Quem tem mãe não sabe o que está perdendo
Cada encontro não vivido, cada palavra não dita, cada gesto adiado, vai compondo uma espécie de perda
PUBLICAÇÃO
domingo, 10 de maio de 2026
Cada encontro não vivido, cada palavra não dita, cada gesto adiado, vai compondo uma espécie de perda
Sylvio do Amaral Schreiner 

Há uma frase atribuída a Cartola, compositor e poeta brasileiro que, à primeira vista, soa difícil de entender: “quem tem mãe não sabe o que está perdendo”. Aponta para algo que costuma escapar enquanto ainda está presente. A perda não começa no momento da morte; ela se insinua silenciosamente no passar dos dias, nas conversas adiadas, nos encontros que ficam para depois, nos gestos que já não se repetem com a mesma frequência.
A relação com a mãe é uma das primeiras experiências de vínculo que temos. É nesse encontro inicial que, muitas vezes, aprendemos algo sobre acolhimento, frustração, presença e ausência. Mesmo quando essa relação não foi ideal — e é importante reconhecer que nem toda mãe pôde ou soube exercer essa função de forma suficientemente boa — ainda assim há ali um campo de marcas psíquicas profundas, que nos acompanham ao longo da vida.
Quando a relação foi viva, possível, nutritiva em algum grau, o risco é justamente o da banalização. Aquilo que está disponível tende a ser tomado como garantido. A mãe que liga, que pergunta, que insiste, que repete histórias, tudo isso pode ser vivido como excesso, quando, na verdade, já é também uma forma de despedida em curso. Não uma despedida abrupta, mas um lento afastamento que o tempo impõe, dia após dia.
Há algo de delicado em perceber que estamos, sem perceber, “perdendo” a mãe aos poucos. Não porque ela já não esteja, mas porque o tempo, esse elemento incontornável, vai transformando a presença em memória, mesmo antes da ausência definitiva. Cada encontro não vivido, cada palavra não dita, cada gesto adiado, vai compondo uma espécie de perda.
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O valor de um vínculo muitas vezes só se revela plenamente na sua falta. Mas isso não significa que estejamos condenados a apenas reconhecer depois. Há uma possibilidade de elaboração no presente: a de sustentar a consciência de que o outro é finito, de que o tempo é limitado, e que os laços precisam ser habitados enquanto existem.
Aproveitar a mãe, quando essa relação é possível, não é idealizá-la nem colocá-la em um lugar sagrado. É, antes, reconhecê-la em sua humanidade (com falhas, excessos, limites) e ainda assim escolher estar. Às vezes isso se traduz em pequenas coisas como escutar com mais paciência, tolerar repetições, oferecer presença sem pressa.
No fundo, a frase de Cartola toca em algo simples e difícil ao mesmo tempo: só percebemos a dimensão de certos vínculos quando eles já não podem mais ser vividos. Talvez o trabalho psíquico aqui seja outro — o de não esperar a falta para reconhecer o valor. Porque, silenciosamente, enquanto a vida segue, já estamos nos despedindo. E talvez possamos fazer dessa despedida inevitável algo menos marcado pelo arrependimento e mais pela presença possível.
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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina





