Um traço característico de nossa época que, embora pareça sofisticado, empobrece profundamente a experiência humana é a compulsão por explicar tudo. Vivemos um momento histórico em que cada sensação, cada encontro, cada obra de arte, cada gesto do outro precisa ser imediatamente decifrado, categorizado, traduzido em linguagem clara e inequívoca. Como se a vida só pudesse ser suportada quando submetida à lógica, como se o mistério fosse uma ameaça e não uma das formas mais preciosas de encantamento.

Esse excesso de explicações funciona, muitas vezes, como uma defesa emocional. Explicar é uma forma de controlar; compreender tudo é uma tentativa de evitar o impacto do desconhecido, a surpresa do que nos escapa, o susto de algo que nos atravessa sem pedir permissão. A psicanálise sempre ensinou que parte essencial da vitalidade psíquica nasce justamente do encontro com o que não se domina. São esses momentos de surpresa e até de inquietude que ampliam a mente, convidam à criação e abrem espaço para novas formas de ser.

A arte talvez seja o exemplo mais evidente dessa inflação de interpretações. Diante de uma pintura, de uma música ou de um poema, muitos já não se permitem sentir. Procuram imediatamente o significado oculto, o contexto histórico, o estilo do autor, a análise técnica. É curioso: quanto mais explicações se acumulam, menos se ouve o que a obra tem a dizer. A experiência sensível se perde, substituída por uma espécie de manual que tenta orientar o olhar, como se houvesse uma maneira correta de ser tocado por aquilo.

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Nos relacionamentos amorosos, algo semelhante ocorre. A espontaneidade, a descoberta gradual da intimidade, o movimento natural de aproximação e afastamento vêm sendo substituídos por um excesso de formalidade, por conversas que mais parecem contratos, por uma exigência de clareza instantânea sobre sentimentos que, por natureza, se constroem com o tempo. Explicar demais, nesse campo, pode impedir que o vínculo amadureça organicamente. O amor precisa de espaço para se insinuar, para crescer em seu tempo, para se revelar aos poucos e não suporta ser esquematizado como um cálculo.

O paradoxo é que, ao buscar explicações para tudo, a vida se torna mais árida. O encanto precisa de zonas de sombra; o desejo nasce do que não sabemos; a criatividade brota quando algo nos desorganiza por alguns instantes.

Bion, psicanalista inglês, dizia que pensar só é possível quando toleramos não saber. Essa capacidade negativa tão necessária para que algo novo possa emergir.

A vida fica chata quando perde sua porção de mistério. A alegria de viver está ligada à possibilidade de ser surpreendido, de encontrar beleza onde não se esperava, de se afetar por coisas que não cabem em palavras. Talvez a tarefa de nosso tempo seja aprender a devolver à experiência sua espessura, permitir que o indizível tenha lugar e reconhecer que nem tudo precisa ser explicado para fazer sentido. Algumas das melhores coisas da vida só existem porque existem.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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