuidado deixa de ser uma forma de atenção à vida e passa a ser uma tentativa de dominar aquilo que, por natureza, jamais poderá ser plenamente dominado.
Existe uma diferença importante entre responsabilidade e controle. A responsabilidade reconhece limites. O controle, ao contrário, funciona como uma fantasia de onipotência. A pessoa acredita, ainda que inconscientemente, que, se pensar o suficiente, prever o suficiente e se preparar o suficiente, conseguirá impedir o sofrimento, a decepção, o abandono, o erro, o inesperado. Como se a vida pudesse ser domesticada pela vigilância constante.
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Por trás dessa necessidade excessiva de controle costuma existir uma relação muito difícil com a insegurança e com a impotência humanas. Afinal, aceitar a imprevisibilidade da vida é aceitar algo profundamente angustiante: não comandamos quase nada. Podemos cuidar, planejar, desejar, investir, amar, mas nunca teremos garantias. O outro pode mudar. O corpo pode adoecer. Um relacionamento pode acabar. Um projeto pode fracassar. A vida não assina contratos de estabilidade conosco.
No entanto, algumas pessoas vivem como se precisassem vencer justamente essa condição humana. Só que, paradoxalmente, quanto mais tentam controlar a vida, mais ansiosas ficam. Porque controlar tudo é uma tarefa impossível. E o impossível, quando perseguido obsessivamente, transforma-se em fonte permanente de tensão.
A ansiedade, nesses casos, não nasce apenas do medo do que pode acontecer, mas da revolta inconsciente diante do fato de que o mundo possui existência própria. O outro pensa o que quer, sente o que quer, age como quer. A vida segue caminhos que não consultam nossos planos. Há algo profundamente narcísico na dificuldade de aceitar isso. Não no sentido vulgar da vaidade, mas numa espécie de arrogância psíquica: a crença de que a realidade deveria obedecer aos nossos desejos.
Por isso, quando algo escapa do roteiro cuidadosamente construído, muitas dessas pessoas não sentem apenas frustração. Sentem raiva. Ficam irritadas com atrasos, mudanças, falhas, imprevistos, contradições humanas. Como se o mundo estivesse falhando em cumprir um combinado que, na verdade, nunca existiu. O trânsito, o clima, os filhos, o parceiro, os colegas, o próprio corpo: tudo se torna fonte de irritação porque tudo lembra, o tempo inteiro, que a vida não é controlável.
Curiosamente, esse excesso de controle não produz liberdade, mas aprisionamento. A pessoa deixa de viver a experiência espontânea da vida porque está ocupada demais tentando impedir que ela aconteça de maneira imprevisível. Vive em estado de alerta constante. E quem vive assim raramente descansa de verdade. Mesmo nos momentos de lazer, permanece calculando, monitorando, antecipando.
Há uma humildade psíquica importante em aceitar que não temos domínio sobre tudo. E talvez exista justamente aí uma forma mais profunda de paz. Porque viver não é eliminar o imprevisível. É desenvolver recursos emocionais para não desmoronar toda vez que ele aparece.
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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina





