Há uma fantasia que atravessa muitas pessoas: a de que alguém virá. Um mentor esclarecido, um amor redentor, um governo justo, uma circunstância finalmente favorável. Alguém que nos poupe do risco, da dúvida, do cansaço de existir. Essa expectativa, muitas vezes inconsciente, organiza escolhas, adiamentos e desistências. Enquanto se espera, a vida fica suspensa, como se estivesse em uma antessala, aguardando ser chamada.

Na clínica, não é raro escutar pacientes que vivem como se ainda não estivessem autorizados a começar. Falta algo; mais segurança, mais dinheiro, mais coragem, menos medo, um sinal inequívoco de que agora sim é possível. Esse “ainda não” pode durar décadas. E, enquanto isso, os dias passam, o corpo envelhece, as oportunidades se transformam, os vínculos se desfazem ou se empobrecem. O tempo, que poderia ser vivido, é convertido em espera.

Do ponto de vista psicanalítico, essa postura frequentemente se enraíza em experiências precoces. Houve, para todos nós, um tempo em que depender era vital. Alguém realmente precisava vir e nos alimentar, aquecer, proteger, traduzir o mundo. Quando algo dessa dependência primordial não pôde ser suficientemente elaborado, o adulto pode seguir, por dentro, aguardando o mesmo tipo de resgate. Não se trata de fraqueza moral, mas uma parte da mente permanece infantilizada, esperando que a vida seja conduzida por outro.

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O problema é que a realidade não segue esse roteiro. Ninguém vem. Não porque o mundo seja cruel, mas porque crescer implica aceitar uma perda fundamental: a de que não há garantias, não há salvadores, não há momento perfeito. Viver é sempre um ato imperfeito, atravessado por medo, ambivalência e falhas. Esperar a segurança absoluta é, muitas vezes, uma forma elegante de não viver.

Enquanto alguns aguardam, outros caminham com as pernas trêmulas. Erram, se envergonham, recuam, tentam de novo. Não porque sejam mais fortes, mas porque toleram melhor a própria imperfeição. Aceitam que o medo não é um sinal de proibição, mas um acompanhante inevitável de qualquer transformação. Esses sujeitos não vivem menos angustiados; vivem menos paralisados.

Há algo de profundamente trágico e silencioso na perda de tempo. Tempo não é apenas um dado do relógio, é matéria da vida mental. É no tempo que se constroem experiências, vínculos, sentido. Perder tempo esperando ser salvo é, em alguma medida, perder pedaços da própria história. É chegar mais tarde a si mesmo.

Assumir a responsabilidade pela própria vida significa reconhecer que nada nem ninguém pode viver em nosso lugar. Há escolhas que são intransferíveis. Há dores que só cada um pode atravessar. Não se terceiriza a vida.

Talvez amadurecer seja isso. Desistir da fantasia de salvação e, com certo luto, aceitar o próprio desamparo como ponto de partida. Não um desamparo estéril, mas fértil. Aquele que nos obriga a criar caminhos, ainda que tortos. A transformar impulsos em projetos possíveis, conflitos em trabalho psíquico, medo em movimento.

O progresso, quando acontece, raramente tem a forma de uma epifania luminosa. Ele costuma ser discreto, irregular, cheio de tropeços. Mas é vivo. Diferente da espera perfeita, que é imóvel e, aos poucos, vai se confundindo com a própria morte em vida.

No fim, talvez a pergunta não seja quem virá nos salvar, mas quanto tempo ainda estamos dispostos a entregar à espera. Porque o tempo não se acumula, não se devolve, não se negocia. Ele simplesmente passa. E passar a vida esperando o momento ideal é, muitas vezes, a maneira mais eficaz de nunca chegar a viver de fato.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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