Realização de sonhos foi tema de Redação da UEL
Com relatos de quem almeja e faz acontecer, FOLHA aprofunda artigo de Sylvio Schreiner que foi objeto da Prova de Redação do Vestibular 2026 da UEL
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quinta-feira, 30 de outubro de 2025
Com relatos de quem almeja e faz acontecer, FOLHA aprofunda artigo de Sylvio Schreiner que foi objeto da Prova de Redação do Vestibular 2026 da UEL

“Viver o sonho do outro é sobreviver. Mas viver o próprio desejo é, enfim, existir.” O excerto foi retirado de uma edição da “Mundo Vivo”, coluna de Sylvio Schreiner veiculada semanalmente na Folha de Londrina, para servir como tema da Prova de Redação do Vestibular 2026 da UEL (Universidade Estadual de Londrina). Foi feita uma adaptação do texto do psicanalista, publicada em maio deste ano com o título “Quando o sonho não é seu: frustração de perseguir ideais alheios”.
Quase 15 mil candidatos redigiram textos dissertativos-argumentativos no domingo (26), primeiro dia de provas, nos quais tiveram que refletir sobre os próprios sonhos, em vez do que é almejado para eles. O colunista teve uma “boa surpresa” ao ser informado da escolha, posteriormente a aplicação da prova.
‘Construção do desejo’
Em seu texto, Schreiner refletiu sobre a importância dada a um objetivo comum na sociedade: correr atrás de seus sonhos, seja uma profissão específica, um estilo de vida ou uma imagem de sucesso. Disse que muitas pessoas que realizam o que acreditavam desejar acabam se deparando com uma vitória sem sabor, um vazio difícil de nomear e um sonho que se mostra estranho por nunca ter sido, realmente, delas.
Com base na psicanálise, o profissional explicou que é verdadeiramente difícil olhar para si e ter sonhos próprios, descobrir os gostos pessoais, do que somente ter a percepção mais rápida e nítida do que está fora e vem de terceiros. “Ver o que os outros esperam é muito mais fácil, você percebe isso, perceber a si mesmo exige mais e precisa de mais sutileza também”, considerou.
Tais desejos são construídos ao longo da vida, passando por caminhos que Schreiner descreveu como tortuosos. A idealização é influenciada por diversos fatores formativos, como as expectativas dos pais, o ambiente em que se cresce e a cultura na qual alguém é rodeado. As “muitas variáveis que existem na personalidade de uma pessoa” a costuram e formam quem ela é e como vê o mundo, pontuou o psicanalista.
Confiar na sensação
Schreiner foi questionado como alguém pode ter certeza se um sonho é realmente dele, ou se é um desejo induzido pela sociedade. Ele esclareceu que o fato não funciona como algo definitivo, e que a imagem formada ao longo dos anos pode passar por mudanças. “A pessoa vai sentindo se aquilo é realmente autêntico, para isso, precisa ser não só honesta consigo própria, mas também ter a sutileza de perceber ela mesma. Não tem como ter uma certeza, mas tem como sentir se aquilo é de fato o que ela está procurando.”
Quando existe um “desencontro entre a trajetória vivida e o desejo verdadeiro”, o sujeito pode passar por crises existenciais, ansiedades difusas ou até estados depressivos. “A pessoa corre atrás de uma coisa que, na verdade, não é o que ela está procurando, aí ela até alcança, mas vem um sentimento de não realização. Quando ela pode ir, de fato, ao encontro de si própria e alimentar o que realmente é, ela consegue uma satisfação verdadeira.”
A psicanálise oferece uma companhia para que o paciente se descubra e desapegue das falsas certezas, com disposição para buscar o “desejo ainda não nomeado”. Schreiner acredita que “muitas vezes, é apenas no fracasso do sonho idealizado que o verdadeiro desejo começa a se esboçar”.

