A masculinidade não se constrói no laboratório
Quando dificuldades nos relacionamentos, inseguranças ou sentimentos de fracasso passam a ser traduzidos como “falta de testosterona”, algo importante se perde que é a possibilidade de pensar
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segunda-feira, 06 de abril de 2026
Quando dificuldades nos relacionamentos, inseguranças ou sentimentos de fracasso passam a ser traduzidos como “falta de testosterona”, algo importante se perde que é a possibilidade de pensar
Sylvio do Amaral Schreiner 

Durante muito tempo, ser homem parecia algo já dado, quase como um roteiro pronto. Havia lugares definidos, ainda que atravessados por distorções, como o machismo, que ofereciam uma espécie de orientação. O homem provedor, forte, pouco afetado, inserido no mundo do trabalho e com uma posição relativamente clara na família e na sociedade. Esses modelos, embora limitantes e muitas vezes violentos, funcionavam como organizadores psíquicos. Eram, de certo modo, respostas prontas para uma pergunta mais profunda: o que é ser homem?
Hoje, essa resposta já não se apresenta com a mesma evidência. E isso, embora represente um avanço importante, ao desmontar estruturas rígidas e opressivas, também inaugura um território de angústia. Muitos homens se veem desorientados, como se tivessem perdido um lugar que antes parecia garantido. Não sabem exatamente o que se espera deles, nem como se situar diante de si mesmos, das mulheres, do trabalho, dos afetos.
É nesse vazio que surgem soluções aparentemente simples, mas profundamente empobrecedoras. A promessa de que a masculinidade pode ser restaurada por meio de ajustes biológicos, como o aumento inadequado da testosterona, é um exemplo bastante expressivo disso. Influenciadores propagam técnicas como exposição dos testículos ao sol, banhos gelados ou dietas específicas, associando níveis hormonais elevados a sucesso, disciplina e desempenho sexual. Esses conteúdos, que acumulam milhões de visualizações, constroem a ideia de que ser homem pode ser medido em exames de sangue.
No entanto, os próprios dados revelam algo inquietante: grande parte dessas publicações está vinculada a interesses financeiros, e apenas uma minoria é produzida por profissionais de saúde sérios. A chamada “baixa testosterona” passa a ser tratada como uma epidemia entre jovens saudáveis, quando, do ponto de vista clínico, o hipogonadismo é uma condição relativamente rara. O que se apresenta como uma questão médica generalizada parece, na verdade, funcionar como um sintoma de outra ordem.
Há, aqui, uma tentativa de transformar um conflito psíquico em um problema orgânico. Como se fosse possível resolver a angústia de não saber quem se é através de suplementos, rotinas rígidas ou intervenções no corpo. Mas a masculinidade não se constrói no laboratório. Ela não é um dado biológico puro, tampouco um ideal a ser alcançado por performance. Trata-se de uma construção interna, singular, atravessada pela história de cada sujeito, por suas identificações, por suas perdas e pelos modos como pôde, ou não, elaborar suas experiências emocionais.
Quando dificuldades nos relacionamentos, inseguranças ou sentimentos de fracasso passam a ser traduzidos como “falta de testosterona”, algo importante se perde que é a possibilidade de pensar. A vida psíquica é reduzida a um funcionamento mecânico e o sujeito é afastado de si mesmo. Em vez de se perguntar sobre seus desejos, seus medos, suas expectativas, ele passa a buscar correções externas, rápidas, que prometem devolver uma suposta virilidade perdida.
Talvez a crise da masculinidade não esteja na perda de um lugar, mas na perda de respostas prontas. E isso, embora desconcertante, pode ser também uma oportunidade. Ser homem hoje não implica corresponder a um modelo fixo, mas construir, pouco a pouco, um modo próprio de estar no mundo. Um modo que inclua força, mas também fragilidade; autonomia, mas também vínculo; desejo, mas também responsabilidade.
A tarefa não é restaurar uma masculinidade idealizada, mas suportar o trabalho de descobri-la. Isso exige tempo, contato com a própria vida emocional e a possibilidade de reconhecer que não há garantias prévias. Talvez o verdadeiro risco não seja a chamada “baixa testosterona”, mas a tentativa de evitar o encontro com aquilo que, em nós, ainda não tem nome e que, justamente por isso, precisa ser pensado, vivido e transformado.
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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina


