Vivemos em uma época em que os diagnósticos psíquicos se multiplicam e circulam com a mesma velocidade das informações nas redes sociais. Termos como ansiedade, TDAH, bipolaridade, autismo e depressão passaram a fazer parte do vocabulário cotidiano, muitas vezes sem a devida compreensão de seu peso clínico e de suas implicações subjetivas. O que antes era resultado de um processo cuidadoso de escuta, observação e elaboração, hoje se transforma, não raro, em um rótulo utilizado para explicar qualquer desconforto, falha ou limite pessoal.

Há algo de paradoxal nesse movimento. Ao mesmo tempo em que os diagnósticos ganham espaço, o sofrimento psíquico perde profundidade. Em lugar de ser compreendido como expressão singular da história e das experiências de um sujeito, ele é reduzido a uma categoria, a um nome pronto que oferece alívio imediato e uma falsa sensação de explicação. O risco, nesse contexto, é transformar o diagnóstico em uma identidade, uma espécie de passaporte social que confere pertencimento e justificativa, mas que também aprisiona.

Freud, criador da psicanálise, através de seus muitos trabalhos, mostrou que o sintoma é sempre uma mensagem cifrada do inconsciente, um modo particular de o sujeito lidar com seus conflitos e angústias. Quando o diagnóstico é usado de forma indiscriminada, perde-se a oportunidade de escutar o que o sintoma quer dizer. Ele é, então, silenciado, substituído por uma etiqueta que impede o trabalho psíquico de transformação. Em lugar de uma busca de sentido, instala-se uma lógica de desculpa: “sou assim porque tenho tal transtorno”. A responsabilidade, nesse gesto, se esvai, e com ela desaparece também a possibilidade de mudança.

É claro que há transtornos que exigem atenção clínica e tratamento adequado e banalizá-los seria igualmente perigoso. O problema não está na existência dos diagnósticos, mas na sua apropriação superficial. Quando o diagnóstico vira moda, ele deixa de ser ferramenta de compreensão para tornar-se um álibi contra saber mais de si mesmo.

A psicanálise propõe o caminho oposto. Em vez de rotular, escutar; em vez de classificar, compreender; em vez de justificar, responsabilizar. O que adoece a alma humana não cabe em manuais, nem pode ser descrito apenas por critérios comportamentais. A dor psíquica é uma narrativa viva, singular, que precisa ser acolhida e interpretada e não apenas nomeada.

Talvez estejamos diante de um sintoma cultural que é a dificuldade de sustentar a própria falta e a angústia diante do não saber. O diagnóstico, quando banalizado, oferece uma ilusão de controle, uma forma de dar nome ao caos interno e se eximir da responsabilidade de lidar com ele. No entanto, crescer emocionalmente implica exatamente o contrário: reconhecer o que em nós pede elaboração e não simplesmente um rótulo que nos defenda daquilo que nos habita.

Assumir responsabilidade por si mesmo é sempre mais árduo do que aderir a uma categoria. Contudo, é só por esse caminho que a vida psíquica pode se tornar verdadeiramente viva e capaz de se transformar, em vez de se esconder atrás de um nome.

¨¨¨¨¨¨

A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

mockup