Há experiências humanas que, de tão radicais, parecem deslocar os eixos habituais da percepção, ou seja, cria um impacto profundo em como nos sentimos. A vivência relatada pelo astronauta Ron Garan, ao observar a Terra do espaço durante seus seis meses na Estação Espacial Internacional, constitui uma dessas experiências transformadoras, tanto no plano sensorial quanto psíquico. Ele descreve ter se dado conta, com nítida clareza, de que a Terra não é uma colcha de retalhos feita de países, fronteiras e disputas, mas um único organismo vivo, pulsando em interdependência. Tal percepção, chamada de Overview Effect entre os astronautas, inaugura um ponto de vista que poderia muito bem ser chamado de “experiência do todo”.

Essa visão não é apenas estética ou científica; ela é profundamente emocional. De repente, aquilo que parecia separado: o humano, o animal, as florestas, os oceanos, o clima, revela-se como partes interligadas de uma mesma vida. O impacto psíquico dessa constatação é imenso, pois subverte uma das ilusões mais arraigadas da mente humana: a fantasia de separação. Freud já dizia que a constituição do Eu exige, nos primórdios da vida, uma cisão do mundo externo para que o bebê possa se organizar como sujeito. Porém, quando essa cisão se cristaliza em modos de existência que negam a interdependência com o outro e com o mundo, ela se torna patológica.

A fala de Garan denuncia essa cisão como uma “mentira” e, de fato, essa falsa separação trata-se de uma construção psíquica defensiva que, em nome do controle e da dominação, separa o homem da natureza, a cultura do ambiente, o Eu do outro. A consequência é a destruição progressiva do planeta e de nossas relações: uma mente que se pensa isolada autoriza comportamentos que desprezam os vínculos essenciais à vida. A crise ecológica, nesse sentido, é também uma crise psíquica. Ela denuncia a falência de um modo de existir centrado no narcisismo da espécie humana, que age como se estivesse fora do ecossistema que a constitui.

Na clínica psicanalítica, muitas vezes somos chamados a ajudar o sujeito a reconstituir ligações internas rompidas: com suas próprias emoções, com suas figuras internas, com a história que carrega e com os vínculos que o sustentam. A experiência do astronauta nos oferece uma potente metáfora desse trabalho: sair do foco egocentrado, do pequeno mundo das repetições destrutivas, e alcançar uma perspectiva mais ampla, onde o sujeito se reconhece como parte de algo maior, sem perder sua singularidade.

Se, do espaço, é possível perceber a Terra como uma unidade viva, talvez devêssemos aprender a exercitar esse olhar aqui de baixo. É um exercício tanto ecológico quanto psíquico: desfazer os muros imaginários que nos separam do outro, do planeta, da realidade. Pois, como Garan intuiu, estamos todos no mesmo “barco azul” flutuando no cosmos e cuidar desse barco é também cuidar da própria mente. A saúde do planeta, afinal, começa na reconstrução das ligações afetivas que nos permitem habitar o mundo coom mais responsabilidade, reverência e pertencimento.

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

mockup