“Um cavalo estava amarrado e tentava se soltar quando veio um demônio e o soltou. O cavalo entrou nas terras de um fazendeiro e começou a comer a plantação e o dono da fazenda pegou sua espingarda e matou o cavalo. Então o dono do cavalo pegou sua espingarda e matou o dono da fazenda. A mulher do dono da fazenda matou o dono do cavalo. E o filho do dono do cavalo matou a mulher. Os vizinhos em cólera mataram o garoto e queimaram a sua casa. Então algumas pessoas perguntaram ao demônio: - Porque você fez tudo Isso? O demônio respondeu: ⁃ Eu só soltei o cavalo!”

A pequena narrativa do cavalo solto pelo demônio nos convida a uma reflexão sobre a responsabilidade subjetiva. A história, embora singela, carrega em si uma sabedoria que dialoga intimamente com o pensamento psicanalítico: o que é feito com o que nos acontece depende menos do que de fato nos ocorre e mais da maneira como o sujeito responde àquilo que o toca.

Na cena descrita, o demônio apenas “solta o cavalo”. Seu gesto inaugural é mínimo, quase irrelevante, mas desencadeia uma sucessão de atos violentos que culminam em uma tragédia coletiva. O que está em jogo aqui não é o ato em si, mas a forma como cada personagem da trama lida com aquilo que o afeta. Nenhum deles parece capaz de sustentar o impacto emocional de uma perda, de uma frustração, de um limite. Ao contrário, todos respondem impulsivamente, transferindo a dor para o outro, como se a destruição do exterior fosse capaz de pacificar o tumulto interno.

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Freud, em sua teoria das projeções, nos ensinou que temos uma tendência psíquica a atribuir ao outro aquilo que não suportamos em nós mesmos. Em vez de reconhecer a própria raiva, a própria inveja, o próprio desamparo, os expulsamos de nosso psiquismo e os depositamos no mundo externo: em pessoas, grupos, instituições ou mesmo em circunstâncias impessoais como o destino. Dessa forma, o sujeito se alivia momentaneamente de um conflito interno, mas à custa de perpetuar a repetição e o sofrimento.

No caso da historieta, cada personagem está tomado por uma certeza de que a culpa está fora: é o outro quem provocou, é o outro quem feriu, é o outro quem merece ser punido. Nesse circuito de projeções e vinganças, ninguém se pergunta qual foi a minha parte nisso? — e, portanto, ninguém cresce. A cadeia de destruição se alastra, pois ninguém consegue suportar a dor de um luto sem imediatamente convertê-lo em ação retaliatória.

A psicanálise, ao contrário das soluções mágicas ou moralistas, propõe um caminho árduo e libertador: reconhecer o que é nosso, mesmo quando isso nos desagrada ou nos envergonha. É preciso coragem para admitir que temos impulsos destrutivos, que nem sempre amamos como gostaríamos, que nos equivocamos, que podemos ser movidos por interesses inconscientes. É justamente esse reconhecimento que nos permite sair do automatismo das reações e criar novas formas de estar no mundo.

Crescer, no sentido psíquico, é assumir a responsabilidade por nossas escolhas e pelas consequências delas. Não se trata de culpa, conceito paralisante quando desconectado da reflexão, mas de responsabilidade, que abre a possibilidade de transformação. É apenas quando paramos de acusar o outro e começamos a nos perguntar sobre nossos próprios movimentos que o ciclo de destruição pode ser interrompido.

Na clínica, esse é um dos momentos mais fecundos de um processo analítico: quando o paciente, ao invés de repetir, começa a simbolizar; quando se apropria de sua história sem precisar mais terceirizar a dor; quando compreende que, embora não tenha controle sobre o que lhe acontece, pode transformar o modo como responde ao que lhe atravessa.

A imagem do demônio que diz “eu só soltei o cavalo” revela que, muitas vezes, os acontecimentos externos são apenas disparadores. A verdadeira cena se dá no teatro interno de cada um. E é nesse território que a psicanálise trabalha: ajudando o sujeito a reconhecer, elaborar e transformar seus afetos para que ele possa, enfim, deixar de viver à mercê das forças inconscientes que o governam e começar a escrever, com mais liberdade e responsabilidade, a sua própria história.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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