Rubem Alves, com sua sensibilidade poética, nos lembra que a vida pode ser desperdiçada quando reduzida à produtividade. A sua frase "Se eu pudesse recomeçar, teria mais pressa de viver do que de ser produtivo. Mas trabalhei tanto que me esqueci de estar vivo. Uma pena, porque viver é a única urgência" toca numa ferida que encontramos em todos nós que é a transformação do sujeito em uma engrenagem de performance, onde o “ser alguém na vida” suplanta o simples e profundo gesto de “ser”.

Na lógica do mundo, desde cedo somos convocados a provar valor através de conquistas, títulos e resultados. A criança aprende que só será reconhecida se corresponder ao olhar de aprovação do outro, seja da família, da escola, seja, mais tarde, do ambiente profissional. Busca-se o status. Assim, o viver espontâneo, marcado pela curiosidade, pelo brincar e pela abertura ao inesperado, vai sendo substituído por uma vida dirigida à meta, onde o tempo não é vivido, mas consumido. Freud já apontava para esse destino de sacrifício quando descreveu a renúncia pulsional. O que vemos hoje é que a renúncia ao desejo não é apenas preço da vida em sociedade, é muitas vezes a própria perda do contato com o que nos torna vivos.

A clínica mostra que, em nome do ideal de produtividade, muitas pessoas se afastam de si mesmas. A mente se enrijece em deveres, listas e comparações, enquanto os afetos e o corpo denunciam o vazio. Ansiedade, insônia, fadiga, sintomas que dizem mais da falta de vida do que do excesso de trabalho. Como se a existência fosse reduzida a um currículo. Porém, nenhum currículo substitui a experiência íntima de estar vivo, de amar, de criar, de sofrer e também de se encantar. Viver verdadeiramente é o que dá sentido à existência; sem isso, sobra apenas sobrevivência.

Leia mais:

O irônico é que, ao buscar ser “alguém na vida”, muitos deixam de ser o que de fato são. A identidade se torna um projeto para os outros, e não uma morada para si. A urgência, como dizia Alves, não está em ser produtivo, mas em viver. O viver exige coragem para se frustrar, de não caber nos ideais prontos, de acolher os próprios limites e prazeres. É nessa dimensão que a psicanálise pode ajudar: ao devolver ao sujeito a possibilidade de se encontrar consigo mesmo, para além do espetáculo da performance.

Viver é a única urgência porque, sem o gesto de habitar a própria vida, tudo o mais se torna artificial. A pressa de ser alguém, quando não acompanhada da delicadeza de ser si mesmo, produz apenas uma vida adiada. Reaprender a viver no tempo presente, no encontro verdadeiro, no silêncio e também na dor, talvez seja o trabalho mais profundo que a análise propõe. Afinal, não se trata de acrescentar mais produtividade à vida, mas de recuperar o que nela pulsa e pede passagem.

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

mockup