“A arte é a ponte entre a alma e o mundo”, diz o pintor austríaco Gustav Klimt. A frase é simples, mas carrega algo muito verdadeiro. Entre aquilo que sentimos por dentro e aquilo que conseguimos colocar para fora, existe um espaço difícil de atravessar. Nem tudo encontra palavras com facilidade. Nem tudo pode ser explicado. A arte parece nascer justamente desse intervalo.

Se pensarmos de forma prática, a arte não é necessária para a sobrevivência. Podemos viver sem música, sem pintura, sem poesia. Mas essa seria uma vida empobrecida. Não no sentido material, mas no sentido humano. Porque viver não é apenas continuar existindo, mas é também poder dar forma ao que sentimos, reconhecer nossas emoções, criar algum sentido para aquilo que nos atravessa.

Há experiências que não conseguimos dizer diretamente. Uma tristeza sem nome, uma alegria que transborda, um conflito que não se organiza. Quando essas vivências não encontram caminho, elas tendem a se acumular ou a aparecer de formas confusas. A arte oferece uma possibilidade de expressão para tudo isso. Não como uma explicação exata, mas como uma forma de transformar o que sentimos em algo que pode ser visto, ouvido, compartilhado.

Criar, nesse sentido, não é apenas produzir algo bonito. É uma maneira de lidar com a própria vida. Ao desenhar, escrever, compor ou até mesmo imaginar, a pessoa organiza internamente aquilo que antes estava disperso. Algo que era apenas sensação passa a ter forma. E, ao ganhar forma, pode ser reconhecido, pensado, vivido de outra maneira.

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Mas a arte não toca apenas quem cria. Quem entra em contato com uma obra também vive algo importante. Muitas vezes, ao ouvir uma música ou ler um poema, temos a sensação de que aquilo fala de nós, mesmo sem sabermos exatamente por quê. A arte nos alcança de um jeito direto, quase íntimo. Ela nos ajuda a perceber sentimentos que estavam ali, mas ainda não tinham sido notados.

Talvez seja por isso que a arte tenha um papel tão importante na nossa vida. Ela amplia nossa capacidade de sentir, de pensar, de nos reconhecer. Nos tira de um modo de vida mais automático, mais voltado apenas para resolver tarefas, e nos convida a olhar para dentro, ainda que por alguns instantes.

Sem esse tipo de experiência, a vida pode até seguir, mas perde profundidade. Ficamos mais duros, mais práticos, mas também mais distantes de nós mesmos. A arte, embora não seja necessária para o corpo, é fundamental para aquilo que nos torna humanos.

Quando Klimt fala em ponte, ele não está dizendo que a distância desaparece. Ela continua existindo. Mas a arte nos permite atravessar esse espaço. Ela cria ligações entre o que sentimos e o que conseguimos viver no mundo. E, nessa travessia, algo em nós se amplia, se organiza, se torna mais vivo.

Talvez seja por isso que, mesmo sendo “inútil” no sentido mais direto, a arte seja tão necessária. Porque ela não nos mantém vivos, porém ela nos ajuda a viver de fato.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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