A frase do escritor francês Nobel de literatura André Gide “Não se descobrem novas terras sem consentir em perder de vista a costa por muito tempo” traduz de maneira poética uma experiência fundamental da vida psíquica: a necessidade de deixar para trás as referências conhecidas para que algo novo possa surgir. No entanto, esse gesto exige coragem, porque implica atravessar um período de incerteza, em que os velhos apoios não estão mais presentes e os novos ainda não foram encontrados. É justamente nesse intervalo, nesse estado transitório, nesse espaço entre o conhecido e o desconhecido, que o medo costuma se instalar, bem como as resistências.

Muitos preferem permanecer agarrados às margens familiares, ainda que estreitas e sufocantes, do que se lançar ao mar aberto de possibilidades que não oferecem garantias imediatas. A mente humana tende a procurar fixidez e segurança, mesmo às custas da própria vitalidade. São aquelas pessoas que notamos que não toleram e resistem em mudar, mesmo quando todo mundo em volta percebe que elas estão sofrendo e adoecendo. O medo de perder de vista a costa é, em última instância, o medo de perder a ilusão de controle. E é nesse ponto que o processo psicanalítico se apresenta como uma travessia desafiadora.

Entrar em análise é consentir em adentrar mares desconhecidos dentro de si mesmo. É abrir mão das certezas imediatas, das narrativas prontas, das defesas rígidas que, embora tragam uma sensação de segurança, limitam a experiência da vida. O trabalho analítico não promete um porto seguro desde o início. Pelo contrário, convida o paciente a tolerar o vazio temporário, a suportar a ausência de referências, para que novas formas de se perceber e de se relacionar possam emergir.

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Essa vivência de “descobrir novas terras” internas pode ser vivida, e geralmente é, com grande temor. Muitos recuam diante da possibilidade de se confrontar com aspectos desconhecidos de si mesmos, pois isso significa renunciar, ainda que por um tempo, às zonas de conforto e às identidades cristalizadas. Porém, é justamente nesse risco que reside a potência transformadora da psicanálise. Ao perder de vista a costa, o sujeito se depara com territórios psíquicos que antes permaneciam ocultos, podendo dar novos sentidos à sua história e reinventar sua maneira de viver.

Assim, a frase de Gide pode ser lida como uma metáfora do que acontece dentro de um processo psicanalítico. Para que algo verdadeiramente novo aconteça, é preciso tolerar o não saber, sustentar a travessia e confiar que, ao se afastar da costa, não se caminha para o naufrágio, mas para a ampliação da vida. O analista, nesse percurso, não oferece a costa de volta, mas acompanha o paciente em sua travessia, ajudando-o a suportar o mar aberto até que surjam, enfim, novas terras psíquicas, férteis e transformadoras.

A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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