Fala-se muito em paz. Ela é celebrada em discursos, propagandas, camisetas, templos e canções. Todos dizem querê-la, como se bastasse desejá-la para que se instaurasse. No entanto, basta um pequeno contratempo tal qual uma divergência em casa, um atraso no trânsito, uma crítica no trabalho, para que essa paz tão proclamada se dissipe como neblina ao sol. A verdade é que muitos querem a paz, mas poucos estão dispostos a suportar o que ela exige: o encontro com o próprio tumulto interno.

A paz verdadeira não é um presente que nos chega do exterior, nem um estado conquistado pela ausência de conflitos. Ela nasce de um trabalho silencioso e contínuo de reconciliação com o que há dentro de nós. Paz é condição de quem aprendeu a lidar com as próprias tempestades sem precisar projetá-las no mundo. E podemos ir mais longe ainda ao dizer que a paz que tanto queremos ver no mundo lá fora não será possível se não tivermos paz dentro de nós mesmos. Queremos ‘consertar’ o mundo, trazer paz e coisas assim, mas basta olharmos de relance para o trânsito na frente de nossas casas e já vemos que estamos todos prontos para a guerra.

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Quando a mente está em desassossego, toda a vida se contamina de inquietação. As turbulências que atravessam famílias, casais, equipes de trabalho e até o trânsito urbano são expressões do quanto não estamos pacificados internamente. As guerras externas são prolongamentos das guerras íntimas, travadas diariamente entre partes de nós que ainda não se compreendem.

Estar em paz é, paradoxalmente, poder sustentar o conflito sem sucumbir a ele. É suportar as contradições humanas, o amor que coexiste com o ressentimento, a alegria que se entrelaça à dor, o desejo de controlar e a necessidade de soltar. A paz não é uma anestesia, mas uma lucidez: o reconhecimento de que o equilíbrio não é fixo, e sim uma conquista viva, renovada a cada dia.

Enquanto esperarmos que a paz venha de fora, ou seja, de governos, parceiros, circunstâncias ou silêncios artificiais, permaneceremos reféns de um ideal inatingível. A paz começa quando cessamos o ruído interior do ódio, da inveja, da cobrança incessante. Quando aceitamos ser o que somos, com nossas imperfeições e limites, a paz deixa de ser um sonho coletivo e se torna uma experiência possível.

Não haverá paz no mundo enquanto o sujeito não for capaz de encontrá-la em si. E esse encontro, como todo processo nessa vida, é demorado, profundo e exige coragem. Porque só encontra a paz quem atravessa, sem fugir, o próprio desassossego

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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