Vivemos em um tempo em que a busca por algo ou alguém que nos satisfaça ou nos dê a sensação de completude se tornou quase uma obsessão. Muitos procuram no outro, em conquistas externas ou em ideais inalcançáveis, uma claridade, uma luz, que possa dissipar a escuridão de suas angústias internas. A vida é tomada por essa ilusão: acreditar que o brilho que falta em nós pode ser encontrado fora. No entanto, essa busca incessante, mais do que iluminar, frequentemente cega, porque mantém o sujeito afastado de si mesmo e de sua própria possibilidade de transformação.

Ser luz não significa ser perfeito, não é atingir um ideal elevado, tampouco um estado de felicidade permanente. Ser luz é algo mais simples e ao mesmo tempo mais exigente: é cuidar-se, reconhecer suas limitações, não se perder em idealizações grandiosas e suportar ser quem se é. A psicanálise nos mostra que quando o indivíduo pode tolerar sua condição humana, com falhas e vulnerabilidades, e ainda assim se responsabilizar por seu próprio viver, uma luminosidade genuína passa a emanar de dentro para fora. Essa luz não é espetáculo, mas presença; não é promessa de salvação, mas sustentação da vida em sua complexidade.

Ao tornar-se luz, o sujeito passa a viver de maneira menos custosa, com menos trombadas por aí. A existência deixa de ser um fardo movido pela eterna falta e se converte em espaço de encontro consigo e com o outro. As relações se beneficiam disso: não mais vistas como fontes exclusivas de completude ou redenção, mas como encontros possíveis entre duas subjetividades que se iluminam mutuamente. Há uma diferença profunda entre exigir do outro que seja farol de nossas trevas e poder compartilhar a chama que já conseguimos acender em nós. Esse último é muito mais bonito, bem como possível.

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Aqui cabe a metáfora da vela, quase até mesmo um clichê. Uma única vela acesa, quando aproxima sua chama de outra, não se apaga; ao contrário, multiplica a claridade. Assim é com as pessoas. Se buscamos apenas ser iluminados, corremos o risco de viver dependentes da luz alheia, apagando-nos sempre que ela se afasta. Mas se nos empenhamos em acender a própria chama, podemos contribuir para que outras velas também se acendam. A luz se expande não porque um sol absoluto nos guia, mas porque muitas pequenas chamas se mantêm acesas, sustentadas pela coragem de cada um de ser quem é.

Talvez a tarefa mais difícil, e ao mesmo tempo mais necessária, seja a de ao invés de correr atrás da luz que se imagina existir em algum lugar, aprender a ser luz, pequena, imperfeita, mas própria. Somente assim poderemos transformar nossas vidas e, por extensão, ajudar a iluminar o mundo e até mesmo o mundo. Há um antigo ditado que diz que “em terra de cego quem tem um olho é rei”. Parodiando esse ditado invento o seguinte, se é que já não exista um ditado parecido com este: “em tempos de escuridão qualquer pequena luz é uma chama brilhante e necessária”.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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