Da marcenaria à psicologia
José Francisco Leite começou a trabalhar na marcenaria do pai quando era adolescente. Aos 17 anos, completou um curso no Senai e se qualificou como torneiro mecânico. Em 2010, cursando o ensino médio no Colégio Estadual Marcelino Champagnat no período da noite, uma professora sugeriu que ele pesquisasse sobre o curso de Psicologia, por acreditar que se encaixava no seu perfil.
Leite acatou o pedido e quis tentar a chance na faculdade, porém, se viu em uma encruzilhada com duas opções inviáveis. “A UEL tinha o curso, mas além de ser extremamente difícil de entrar, era integral e eu precisava trabalhar. Eu não conseguia pagar o curso particular, minha renda como torneiro mecânico inicial era baixa”, recordou. Com o desejo “ficando bem distante” de sua realidade, engavetou o sonho e passou a atuar em metalúrgicas.
Ele começou a se relacionar com uma caloura de Psicologia em 2016, logo antes de iniciar o curso para se tornar tecnólogo em Manutenção Industrial, com a intenção de ingressar na faculdade de Engenharia Mecânica. Com o incentivo da namorada e insatisfação com os estudos em 2017, decidiu realizar o sonho antigo, sendo que lhe foi concedida uma bolsa de 25% de desconto na mesma instituição em que a companheira estudava. “Fiz as contas e fui, mesmo sendo pesado (financeiramente)”, relembrou.
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‘Tudo vale a pena’
Formado em 2022, hoje, aos 34 anos, equilibra a tornearia mecânica em horário comercial com atendimentos como psicólogo clínico nos demais horários disponíveis, além dos fins de semana. Leite contou que é cansativo mediar as duas profissões, mas que enxerga a situação como um grande aprendizado. “Mesmo com as dificuldades, os desafios e percalços que aparecem no caminho, nunca pensei em desistir, porque faz sentido para mim”.
A conciliação demandou erros e acertos ao longo do tempo e acompanhamento, visto que “um psicólogo também precisa fazer terapia”. A psicologia é a profissão que Leite tem mais satisfação em exercer, sendo que ele busca uma transição total de carreira, processo que tem se mostrado lento, mas esperançoso. “Aceitar que meus objetivos vão levar um tempo para serem alcançados não foi fácil, mas hoje sei com tudo que aprendi até aqui que esse tempo não vai mudar ou alterar o meu sonho e que tudo isso vale a pena”, garantiu.

Uma década sonhando
Enquanto Leite passou por um processo mais longo até colocar o seu desejo em prática, Dahiana Espinola deu um grande passo em relação ao seu maior sonho com apenas 16 anos: se mudar ao Brasil, vinda do Paraguai, para crescer no futebol. Aos 19 anos, é zagueira na categoria sub-20 do Londrina Esporte Clube/Colégio Estadual Tsuru Oguido, o LEC Feminino, e treina com a seleção paraguaia.
O amor pelo esporte começou aos 8 anos de idade, quando foi pioneira em se matricular na escolinha de futebol da cidade em que cresceu, Alto Verá, como a única menina. “Foi ali que percebi que o futebol não era só uma brincadeira para mim, era o que eu queria fazer da vida. Sempre gostei da sensação de estar em campo, de competir e aprender”, contou.
Aos 12 anos, Espinola se mudou para atuar no San Luis Gonzaga, vestindo a camisa do time de futsal por quatro anos. Em 2022, foi convocada para atuar na categoria sub-18 da Seleção Paraguaia de Futsal Feminino.
Trajetória em solo pé-vermelho
Após conquistar títulos nacionais e internacionais, retomou o foco no futebol, emigrando para defender o Tubarão em 2023. “No Paraguai tive boas experiências, mas sabia que o futebol feminino tinha mais estrutura e mais chances de crescer no Brasil. Foi uma decisão difícil, porque eu era muito nova e deixei minha família, mas vim com o sonho de me profissionalizar e poder representar meu país e minha família com orgulho”, informou.
Desde então, Espinola vive em um alojamento de atletas na Bratac Seda, fabricante de tecelagem na zona oeste de Londrina e uma das patrocinadoras do Tsuru. Ela teve dificuldade em entender o novo idioma no início, afirmando que o português falado pelos brasileiros que moram no Paraguai é mais fácil de assimilar. “Às vezes eu usava um tradutor para falar com o professor e as meninas, demorei um pouco para aprender a falar bem, foi um desafio”, relembrou.
No início do ano, a zagueira foi convocada para participar de um ciclo de treinamentos para a Copa América Feminina 2025, representando a seleção paraguaia. Os treinos “intensos e muito bem planejados, com foco na parte física e tática” alavancaram o seu desempenho, considerou Espinola. De volta ao Brasil e defendendo o Londrina Tsuru, subiu ao lugar mais alto do pódio no Paraná Bom de Bola, campeonato finalizado no mês passado.

O que almeja para o futuro
Relembrando o caminho que percorreu na última década, quando foi fisgada pelo esporte, Espinola pensa “na menina que jogava na escolinha e sonhava em estar onde está hoje. “Se alguém perguntava qual era meu sonho, falava 'jogar na seleção e jogar por um clube em outro país’, claro que ainda tenho muito a conquistar, mas já me sinto muito feliz e grata por tudo que o futebol me proporcionou até aqui”, disse.
Ela completou dizendo que seu maior desejo ainda não realizado é atuar profissionalmente em um grande clube, talvez fora do Brasil, e defender a seleção principal do Paraguai. “Quero também inspirar outras meninas que têm o mesmo sonho que eu tive, mostrar que vale a pena acreditar e se dedicar. Onde há vontade, há chance de dar certo.”


Heloísa Gonçalves
Repórter com atuação em Educação, Saúde e Cidades.



