Você é o problema e a chave
Sair da repetição é um processo que pede coragem, pois implica abandonar certas formas conhecidas de existir em direção a algo ainda desconhecido
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segunda-feira, 27 de abril de 2026
Sair da repetição é um processo que pede coragem, pois implica abandonar certas formas conhecidas de existir em direção a algo ainda desconhecido
Sylvio do Amaral Schreiner 

É inquietante quando a vida parece girar sempre em torno dos mesmos impasses, dos mesmos problemas sempre se repetindo. Mudam-se os cenários, os rostos, os contextos, mas o enredo, de algum modo, se repete. Relações que começam promissoras e terminam da mesma forma, frustrações que retornam com nova roupagem, escolhas que, à primeira vista, parecem diferentes, mas conduzem ao mesmo ponto de dor.
Diante disso, é comum que a pessoa atribua ao acaso, ao destino ou, mais frequentemente, ao outro, a responsabilidade por essas recorrências. No entanto, quando a repetição se torna insistente, talvez seja necessário um deslocamento delicado, porém fundamental: considerar que há algo do próprio sujeito implicado nesse ciclo.
Isso não significa uma culpabilização simplista, como se alguém escolhesse conscientemente sofrer ou fracassar. Ao contrário, trata-se de reconhecer que muitas de nossas escolhas são atravessadas por aspectos inconscientes — formas de funcionamento que foram sendo construídas ao longo da vida e que, silenciosamente, orientam nossos caminhos.
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Repetimos não porque queremos, mas porque, de algum modo, não sabemos fazer diferente.
Há, nas repetições, uma tentativa psíquica de elaborar algo que não pôde ser plenamente vivido ou compreendido. Como se a mente insistisse em revisitar certos cenários na esperança de que, desta vez, algo se resolva. No entanto, sem que haja uma transformação interna, o desfecho tende a ser semelhante, ainda que os personagens sejam outros.
É por isso que a repetição, embora dolorosa, pode ser também uma via de acesso ao conhecimento de si. Aquilo que retorna carrega uma mensagem. Não uma mensagem óbvia, direta, mas algo que pede escuta, tempo e disponibilidade para ser pensado.
Quando alguém começa a se perguntar sobre o seu próprio lugar nessas histórias repetidas, em vez de apenas apontar o que veio de fora, algo começa a se modificar. Surge a possibilidade de perceber padrões nos modos de se vincular, expectativas irreais, dificuldades em estabelecer limites, formas de lidar com a frustração. Pequenos detalhes que, repetidos ao longo do tempo, constroem destinos que parecem inevitáveis.
Nesse sentido, dizer que “a pessoa é o problema” pode soar duro, mas talvez possamos reformular: a pessoa é também a chave. Não no sentido de controle absoluto sobre a vida, mas na medida em que, ao se implicar naquilo que vive, ela abre espaço para a mudança.
Sair da repetição não é simplesmente decidir agir diferente. Exige um trabalho interno mais profundo, que envolve reconhecer aquilo que, dentro de si, insiste em permanecer igual. É um processo que pede coragem, pois implica abandonar certas formas conhecidas de existir em direção a algo ainda desconhecido.
No fundo, repetir é uma forma de permanecer. Transformar-se, por outro lado, exige um certo tipo de perda: perder certezas, perder antigas formas de se proteger, perder a ilusão de que o problema está sempre fora.
Contudo, é justamente aí que algo novo pode começar a surgir. Não como uma promessa de uma vida sem frustrações, mas como a possibilidade de não estar mais condenado a viver sempre a mesma história.
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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina




