Proliferam-se manuais de vida, perfis que ensinam a ser feliz, vídeos que prometem paz interior em cinco passos e livros que se apresentam como guias infalíveis para o bem-estar. A promessa é sempre sedutora. Seguir certas regras, controlar pensamentos, manter vibrações positivas e, assim, alcançar uma espécie de harmonia definitiva. No entanto, o que essas fórmulas ignoram é que a vida humana não se deixa domesticar por conselhos. O desejo, o inconsciente, as perdas e os conflitos que nos constituem não obedecem a manuais.

O fascínio por soluções rápidas e universais revela, em parte, o mal-estar que atravessa nossa época. Há uma ânsia por eliminar a incerteza, por conter o desamparo inerente à condição humana. As redes sociais amplificam esse fenômeno: perfis que crescem como portadores da “boa vida” oferecem a ilusão de que é possível existir sem dor, sem contradição, sem fracasso. O sujeito que se esforça por seguir essas fórmulas, cedo ou tarde, se defronta com a impossibilidade de aplicá-las à própria experiência. O resultado é muitas vezes culpa ou sensação de inadequação. Como se a falha estivesse nele e não na própria ilusão de que há um modo certo de viver. E isso tudo é muito prejudicial.

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A busca por um ideal de felicidade permanente é uma fonte de sofrimento. A vida psíquica é atravessada por forças ambíguas, por desejos inconscientes que se chocam com a realidade e com os limites do possível. “Viver bem”, portanto, não é eliminar o conflito, mas aprender a habitá-lo. O bem-estar não é um ponto fixo a ser alcançado, e sim um movimento que se constrói nas tentativas, nas perdas e nas reinvenções.

Cada sujeito precisa inventar o seu modo de viver e essa invenção é sempre única. A psicanálise, por exemplo, não oferece caminhos prontos, mas oferece um espaço para que a pessoa possa escutar a si mesma e, pouco a pouco, encontrar seu próprio caminho. O analista não dá conselhos nem prescreve soluções; ele acompanha o paciente na descoberta de seus desejos, de suas dores e de seus modos de se relacionar com o mundo. Assim, o viver bem vai se desenhando no percurso, não como uma meta, mas como um processo de tornar-se quem se é.

Há uma frase do poeta espanhol Antonio Machado que diz: “Caminhante, não há caminho; o caminho se faz ao andar.” A vida psíquica segue essa mesma lógica. Não existe trilha pronta, mapa seguro ou fórmula a ser aplicada. Há, sim, o ato de caminhar, de se perder e se reencontrar. O viver bem não é o resultado de uma receita, mas de uma construção contínua, feita de escolhas, de quedas, de pausas e de recomeços.

Em vez de buscar respostas prontas, talvez o desafio seja sustentar as perguntas. Reconhecer que o sentido da vida não se aprende em tutoriais, mas se descobre nas entrelinhas do próprio existir. Porque, afinal, viver bem não é seguir um caminho predefinido, mas é ter coragem de trilhar o próprio.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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