'Faça justiça poética à sua alma'
Essa expressão sugere a necessidade de tratarmos nossa vida interna não com rigidez moral, mas com a sensibilidade da arte
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segunda-feira, 10 de novembro de 2025
Essa expressão sugere a necessidade de tratarmos nossa vida interna não com rigidez moral, mas com a sensibilidade da arte
Sylvio do Amaral Schreiner 

Albert Camus, escritor e filósofo franco-argelino, nos convida a uma reflexão interessante: “Você nunca será capaz de experimentar tudo. Então, por favor, faça justiça poética à sua alma e simplesmente experimente a si mesmo.” Nessa frase se condensa a tensão essencial entre o desejo humano de infinitude e a inevitável constatação de nossos limites. Vivemos como se houvesse tempo e condições para tudo: todas as carreiras, todos os amores, todos os lugares, todas as vidas possíveis. Contudo, a existência é feita de escolhas, e escolher implica renunciar. É nesse campo de perdas e impossibilidades que se dá a tarefa de viver.
A ilusão de que poderíamos tudo é um engano que frequentemente aprisiona. O sujeito moderno, pressionado por ideais de desempenho e autossuficiência, teme reconhecer seus limites, como se fazê-lo fosse admitir fracasso. Ao contrário, é no reconhecimento das fronteiras dos limites que a vida psíquica ganha profundidade. Saber que não se pode tudo abre espaço para o que realmente se pode e, mais ainda, para o que se é. Quando o indivíduo abandona a onipotência de “ser tudo”, descobre a singularidade de “ser alguém”. O limite, longe de ser uma prisão, é aquilo que delimita a forma da alma, como o contorno que dá existência a uma figura.
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Camus fala em “fazer justiça poética à alma”. Essa expressão sugere a necessidade de tratarmos nossa vida interna não com rigidez moral, mas com a sensibilidade da arte. Uma justiça que não julga, mas reconhece. A psicanálise, nesse sentido, é também poética: ela busca dar forma simbólica àquilo que antes era apenas dor muda, transformar o informe em palavra, o caos em narrativa. Experimentar a si mesmo é, portanto, aventurar-se nesse território íntimo onde habitam desejos, medos e lembranças que nos constituem. É permitir que o inconsciente nos fale, não como inimigo a ser vencido, mas como parte viva daquilo que somos.
Não é possível experimentar tudo porque a vida é finita, e a mente humana, limitada. Mas é possível viver intensamente o que nos cabe, desde que não nos percamos na comparação com vidas que não são as nossas. A cultura contemporânea estimula um excesso de possibilidades que mais paralisa do que liberta. A cada escolha, o sujeito sente o peso do que deixou de viver, e assim permanece dividido entre infinitas versões de si mesmo, sem encontrar repouso em nenhuma. A psicanálise, ao contrário, propõe o retorno ao essencial: habitar a própria vida, suportar as faltas, reconciliar-se com o que é possível.
Fazer justiça à alma é acolher o que somos. É compreender que a plenitude não está em multiplicar experiências, mas em viver de modo autêntico aquelas que realmente nos tocam. Só assim a vida deixa de ser uma sucessão de tentativas de ser outro para se tornar uma obra singular, onde o sujeito se descobre autor e protagonista da própria história. Experimentar a si mesmo, enfim, é reconhecer a poesia que habita em existir: imperfeito, limitado, mas vivo.
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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina




