Há um desejo bastante comum que é o de viver sem aborrecimentos. Muitos imaginam que uma vida boa seria aquela em que os problemas desaparecem, as frustrações não aparecem e as relações transcorrem sem conflitos. Sonha-se com uma existência lisa, sem atritos, como se fosse possível organizar a vida de tal maneira que nada nos contrariasse.

No entanto, basta alguma experiência de viver para perceber que essa expectativa é ilusória. E como é! A vida não se deixa comandar dessa forma. Não existe uma posição a partir da qual possamos controlar o mundo, as pessoas e os acontecimentos. Sempre haverá algo que escapa: um desencontro, uma perda, uma decepção, um atraso, uma injustiça, uma palavra mal colocada.

Desde cedo, o ser humano precisa se deparar com a frustração. O bebê, que inicialmente vive numa condição de grande dependência, aprende pouco a pouco que nem tudo acontece no momento em que deseja. O leite pode demorar, a presença da mãe pode não estar imediatamente disponível, o mundo não responde de maneira automática às suas necessidades. Essas pequenas frustrações, quando são acompanhadas por um ambiente suficientemente cuidadoso, não destroem a criança. Ao contrário, ajudam a construir sua capacidade psíquica de tolerar a realidade.

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Crescer, em certo sentido, é aprender a lidar com aquilo que não se submete à nossa vontade. A vida adulta exige continuamente essa tarefa. Aceitar que há limites, reconhecer que o outro é diferente de nós, suportar que projetos falhem, que expectativas não se realizem exatamente como imaginávamos.

O problema surge quando passamos a acreditar que essas experiências deveriam desaparecer. Criamos então uma relação hostil com a própria vida. Cada contratempo passa a ser vivido como uma espécie de injustiça intolerável, como se algo estivesse profundamente errado simplesmente porque as coisas não ocorreram como desejávamos.

A cultura atual frequentemente reforça essa fantasia. Propagam-se ideias de que seria possível alcançar uma existência plenamente equilibrada, permanentemente satisfeita, livre de tensões. Porém, essa promessa carrega um equívoco importante já que ela transforma a frustração, que é parte inevitável da condição humana, em algo que deveria ser eliminado.

Não podemos aspirar a uma vida sem chateações. Isso está fora do alcance de qualquer pessoa. O que podemos, sim, é aprender a construir uma vida psíquica capaz de suportar essas experiências sem se deixar dominar por elas.

Quando alguém desenvolve essa capacidade, a frustração deixa de ser uma catástrofe. Ela continua sendo desagradável e não há motivo para fingir que não seja, mas deixa de ter o poder de definir quem somos ou de determinar o rumo de nossa existência.

Trata-se de um trabalho interno, de ampliar nossa capacidade de pensar sobre o que sentimos e transformar experiências difíceis em algo que possa ser elaborado. Em vez de lutar contra a realidade, vamos aprendendo a dialogar com ela.

Curiosamente, é justamente essa capacidade de tolerar frustrações que abre espaço para uma vida mais livre. Quem precisa controlar tudo vive permanentemente em tensão, tentando impedir que o inesperado aconteça. Já quem aceita que a vida inclui contrariedades ganha maior flexibilidade para atravessá-las e seguir adiante.

A maturidade emocional não consista em encontrar uma vida sem problemas (algo que nunca existiu), mas em desenvolver uma mente capaz de permanecer viva mesmo quando as coisas não saem como gostaríamos. Isso que é crescer de fato.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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