Há um poema oriental que fala de um homem em busca da casa de Deus. Ele a procura incansavelmente até chegar à porta, mas ao encontrá-la se paralisa de medo e desiste de entrar. Isso revela algo profundamente humano: a ambivalência diante do próprio desejo. Procuramos, com fervor, aquilo que imaginamos ser a resposta às nossas inquietações mais íntimas. Só que quando nos aproximamos da possibilidade de realmente encontrar, algo em nós retrocede. O encontro definitivo, longe de representar apenas realização, traz consigo a ameaça da perda. Depois de encontrar, o que buscaríamos? Quem seríamos sem a busca que nos sustentou?

Na vida psíquica, esse movimento se repete de maneira constante. Muitos pacientes procuram a análise em busca de alívio, de respostas, de uma espécie de “casa de Deus” interna onde possam repousar. Mas o processo analítico mostra que o verdadeiro encontro com a própria verdade não é tranquilo, nem garantia de prazer. Ao contrário, ele pode ser vivido como ameaçador, porque exige transformação, exige deixar morrer partes conhecidas do self que até então serviram de apoio. Encontrar-se implica perder algo do que se era e essa perda assusta. Por isso, muitas vezes, preferimos nos manter no caminho da busca, que nos dá a sensação de movimento e de esperança, ainda que interminável.

O temor que toma aquele homem diante da porta da casa divina é o mesmo que experimentamos diante da possibilidade de uma mudança psíquica autêntica. O conhecido, ainda que sofrido, oferece a segurança da repetição. O desconhecido, mesmo que desejado, pode trazer decepção, frustração ou um vazio novo. Encontrar aquilo que tanto buscamos pode nos obrigar a confrontar a pergunta: “e agora?”. Essa é, muitas vezes, a questão central da análise: o que fazer com a vida quando já não podemos mais nos sustentar no mesmo sofrimento, na mesma repetição, nas mesmas buscas viciadas?

A psicanálise nos mostra que o apego à busca incessante por algo maravilhoso pode ser uma defesa contra o encontro verdadeiro. Procurar sem nunca encontrar é uma maneira de adiar o momento da transformação. O sintoma, nesse sentido, pode funcionar como a própria estrada infinita: dá a sensação de que algo está sendo feito, de que o sujeito está em movimento, mas o mantém afastado daquilo que poderia de fato transformá-lo.

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O poema, assim, fala menos da casa de Deus como destino e mais do medo humano de se deparar com o essencial. No mundo mental, vivemos esse paradoxo. Desejamos encontrar-nos, mas tememos a profundidade dessa experiência. Desejamos amar, mas tememos a entrega. Desejamos curar, mas tememos deixar para trás a identidade construída em torno da dor. Em última instância, desejamos viver plenamente, mas tememos as mudanças que a vida plena exige.

A casa de Deus, nesse sentido, pode ser lida como metáfora da verdade interior, da autenticidade, da possibilidade de uma existência mais inteira. Muitos se aproximam dela, mas recuam diante da intensidade do encontro. Permanecem no conhecido, ainda que insatisfatório, porque suportar o novo requer coragem. O desafio, para cada sujeito, é ousar entrar pela porta, sabendo que o encontro pode não trazer respostas prontas, mas abrir um caminho de transformação real, onde a vida se expande para além da busca incessante.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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