Desde seu nascimento, a psicanálise habita o território do desconforto. Quando Freud ousou afirmar que o homem não é senhor de sua própria casa, abriu-se uma fenda na crença iluminista de que a razão tudo governa. Desde então, a psicanálise vem sendo alvo de controvérsias, desconfianças e resistências. Não apenas porque fala de temas que incomodam — o desejo, a sexualidade, o inconsciente —, mas porque nos confronta com aquilo que preferimos ignorar: a complexidade de nossa vida mental e o quanto ela escapa ao controle consciente.

Ainda hoje, mais de um século depois, a psicanálise segue provocando inquietação. Vivemos em uma época que valoriza a velocidade, a eficiência, o desempenho e a visibilidade. As tecnologias prometem respostas rápidas e soluções imediatas para o sofrimento humano. Aplicativos de humor, terapias breves, pílulas para o sono e manuais de autoajuda oferecem um tipo de conforto instantâneo, mas ineficaz. Nesse contexto, a psicanálise parece quase anacrônica porque pede tempo, silêncio e coragem para olhar para dentro. E é precisamente por isso que ela se torna mais necessária do que nunca.

Em um mundo saturado de estímulos, a capacidade de escutar a si mesmo está se perdendo. Passamos os dias conectados, informados e distraídos, mas pouco atentos à vida interior. A mente, sem espaço, perde a capacidade de sonhar, simbolizar e criar. Crescem, então, os sintomas de esvaziamento: ansiedade crônica, sensação de vazio, desamparo, intolerância e solidão. A psicanálise não oferece receitas nem promessas de felicidade, mas propõe algo radicalmente diferente. O convite para pensar, sentir e dar sentido à própria experiência.

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Freud dizia que o objetivo do trabalho analítico é “onde isso estava, o eu deve advir”, ou seja, ampliar o campo da consciência, integrar o que era desconhecido. Esse movimento é sempre transformador, ainda que doloroso, porque implica atravessar as próprias contradições, reconhecer os impulsos, aceitar as faltas. O trabalho analítico é um exercício de liberdade. Conhecer-se não para eliminar o sofrimento, mas para compreendê-lo e transformá-lo em algo que possa ser vivido.

No tempo presente, em que o humano se vê tentado a delegar à máquina o que antes era espaço de pensamento, a psicanálise resiste como um exercício de humanidade. Ela não se opõe à tecnologia, mas recorda que nenhuma inovação substituirá o trabalho de se escutar e se conhecer. O inconsciente não pode ser digitalizado nem traduzido em algoritmos; ele exige presença, relação. Exige um outro que escute, sustente e ajude a construir sentido onde antes havia apenas ruído ou dor.

Por isso, a psicanálise continua sendo subversiva e incômoda. Ela devolve ao sujeito a responsabilidade sobre si, convida-o a ocupar o próprio lugar e a pensar com a própria mente. Num mundo que busca anestesiar o mal-estar, ela o recoloca como parte essencial da vida psíquica. Não como algo a ser eliminado, mas compreendido.

Mais do que nunca, precisamos desse espaço onde se possa pensar sem pressa, falar sem ser interrompido e encontrar palavras para aquilo que o corpo ou o sintoma tentam dizer. A psicanálise é, portanto, um ato de resistência à banalização da mente e à pressa de curar sem escutar. Ela nos lembra que, sem o olhar para dentro, todo progresso técnico se torna vazio. Porque cuidar da mente é, em última instância, cuidar do humano e é isso que a psicanálise, silenciosa e teimosamente, continua a fazer.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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