Em 2017, um homem de Londres criou um restaurante que não existia. Batizou-o de The Shed at Dulwich e, com algumas fotos forjadas de pratos “gourmet” feitos com produtos de limpeza e a ajuda de amigos que postaram avaliações falsas, o restaurante imaginário subiu rapidamente ao topo do site de avaliações TripAdvisor, tornando-se o número um de Londres. Não havia mesas, nem cozinha, nem cardápio. Havia apenas o desejo humano de ser visto, desejado, e de desejar o que o outro deseja.

Esse episódio, que parece anedótico, escancara uma dimensão profunda do funcionamento psíquico contemporâneo: a fascinação pelo fake, pelo que simula o real sem nunca o ser. Na era das aparências, a verdade perde terreno para a visibilidade; o valor cede lugar ao prestígio. O olhar do outro, tantas vezes tomado como bússola, substitui o próprio sentir. O “melhor restaurante” não é aquele onde se come bem, mas aquele onde todos querem estar. O cardume move-se em uníssono, não por convicção, mas por medo de ficar para trás.

A psicanálise nos demonstra que o sujeito humano é, em sua essência, um ser que sempre deseja. No entanto, quando o desejo se desconecta da experiência interna e se torna refém do olhar social, o Eu perde sua consistência. Passamos a desejar o desejo do outro, ou seja, aquilo que acreditamos que o outro valoriza. O falso, então, triunfa porque ele se adapta com perfeição à superfície, enquanto o autêntico, mais silencioso e imperfeito, exige escuta, tempo e contato com a realidade que nunca é sedutora.

O sucesso do restaurante inexistente é um sintoma cultural importante de percebermos. Ele revela a fragilidade do discernimento individual. O que é a fama senão uma forma moderna de fetiche? Um objeto brilhante que esconde a falta, prometendo completude. O brilho do falso, entretanto, é efêmero. Seduz porque evita o encontro com o real, esse terreno incômodo onde habitam o limite, a frustração e a verdade emocional.

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A autenticidade, ao contrário, não se constrói com curtidas nem rankings. É uma conquista interna, fruto de elaboração e confronto com o que não é belo nem editável. Ser autêntico é suportar não ser unanimidade, é caminhar contra o fluxo quando o cardume corre para o abismo. Talvez a pergunta que o episódio nos deixa seja esta: queremos realmente saborear a vida ou apenas posar à mesa daquilo que parece ter sabor?

O “The Shed at Dulwich” nunca existiu, mas revelou muito sobre o que existe em nós, a tendência a confundir o brilho com o valor, a imagem com a experiência, o fake com o verdadeiro. E, enquanto continuarmos famintos de ilusão, talvez jamais descubramos o sabor genuíno do que é autêntico. E isso vai além das experiências de consumo. Invade e perturba também os relacionamentos que vivemos com o próximo e com isso perdemos muito tempo nessa vida. A verdade é que tempo é vida e no fim o que desperdiçamos é vida. É de se pensar.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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