Há uma frase atribuída a Cartola, compositor e poeta brasileiro que, à primeira vista, soa difícil de entender: “quem tem mãe não sabe o que está perdendo”. Aponta para algo que costuma escapar enquanto ainda está presente. A perda não começa no momento da morte; ela se insinua silenciosamente no passar dos dias, nas conversas adiadas, nos encontros que ficam para depois, nos gestos que já não se repetem com a mesma frequência.

A relação com a mãe é uma das primeiras experiências de vínculo que temos. É nesse encontro inicial que, muitas vezes, aprendemos algo sobre acolhimento, frustração, presença e ausência. Mesmo quando essa relação não foi ideal — e é importante reconhecer que nem toda mãe pôde ou soube exercer essa função de forma suficientemente boa — ainda assim há ali um campo de marcas psíquicas profundas, que nos acompanham ao longo da vida.

Quando a relação foi viva, possível, nutritiva em algum grau, o risco é justamente o da banalização. Aquilo que está disponível tende a ser tomado como garantido. A mãe que liga, que pergunta, que insiste, que repete histórias, tudo isso pode ser vivido como excesso, quando, na verdade, já é também uma forma de despedida em curso. Não uma despedida abrupta, mas um lento afastamento que o tempo impõe, dia após dia.

Há algo de delicado em perceber que estamos, sem perceber, “perdendo” a mãe aos poucos. Não porque ela já não esteja, mas porque o tempo, esse elemento incontornável, vai transformando a presença em memória, mesmo antes da ausência definitiva. Cada encontro não vivido, cada palavra não dita, cada gesto adiado, vai compondo uma espécie de perda.

Leia mais:

O valor de um vínculo muitas vezes só se revela plenamente na sua falta. Mas isso não significa que estejamos condenados a apenas reconhecer depois. Há uma possibilidade de elaboração no presente: a de sustentar a consciência de que o outro é finito, de que o tempo é limitado, e que os laços precisam ser habitados enquanto existem.

Aproveitar a mãe, quando essa relação é possível, não é idealizá-la nem colocá-la em um lugar sagrado. É, antes, reconhecê-la em sua humanidade (com falhas, excessos, limites) e ainda assim escolher estar. Às vezes isso se traduz em pequenas coisas como escutar com mais paciência, tolerar repetições, oferecer presença sem pressa.

No fundo, a frase de Cartola toca em algo simples e difícil ao mesmo tempo: só percebemos a dimensão de certos vínculos quando eles já não podem mais ser vividos. Talvez o trabalho psíquico aqui seja outro — o de não esperar a falta para reconhecer o valor. Porque, silenciosamente, enquanto a vida segue, já estamos nos despedindo. E talvez possamos fazer dessa despedida inevitável algo menos marcado pelo arrependimento e mais pela presença possível.

¨¨¨¨¨

A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

mockup